Voltar
27 Nov 2024

Estudo revela perfil dos céticos climáticos no Brasil e América Latina, indicando diferenças em relação aos EUA e Europa

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

No Brasil e no mundo, uma das tarefas de base para se avançar em políticas focadas no combate e na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas é ter o apoio da sociedade quanto à sua prioridade. A eficiência da comunicação de governos sobre essa agenda depende, entre outros fatores, de se conhecer qual o perfil dos céticos climáticos, nos quais esses esforços precisam ser concentrados.  

Matias Spektor, vice-diretor da Escola de Relações Internacionais da FGV (FGV RI), afirma que a literatura e as evidências para o norte global – países europeus e os Estados Unidos – apontam que os céticos dessas regiões têm um perfil similar, influenciado por marcadores demográficos e políticos. “Em geral, pessoas mais jovens, de esquerda e moradoras de centros urbanos acreditam nas mudanças climáticas, enquanto pessoas mais velhas, de direita, moradoras nas áreas rurais, tendem a negá-las”, descreve. No Brasil e na América Latina, entretanto, os céticos climáticos não seguem essa mesma cartilha. É o que indica estudo apresentado esta semana no VIII Simpósio de Pesquisa e Inovação da FGV, de autoria de Spektor, Juliana Camargo, professora da FGV RII, e Guilherme Fasolin, da Vanderbilt University.  “Em nossa região, esse marcador não é demográfico, não é ideológico, mas está relacionado com o grau de individualismo do sujeito, medido a partir do grau de descrença no Estado”, afirma.

O trabalho parte de uma pesquisa survey realizada em sete países latino-americanos – Brasil, Argentina, Chile, Peru, Equador, Colômbia e México –, a primeira iniciada na América Latina. Um paper com os primeiros resultados, sobre as determinantes da crença em mudanças climáticas na região, foi publicado na revista Nature Communications.

Para delinear esse perfil, os autores fragmentaram a crença nas mudanças climáticas em três: sobre sua existência; sobre ser causada pela ação do homem; e sobre as consequências severas que provocam.  “Observamos que não há ceticismo no Brasil e na América Latina quanto à existência das mudanças climáticas, nem sobre o papel do homem nesse processo”, diz. O consenso sobre esse fenômeno supera os 90% em todos os países pesquisados. “Nos Estados Unidos, ao contrário, esse é um tema que polariza a sociedade, meio a meio”, compara. O mesmo nível de consenso é obtido na região sobre à origem antropogênica desse fenômeno – nesse caso, a pior performance é a brasileira, com 91% de respostas positivas.  

Crença nas mudanças climáticas no Brasil

 

Crença dos impactos negativos das mudanças climáticas no Brasil


Fonte: "Climate change beliefs and their correlates in Latin America", FGV RI.

Os céticos do clima no Brasil e na América Latina começam a aparecer quando se trata da crença sobre os efeitos severos provocados pelas mudanças climáticas.  Nesse caso, o resultado no Brasil cai para 56% de respostas assertivas. O nível mais alto de aceitação registrado na região é o da Colômbia, com 75%.

Se o não-reconhecimento dos efeitos das mudanças climáticas não acontece como nos EUA e Europa, determinado por perfis políticos e sociodemográficos, o que determina os céticos latino-americanos? Quando se trata do fator crença nas mudanças climáticas, um elemento de destaque apontado por Spektor é o da existência de consenso científico sobre o assunto. “Se a pessoa suspeita que a comunidade científica está dividida, ela deixa de acreditar”, diz. Não à toa, pontua Spektor, os céticos climáticos no Brasil usam esse tema como carro-chefe de sua comunicação. “Outra coisa que contribui para essa crença nas mudanças climáticas é ter atravessado um evento extremo, como enchente ou seca – mas isso não é necessariamente preditor de que essas mesmas pessoas considerem que as consequências sejam severas”. Sobre as consequências desse fenômeno, que é onde se concentra o ceticismo brasileiro e latino-americano, o principal preditor identificado no estudo, diz Spektor, é o grau de individualismo, medido a partir do grau de descrença na capacidade do estado em oferecer soluções a problemas coletivos. Esse é um elemento, afirma, que perpassa todo o espectro político.

