Edição de setembro de 2026
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Enquanto concluíamos esta edição, o governo federal anunciava o aumento do Bolsa Família, elevando o benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691. Esse acréscimo passará a valer a partir de outubro, no intervalo entre o primeiro e o segundo turno das eleições. Não é a primeira vez que o principal instrumento de transferência de renda do país se converte em moeda política em ano eleitoral, expondo-o ao risco de perda de eficácia como instrumento de combate à pobreza, sob um quadro fiscal já desafiador.
A decisão do presidente Lula impõe ao candidato vencedor da corrida presidencial uma despesa adicional de R$ 22 bilhões não prevista na peça orçamentária de 2027 – repetindo a história de 2022, quando a promessa de aumento do então chamado Auxílio Brasil pelo presidente Bolsonaro também estava fora da previsão orçamentária do primeiro ano do mandato seguinte, vencido por Lula. A Carta do IBRE desta edição detalha diferenças macroeconômicas e de aumento de gastos em ciclos eleitorais.
Esse aumento também jogará luzes à necessária revisão do desenho do programa, para que não gere risco de externalidades negativas – tal como analisado na Carta do IBRE de agosto de 2025, e seja adequadamente direcionado para seu principal objetivo: o combate à pobreza. Redistribuir o benefício de forma a concentrá-lo nas famílias que mais necessitam, bem como aprimorar sua integração com outros programas que contribuam para a inserção produtiva e emancipação dos beneficiários, também são agendas fundamentais.
Como destacam os entrevistados da matéria de capa desta edição, o combate à pobreza via transferência de renda é condição capital, mas não única para se enfrentar um dos principais desafios ao desenvolvimento sustentável do país: a desigualdade. Economias muito desiguais lidam com um problema social, mas também econômico, pois uma parcela do potencial de desenvolvimento das pessoas é desperdiçada, resultando em produtividade menor.
Essa é uma agenda de Estado, mas também da sociedade civil, de todo empresário ou cidadão em posição capaz de orientar recursos, sejam eles materiais, sejam intangíveis, na orientação contra entraves implícitos em marcadores sociais como de raça e gênero. Custa caro ser desigual. E desse ajuste fazemos parte.
Boa leitura.
Solange Monteiro – solange.monteiro@fgv.br
Carta do IBRE – Ciclo político de 2026 é um ingrediente a mais nas complicações macroeconômicas
O gasto público tende a ser mais elevado em períodos eleitorais, com o objetivo de gerar sensação de bem-estar, contribuindo para a popularidade do incumbente. No atual ciclo eleitoral brasileiro, o grosso das políticas com potencial de afetar o futuro das contas públicas está se dando pelo lado do crédito. Mas, diferentemente do que ocorreu em 2022, o hiato do produto é positivo, fazendo com que o impulso eleitoral se dê em uma economia já aquecida.
Ponto de Vista – A esquerda e o conflito distributivo
Nesta coluna, Samuel Pessôa analisa o esforço, desde a redemocratização, de resolver nossos problemas históricos de desigualdade e injustiças sociais no Brasil por meio de medidas que estimulam o consumo, dando menos destaque para a produtividade. Ele afirma que, hoje, os juros elevados expressam nossos limites de capacidade produtiva “frente a recursos limitados que crescem muito lentamente”. E alerta que, se a esquerda não conseguir enfrentar nossos limites de capacidade redistributiva, terá novamente que administrar uma grave crise econômica.
Entrevista | Silvia Matos – “Não adianta avançar na agenda de produtividade sem resolver o fiscal”
Nesta conversa, a coordenadora do Boletim Macro do FGV IBRE defende que, mesmo com a perspectiva de uma trajetória fiscal menos expansionista para 2027, é preciso uma política que resgate a credibilidade do mercado no controle da trajetória da dívida pública. “Só assim será possível reduzir o juro futuro e permitir que a política monetária siga seu curso natural”, afirma, indicando possíveis caminhos para se chegar nesse equilíbrio necessário.
Destaques – Blog do IBRE
Confira os principais temas abordados nas últimas semanas.
Capa | Inclusão – Por um Brasil inclusivo
Muito temos escrito sobre a necessidade de uma revisão das políticas sociais em busca de ampliar sua eficácia no combate à pobreza. Mas essa agenda não basta quando se trata de garantir mobilidade social. Tal como mostram os especialistas ouvidos nesta edição, combater a desigualdade é uma tarefa que pode ser estimulada pelo Estado, mas não depende apenas dele, e os custos de não a fazer são pagos por toda a sociedade.
Entrevista | Paula Frias – “Representatividade também impacta o serviço público”
Artigos
Reforma tributária, eleições e regimes diferenciados
Rubens Penha Cysne
Uma alíquota uniforme na tributação sobre o consumo beneficia os mais pobres
Mauricio Canêdo Pinheiro e Leonel Cesarino Pessôa
Onde se concentram os trabalhadores potencialmente afetados pelo fim da escala 6 x 1?
Bruno Ottoni
Riscos econômicos e geopolíticos para o Nordeste em 2027
Igor Lucena e Isadora Osterno
Ônibus gratuito ou tarifa módica?
Marcelo Miterhof
Regulação por indução no saneamento brasileiro: avanços e limites das normas de referência da ANA
Alesi Teixeira Mendes e Rui Cunha Marques
Navegar às cegas é perigoso
Luiz Firmino Pereira
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