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18 Set 2024

Icomex: superávit no comércio de petróleo atenua piora do saldo nos demais produtos

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

O Icomex do FGV IBRE, divulgado nesta terça-feira (17/9), apontou o aumento da importância das exportações de petróleo e derivados para o superávit comercial brasileiro. No acumulado de janeiro a agosto deste ano, esse grupo representou 37,5% do saldo comercial. Sem essa participação, a queda no superávit dos demais produtos afetaria ainda mais o resultado geral, afirma Lia Valls, pesquisadora associada do FGV IBRE.  

No acumulado do ano até agosto, o superávit primário geral está US$ 8,3 bilhões abaixo de 2023, quando somou US$ 62,4 bilhões. Nesse período, as exportações registaram queda de 3,3% em preço e aumento de 4,5% em volume exportado em relação a janeiro-agosto de 2023. Para o grupo de petróleo e derivados, esses números são de um aumento de 17,9% em volume das exportações e alta de 0,4%. Voltando aos números agregados, as importações caíram 8,6% em preço e expandiram 14,2% em volume. O Icomex ainda mostra que, enquanto as exportações de commodities registraram aumento de 9,1% em volume e queda de 4,8% em preço em relação a 2023, as de não-commodities registraram o movimento contrário: aumento de 0,3% no preço e queda de 5,3% no volume.

A pesquisadora destaca que, na última década, o saldo comercial brasileiro em petróleo e derivados passou de um déficit de US$ 10,9 bilhões em 2014 para um superávit de R$ 20,3 bi este ano, ainda analisando o período de janeiro a agosto. O resultado passou a ser superavitário a partir de 2017, quando registrou US$ 4 bilhões, e desde então marca saldos crescentes – com exceção de 2022. Além do impulso da produção do pré-sal, Valls destaca que questões geopolíticas também influenciaram na evolução do mercado internacional do petróleo, refletindo-se no comércio brasileiro. Ela ilustra, por exemplo, o ganho de participação da União Europeia como compradora do petróleo brasileiro – o que pode ser atribuído, em parte, ao impacto da guerra da Rússia na Ucrânia, com a necessidade de o bloco buscar outros fornecedores. “Em 2017, por exemplo, o principal produto brasileiro embarcado para o bloco foi o café, com 7% no total do ano; em 2024, até agosto, o petróleo está em primeiro lugar, representando 25,6% das exportações brasileiras à União Europeia”, cita. Na China, por sua vez, o petróleo perdeu participação: em 2018, representava 24,5% do total comprado do Brasil; em 2024, foram 20% de janeiro a agosto. Valls lembra que, no caso da China, o efeito Ucrânia foi o oposto, com o país comprando mais da Rússia, rebalanceando as quantidades contratadas nos demais países.

Saldos comerciais: petróleo e derivados ganham participação
jan-ago de cada ano, em US$ bilhões


Fonte: FGV IBRE.

A tendência para o ano fechado tende a ser de continuidade do protagonismo do petróleo, diz a pesquisadora, posto que a seca e as queimadas tendem a prejudicar as safras de vários produtos. Estimativas da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) por exemplo, indicam que ao menos 231 mil hectares de plantação, cerca de 5,4% do total plantado no estado foram comprometidos pelo incêndio. As estimativas para a laranja, cuja cultura é concentrada nos estados de São Paulo e Minas Gerais, são ainda piores. Relatório da associação Fundecitrus aponta a uma queda de 29,8% na produção em relação a 2023. As previsões dos últimos anos para essa cultura perene, assim como a do café, já têm sido de queda, e o panorama se agrava.

No mês de agosto, o Icomex apontou um recuo tanto no preço (-3,3%) quanto no volume exportado (-4,6%) em relação a agosto de 2023, com um espalhamento dessa queda, que foi de 11,3% para as vendas agropecuárias (somente a soja registrou queda de 16,% em valor e 4,1% em volume); -1,9% na extrativa e -2,1% na transformação. No caso da indústria de transformação, o Icomex destaca o fato de, “ apesar da queda em volume no agregado, os três principais produtos exportados registraram variação positiva: açúcares e melaços (8,2%); óleos combustíveis (31,5%) e carne bovina (17,4%)”. Do lado das importações, todos os segmentos registraram aumento do volume com liderança do agro (26,2%), com destaque para a participação do trigo (32,9% do total) e o aumento do volume de soja (646%), representando 4,5% do total. O maior importador, entretanto, é a indústria de transformação, com 91% de participação. Neste setor, destacam-se as compras de máquinas e equipamentos – representando 12,9% do total, atrás apenas dos produtos químicos, com 19,5%. Esse aumento da importação de bens de capital é um sinal auspicioso par o investimento, destaca o Icomex.

Valls indica que a perspectiva para a balança comercial em 2024 é de um saldo entre R$ 75 bilhões e R$ 80 bilhões.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.