Fator político da carta de Trump torna a negociação tarifária mas complexa, afirma Lia Valls

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
Apesar de o presidente dos EUA Donald Trump ter aberto a semana com sinais como uma ameaça ampla a países que se alinhassem a políticas dos Brics, reagindo às conclusões da Cúpula do bloco expressas na Carta do Rio de Janeiro (leia mais), e apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro em suas redes sociais, a carta de Trump encaminhada ao presidente Lula nesta quarta-feira (9/7) anunciando um aumento para 50% nas tarifas de importação de produtos brasileiros pegou de surpresa autoridades e analistas. Afora argumentos comerciais pouco claros, a justificativa de Trump incluiu a condição de Bolsonaro como réu por tentativa de golpe de Estado, bem como a desaprovação da ação do STF brasileiro sobre plataformas de mídia social americanas, tema que culminou em uma ação na justiça da Flórida contra o presidente do Supremo Alexandre de Moraes, movida pelas empresas Trump Media e Rumble, que alegam prática de censura que desrespeita as leis norte-americanas.
Lia Valls, pesquisadora associada do FGV IBRE, lembra que o uso de sanções comerciais com motivações políticas é prática que Trump exerce desde o início de seu mandato, como fez ao declarar aumento de tarifas de importação para produtos do Canadá e México, alegando vistas grossas desses países ao fluxo de imigrantes e drogas para o EUA. Ela lembra, entretanto, que isso torna as negociações mais complexas. Especialmente porque o caso brasileiro envolve questões de soberania do país. “Trata-se de uma negociação complicada, pois o governo brasileiro não deve abrir mão de sua posição quanto à não interferência em questões que são puramente do nosso território”, afirmou – o que de fato aconteceu na resposta do Itamaraty, que classificou o documento ofensivo, devolvendo-o à representação americana em Brasília na própria noite de quarta-feira.
Outro elemento que torna esse quadro sensível, diz Valls, é a falta de fundamento da alegação de Trump de uma “longa e muito injusta relação comercial”, lembrando que na balança de comércio com os EUA o Brasil é deficitário desde 2009, ainda que essa margem tenha se estreitado nos últimos dois anos. O Brasil tem até o dia 1º de agosto, prazo dado por Trump para iniciar a aplicação da nova tarifa ampla, para buscar uma solução, mesmo prazo dado aos outros 20 países que até então tinham recebido a carta de Trump definindo, unilateralmente, as novas tarifas.
De todos os países comunicados até esta quarta-feira, o Brasil é o único que registrou um salto em relação à tarifa anunciada no Liberation Day, no início de abril, então de 10%. Entre os demais países, o maior aumento tarifário registrado foi para as Filipinas, dos 17% anunciados no Liberation Day para 20%. A tarifa do Japão aumentou de 24% para 25%, e as de África do Sul e Coreia do Sul se mantiveram, respectivamente, em 30%. Com a decisão de Trump, as importações gerais do Brasil serão mais taxadas até que as da China, que após a última negociação com os EUA caiu de 145% para 30%.
“Além da alegação no campo comercial ter sido muito genérica, o Brasil tem pouca margem para retaliar de forma a prejudicar os norte-americanos preservando os brasileiros, posto que não são tantas as barreiras impostas à entrada de produtos dos EUA aqui”, afirma Valls. Por outro lado, há produtos como a carne bovina que, se sobretaxados, poderão sensibilizar o consumidor ou produtor americano. Um exemplo é o das carnes, que foram o terceiro item agropecuário mais vendido pelo Brasil aos EUA – atrás de produtos florestais e café – com embarques que totalizaram US$ 1,41 bilhão em 2024, suprindo uma oferta doméstica fraca. Em comunicado divulgado na noite de quarta-feira, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) destacou o impacto do aumento da tarifa nesse setor produtivo, defendendo que “questões geopolíticas não devem se transformar em barreiras ao abastecimento global”. A Abiec ainda destacou que no primeiro semestre deste ano os EUA foram o segundo principal destino das exportações brasileiras, com embarque de 181,5 mil toneladas e US$ 1,04 bilhão em receita.
Entre outros setores mais afetados estão óleos combustíveis de petróleo, aeronaves e suas partes, além do de minério de ferro. Uma potencial queda de exportações aos EUA – que em 2024 foram o segundo maior comprador do Brasil, com 11% do total, perdendo apenas para a China, com 30% - são os efeitos cambais, com desvalorização do real frente ao dólar, impactando a inflação e o horizonte de corte de juros.
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