“Se olharmos os resultados por regiões brasileiras, observamos que aquelas em que há menos crença na mudança do clima e na ação humana sobre ela são Norte e Sul. Mas é no Centro-Oeste onde há mais pessoas que acreditam no impacto severo das mudanças climáticas – região onde o voto para a direita é predominante na última década”, ilustra. Outra característica observada pelos pesquisadores é de que em municípios que são fronteira agrícola a crença sobre os efeitos severos das mudanças climáticas também é maior. Spektor ressalta que o estudo não engloba os motivos pelos quais o fator político não influencia tanto quanto nos EUA e Europa, mas sugere algumas hipóteses. “No caso brasileiro, claramente a direita tratou a questão do clima como um distintor nas eleições de 2018 e 2022, mas isso não significa que seja um fenômeno de direita. Temos que lembrar ainda que o sistema político brasileiro, diferentemente do americano, não é polarizado em dois partidos, oferecendo menos rigidez. Em um sistema com múltiplos partidos, eleições proporcionais e possibilidade da formação de coligações, a adesão partidária não é visceral”, afirmou, citando o trabalho do cientista político Cesar Zucco (FG Ebape) sobre o tema. “Outro elemento a se considerar é que a América Latina é marcada por uma esquerda desenvolvimentista, que apresenta certa resistência a ideias pró-clima que tragam custos para o modelo clássico industrializante.” Quanto à determinante que revela maior descrença no papel do estado, Spektor considera que isso pode estar relacionado à percepção de que os problemas ocasionados por uma enchente, por exemplo, se devam mais a questões de política de urbanização ou habitacional do que ao aumento da severidade dos eventos climáticos. “Na América Latina observamos esse complicador sobre atribuição, que também está relacionado à comunicação.”

Spektor afirma que a descoberta da diferença entre os preditores latino-americanos e do norte global foi surpreendente também para os pesquisadores, e que isso pode fazer toda a diferença para o sucesso da comunicação dos gestores públicos quanto às políticas de mitigação e adequação aos efeitos do aquecimento global.

“Um ponto positivo é que, diferentemente do que acontece nos Estados Unidos – onde a direita consegue montar um governo hegemônico por quatro anos, levando maioria no Senado, Câmara e Corte Suprema, e trancando essa pauta –, aqui a mensagem pró-clima pode ser vendida tanto para a direita quanto para a esquerda.” O outro lado dessa moeda, entretanto, é que essa falta de segmentação clara abre um mercado amplo também para o ceticismo climático. “O desafio é encontrar mensagens pró-clima que possam chegar a pessoas que sendo de esquerda ou direita e que batam na tecla do grande preditor da descrença na capacidade do estado de prover serviços públicos de qualidade para o cidadão”, resume.

Quais os caminhos? O primeiro, é o de comunicar melhor os consensos científicos – “ melhor antídoto contra a desinformação, no qual governo, setor privado, e sistema educacional como um todo deveriam insistir”, diz. Outra frente a ser observada, defende Spektor, é a de apresentar a ação pró-clima em termos individuais, “mobilizando o imaginário de pessoas que não são necessariamente céticas sobre as mudanças climáticas, mas sim da capacidade do estado em prover respostas”, afirma. Para isso, defende Spektor, é preciso mobilizar fontes críveis para essa população – que podem estar menos na figura de um ministro, e mais no grande empresário ou influencer, que se apresentam como self made man. “É importante ativar essas pessoas, senão continuaremos comunicando só com metade da população.”

O estudo agora avança em identificar a percepção dos latino-americanos sobre o risco climático. Juliana Camargo afirma que as percepções coletadas entre brasileiros apontam maior consciência da proximidade desses riscos, seja em âmbito espacial ou temporal. “As respostas apontam a que já não prevalece a ideia de que outras pessoas é que estão mais expostas a esses riscos, ou que só a geração futura é que terá que lidar com isso”, diz.

Contrariamente ao que a literatura aponta para países do norte global, novamente os determinantes identificados não são políticos, ideológicos ou sociodemográficos. “Nas regressões que fizemos, percebemos que a maior associação é com variáveis relacionadas a fatores psicológicos, sobre quanto as pessoas estão preocupadas”, afirma Camargo, indicando a emergência de uma agenda sobre ansiedade climática – que pode ser provocada tanto pelo aumento da exposição das pessoas a notícias sobre eventos climáticos severos, ou a própria exposição a eles, alimentando a sensação de vulnerabilidade.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.