Voltar
25 Out 2024

Em Foco

“Uma nau sem rumo num mar de desperdício de recursos”

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

O economista Roberto Castello Branco, ex-diretor de relação com investidores da Vale e ex-presidente da Petrobras, lança no próximo dia 7 de novembro, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, no Rio, o livro Petrobras: a luta pela transformação, traçando um perfil da maior companhia petrolífera da América Latina. Em dez capítulos, Castello Branco narra sua primeira experiência na Petrobras como membro do Conselho de Administração, cargo que exerceu de maio de 2015 a abril de 2016, quando foram lançadas as bases para a reestruturação da companhia, marcada por graves problemas herdados de gestões anteriores. Foi nesse período que se estruturaram sólidos padrões de governança que, como lembra Castello Branco, pouco depois do fim de seu mandato no Conselho, “ganharam a proteção dada pela sanção da Lei 13.303, a Lei das Estatais, em 30 de junho de 2016”.

Mas é no capítulo 1 do livro que ele narra os bastidores da reunião que teve no Planalto, no dia 5 de fevereiro de 2021, quando a pandemia da COVID estava no seu ápice. A reunião, convocada pelo então presidente Jair Bolsonaro, acabou sacramentando a sua saída da presidência da estatal, em abril do mesmo ano, já que havia uma forte pressão para que a Petrobras reduzisse os preços dos combustíveis, especialmente do diesel, em função de movimentos dos caminhoneiros.

(O governo estava assustado e pressionado pela greve dos caminhoneiros que eclodiu no dia 21 de maio de 2018, durante dez dias, que paralisou os serviços de fornecimento de combustível, distribuição de alimentos, insumos médicos, interrompendo estradas e levando o país à beira de um colapso. Sinais eram emitidos de que uma nova paralisação poderia ocorrer, se os preços dos combustíveis não baixassem).

Em seu relato da reunião do dia 5 de fevereiro, Castello Branco, que foi a Brasília usando máscara, já que estávamos no auge da pandemia, conta que ao adentrar na sala onde estavam vários ministros, além do presidente Jair Bolsonaro, notou que quase ninguém usava máscaras. Cumprimentavam-se efusivamente, como se não houvesse pandemia ou possibilidade de contágio. Ali percebeu que estava em outro mundo, diferente do que acreditava e defendia.

Ao longo da reunião, o foco foi a política de preços da Petrobras que, segundo conta, sofreu várias críticas: todos defendiam redução de preços, numa clara interferência do governo na administração da estatal. Mesmo após a sua explanação para responder aos questionamentos e mostrar as razões da política de preços seguida pela Petrobras, Castello Branco saiu da reunião com o sentimento de que sua missão na estatal havia chegado ao fim.

Na introdução do livro, ele escreveu: “A história da Petrobras revela quão prejudicial pode ser a in­tervenção do Estado na atividade econômica, sendo esta a principal responsável pelo lento crescimento econômico e pela geração de pobreza. A atuação de uma estatal de grande porte em atividades típicas da iniciativa privada é prejudicial para a economia, e não tenho dúvida de que a privatização é a melhor alternativa”.  E continua: “Estou certo de que, sob controle do Estado, a Petrobras continuará a se comportar como uma nau sem rumo num mar de desperdício de recursos”.

Mas o coração do livro está concentrado nos capítulos de 4 a 10, período em que Castello Branco foi o presidente da Petrobras e membro do Conselho de Administração. Nesses capítulos estão descritos os desafios para preparar a empresa para gerar valor aos seus acionistas de forma sustentável. Como a companhia se portou, e deu respostas, à pandemia, pelo lado da saúde, que culminou com 7 milhões de mortes no mundo – no Brasil, passamos das 800 mil. E os efeitos da recessão econômica global, que entre suas várias vertentes provocou um colapso nos preços do petróleo, os menores observados nos últimos 20 anos.

Castello Branco, em sua rica análise sobre a Petrobras e a indústria do petróleo, afirma que “uma política não deve ser avaliada por suas intenções, mas por seus resultados concretos. Há 125 anos vivemos de combus­tíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural) e, mesmo depois de investimentos trilionários em fontes renováveis, eles ainda representam 82% do consumo global de energia primária. Em 1997, eram 87%. Ao lado das dificuldades para descarbonizar o mundo, é crucial investir para enfrentar os efeitos da mudança climática, que já se manifestam sob a forma de ondas de calor e enchentes. O desenvolvimento econômico é fundamental para dispormos dos recursos necessários para vencer esse colossal desafio. À luz desse cenário, discutimos os caminhos a serem seguidos pela indústria do petróleo e pela Petrobras”.

É leitura obrigatória para conhecer os meandros da maior empresa da América Latina e a indústria do petróleo, num período em que o mundo discute a transição energética. Uma boa leitura.

 

Leia também: "Infelizmente, no Brasil as reformas são diluídas pelo populismo" – entrevista de Roberto Castello Branco para a Conjuntura Econômica de agosto de 2024.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.