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25 Nov 2024

Primeiras impressões sobre o impacto de Trump para o comércio exterior brasileiro

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

A formação de uma equipe classificada como linha-dura pelo presidente eleito dos Estados Unidos Donald Trump tem trazido preocupações sobre a evolução do comércio mundial a partir de 2025. Nesse campo, a principal ameaça de campanha de Trump foi a de elevação das tarifas de importação do país em 60% para a China e de 10% a 20% para outros países. Além de efeitos inflacionários que poderão mexer em câmbio e juros naquele país, complicando o caminho de queda da Selic no Brasil, os impactos para o comércio também deverão chegar até aqui, ainda que sua extensão por ora seja difícil de prever.

“Pode ser que esse aumento não alcance os valores inicialmente declarados, mas ainda há a possibilidade de que o aumento de tarifa seja usado em negociações cruzadas”, afirma Lia Valls, pesquisadora associada do FGV IBRE, coordenadora do Indicador de Comércio Exterior (Icomex) do IBRE. Valls cita como exemplo o caso do México, para o qual Trump já sinalizou uma alta maior que a média, de 25%, caso não se resolva a questão emigratória, “tema de difícil resolução em curto prazo”, salienta.

No Boletim Macro de novembro, a pesquisadora destaca dados do WITS Trade, do Banco Mundial, que aponta o Brasil no sétimo lugar entre os 116 países com os quais os Estados Unidos têm superávit comercial – situação que, a princípio, pode jogar a nosso favor. “No entanto, basta lembrar que, quando no primeiro mandato, Trump, por questões de segurança nacional; impôs restrições para vários produtos siderúrgicos e de alumínio, o Brasil não foi excluído”, ressalta. Ela ilustra que em dois grupos de produtos siderúrgicos entre os quais estão semifaturados de ferro e aço não ligados, e que juntos representaram 11% do total exportado aos EUA de janeiro a outubro deste ano, a dependência do mercado americano está na casa dos 80%. Do risco de impacto com a alta de tarifas e substituição pela produção local americana, o item com maior chance de escapar ileso são os aviões da Embraer, destaca, por serem modelos sem concorrentes após a canadense Bombardier abandonar a aviação comercial, além do fato de a Embraer já ter operações no país. Em 2024, até outubro, o segmento da aviação correspondeu a 5% das exportações aos EUA. Valls destaca, entretanto, que as vendas brasileiras aos Estados Unidos são altamente diversificadas – mais de 4 mil itens – e que encontrar mercado substituto para muitos produtos “é uma tarefa que nem todos conseguem executar com rapidez”, especialmente em um contexto de redução da dinâmica do comércio global, como costuma acontecer em um contexto de aumento de medidas protecionistas.

Principais produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos: Jan-out 2024


Fonte: Comex Stat/ Secretaria do Comércio Exterior.

Os Estados Unidos são o segundo maior destino das exportações brasileiras. No acumulado de 2024 até outubro, somou 11,6% do total das exportações, perdendo apenas para China, com 29,3%. No Icomex de novembro, Valls e os pesquisadores do IBRE responsáveis pelo Indicador destacaram que, este ano, o desempenho das exportações aos Estados Unidos têm superado o da China, com um aumento de 11,5% em volume exportado, contra 3,9% para os chineses, no acumulado até outubro em relação ao mesmo período de 2023. A diversificação da pauta também chama a atenção: os 15 principais produtos embarcados ao país detêm 53% do total exportado aos EUA nos dez primeiros meses do ano, enquanto as vendas para China se concentram majoritariamente em soja em grão, petróleo e minério de ferro, que concentram 77% do total no mesmo período.

Valls ressalta que, da mesma forma que as medidas prometidas por Trump podem gerar impactos negativos, há a possibilidade de desvios de comércio que beneficiem o país, como já foi o caso da soja, em função da retaliação chinesa ao produto americano. Em um cenário de acirramento do conflito comercial entre China e Estados Unidos, entretanto, pode ser que essas aberturas também sejam alvo de negociação. Para a especialista, os 37 acordos bilaterais assinados entre os governos brasileiro e chinês na visita de Xi Jinping ao Brasil por ocasião do G20 não devem, a princípio, ser motivo de preocupação imediata dos EUA. “Mesmo o que envolve a área de satélites com a empresa SpaceSail (rival da Starlink, de Elon Musk), se trata de um memorando de entendimento, que ainda demandará tempo para produzir frutos”, diz, lembrando que, dos 37 acordos, 24 se tratam de memorandos de entendimento. “Os itens que implicam abertura mais imediata de mercado, com autorização chinesa para o Brasil exportar não estão no radar dos EUA: farinha e óleo de peixe, sorgo, gergelim e uva fresca.”

Quanto à negativa do Brasil em participar da Nova Rota da Seda, Valls considera que está linhada com a estratégia diplomática brasileira.  “Se observar o início do texto do acordo, verá o destaque para a palavra sinergia, que remete à ideia de privilegiar projetos que sejam construídos conjuntamente”, destacou, lembrando que, em um contexto em que os limites da estratégia de Trump no campo comercial ainda terão de ser testados, é uma estratégia que revela prudência. “Há pontos de vista como o do professor Evandro Carvalho, da FGV, especialista em China, que ponderam que uma não-adesão implicará ao Brasil perder a chance de se tornar o coordenador regional dos projetos da Rota da Seda na região, favorecendo a formação de uma comunidade latino-americana de nações. Hoje, entretanto, o cenário político na região também revela complexidades que dificultariam esse plano de integração”, afirma.

Sobre as relações Brasil-China, leia também a entrevista de Livio Ribeiro (FGV IBRE): “Não é óbvio que uma China que cresce menos seja um problema”.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.