Governo Trump: “Surpreende-me a falta de propostas concretas no campo comercial”, afirma Livio Ribeiro
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
Apesar de reforçar a linha dura prometida em campanha, com a assinatura de dezenas de decretos que foram da anulação de ações do governo Biden – como a que reinseria os EUA no Acordo de Paris, do qual Trump já havia tirado o país em seu primeiro mandato –, à declaração de emergência nacional na fronteira entre EUA e México, saída da Organização Mundial de Saúde e o decreto de emergência energética, visando à ampliação da exploração de petróleo e gás, medidas no campo tarifário ainda ficaram na promessa.
Enquanto em campanha, Trump prometeu impor tarifas alfandegárias de 25% sobre todos os produtos estrangeiros e 60% ou mais sobre produtos provenientes da China. “Surpreende-me a falta de propostas concretas no campo comercial”, afirma Livio Ribeiro, quanto a essa primeira leva de decretos. Nada que se possa classificar como um bom sinal, posto que amplia a perspectiva de imprevisibilidade quanto à sua gestão, e tudo que gera incerteza é inimigo de decisões de negócio. Mas o fato é que, mesmo na referência de mais curto prazo, relacionada à possibilidade de impor taxas de 25% a produtos importados de México e Canadá a partir de 1º de fevereiro, sob a alegação de que ambos os países estão fazendo vistas grossas à ao fluxo de imigrantes ilegais e drogas para os EUA, parece haver margem para negociações. Quanto às tarifas adicionais contra a China, sequer houve a definição de prazos. As menções iniciais à China foram quanto à participação chinesa na operação do Canal do Panamá e a intenção de trabalhar com Pequim em várias questões, que incluem o comércio bilateral.
Para Ribeiro, ainda falta “substância” para se avaliar impactos dessas primeiras medidas. “Mesmo aquelas relacionadas à imigração, há questões, como a da cidadania de filhos de imigrantes ilegais nascidos em território americano, que dependem de mudança constitucional, não são definidas por decreto”, ressalta.
No Boletim Macro FGV IBRE de janeiro, Ribeiro destaca que o caminho de redução da taxa de juros básica americana, a Fed Fund, dependerá de como o giro político de Trump impactará a inflação. Em dezembro, quando houve o corte de 25 pontos base, levando a Fed Fund para a faixa de 4,25%-4,5%, o comitê de política monetária americano (Fomc) já havia sinalizado que ajustes adicionais para baixo dependeriam “da evolução dos dados, da avaliação do cenário e do balanço de riscos”. No caso das promessas do novo governo, tanto a deportação massiva de imigrantes quanto o aumento de tarifas de importação têm potencial inflacionário. “Permitir a deportação não significa que ela de fato acontecerá. Mas certamente isso afetaria muito o mercado de trabalho, a começar dos setores de base, mas com potencial de espalhamento a outras atividades”, diz. Ribeiro ressalta, entretanto, que a preocupação com a evolução dos preços já existe, independentemente da entrada de variáveis novas na conta. “O comportamento geral da economia americana é um comportamento que sugere que você pode ir mais devagar com os cortes, pois a atividade está forte e a inflação já está pressionando a atividade”, diz, indicando que, no curto prazo, tudo aponta para uma acomodação dos juros no atual nível. “Para a reunião do FED da semana que vem, faz todo sentido que se postergue a decisão de novos cortes”, diz, lembrando que na mediana das últimas avaliações dos membros do Fomc, ainda se prevê dois cortes de juros em 2025, para uma taxa terminal a 3,75%-4%.
Na edição de janeiro do Boletim, Ribeiro ainda é autor de uma análise das contas externas brasileiras – para as quais também mantém as projeções, não indicando, por ora, fatores na política do governo Trump que alterem significativamente o panorama. Para a balança comercial, a estimativa é de um superávit de US$ 80 bilhões em 2025, resultado que, afirma, reflete em especial a desvalorização cambial. “Há perspectivas de uma boa safra para as commodities agrícolas que exportamos, ainda que haja incerteza sobre os termos de troca, com alta volatilidade nas projeções. Já a elasticidade-câmbio tende a ser maior nas importações, e aqui vemos que o ritmo de absorção doméstica continua forte, com tendência a permanecer assim até meados do ano”, afirma, lembrando que esse aquecimento pelo lado da demanda se sobrepôs ao efeito da depreciação cambial em 2024.
Para a conta corrente, Ribeiro projeta para este ano um resultado melhor do que em 2024, “em grande parte devido a uma diferença importante na projeção de saldo comercial”. Já para o balanço de pagamentos, Ribeiro ressalta a atuação do Banco Central no final de 2024, com a venda de divisas para suavizar a depreciação do real frente ao dólar, e sinaliza que este ano será marcado pela menor capacidade de acumular ativos de reserva. “Temos agora um cenário de juro americano mais alto, de estímulo ao crescimento na China, e de profundas incertezas na economia internacional. Acho que essa composição acaba falando mais alto que o barateamento relativo do Brasil para investir. Como já mencionamos há algum tempo, com um financiamento mais estreito, nossa margem para se recompor de choques rapidamente se reduz, e acho que essa é a história de 2025”, afirma.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.