Voltar
17 Jan 2024

As várias inflações dentro da inflação

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Medida oficial da inflação brasileira, o Índice de Preços ao Consumidor (IPCA) fechou 2023 com alta acumulada de 4,62%, dentro do intervalo da meta – de 3,25%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Os alimentos contribuíram para esse resultado, com uma queda de 0,52% na alimentação no domicílio, enquanto os transportes estiveram na outra ponta, puxando a inflação para cima, com uma alta acumulada de 7,14% no ano.

A composição do resultado final da inflação é um dos fatores que levam a que esta seja diferente para cada bolso. Se observada por faixa de renda das famílias, 2023 registrou uma inflação menos pesada para as classes de renda muito baixa, de menos de R$ 2 mil reais por mês, graças exatamente ao recuo do preço dos alimentos, que têm peso maior na cesta de consumo dessas famílias. Se acordo ao Ipea, a inflação desse grupo em 2023 foi de 2,6%, 2 pontos percentuais abaixo do IPCA. Em contrapartida, famílias da faixa de renda mais alta, acima de R$ 20 mil mensais, registrou uma inflação de 6,2%, devido à maior participação de itens que subiram mais em 2023, como passagens aéreas (reajustes de 36,4%), gasolina (11,3%) e planos de saúde (12%) em seu consumo.

Em 2023, o FGV IBRE lançou uma nova luz para se compreender a inflação brasileira, com o Índice de Preço dos Gastos Familiares (IPGF). A ideia, nesse caso, foi calcular a inflação agregada considerando as mudanças de comportamento do consumo das famílias e seu impacto no peso de cada item de forma mais tempestiva do que no IPCA. Com isso, é possível capturar quando há uma redução da inflação forçada pela redução ou substituição de um produto ou serviço que, pelo aumento de preço, já não cabe no orçamento das famílias.

No caso do IPCA essa revisão só acontece quando a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE é atualizada, o que tem acontecido, em média, a cada seis anos. Para fazer esse cálculo mensalmente, os economistas da área de preços contam com a ajuda dos pesquisadores do Núcleo de Contas Nacionais do IBRE, que produzem o Monitor do PIB, para obter a estrutura de ponderação da tabela de recursos e usos das Contas Nacionais, sobre a qual se aplica a variação de preços observada no IPCA.  André Braz, coordenador dos Índices de Preços do FGV IBRE, afirma que dessa maneira consegue cobrir mais de 80% da estrutura de ponderação do IPCA. Ele lembra que o IPGF não tem função de indexador, já que sua metodologia prevê revisão do resultado no mês seguinte, com a confirmação dos dados oficiais. “O objetivo do índice é contribuir para a captação das alterações de preferências do consumidor de forma mais ágil e suas implicações”, reforça Braz.

Evolução de pesos no cálculo da inflação pelo IPGF


Fonte: FGV IBRE.

O economista do IBRE conta que a pandemia, quando a estrutura de consumo das famílias mudou bruscamente, é um caso bem ilustrativo da diferença de pesos que determinados produtos podem sofrer, afetando o cálculo final da inflação. Ele toma o exemplo das passagens aéreas. Em abril de 2020, quando os brasileiros tiveram que se recolher em suas casas para evitar a disseminação da Covid-19, o peso das passagens aéreas no cálculo do IPGF foi de 0,05%, enquanto no IPCA era de 0,5%. Em outubro de 2023, o peso das passagens ainda era menos da metade do observado no pré-pandemia de acordo ao IPGF – de 0,13%, contra 0,36% em janeiro de 2019. “No caso do IPCA, as variações também acontecem, mas em função do aumento do preço, e não do comportamento da demanda”, ilustra. Há também exemplos apontando o movimento contrário, como o dos computadores pessoais. Objeto de primeira necessidade para estudantes que tiveram de seguir os estudos de casa e trabalhadores em home office, seu peso na cesta de consumo disparou na pandemia, saindo de 0,54% para 0,95% no caso do IGPF, e de 0,28% para 0,35% no IPCA, caindo nos anos seguintes. “Aqui, novamente, o IPCA também registrou essa tendência provocada pela alta da demanda, mas levando em conta apenas a variação de preços.”

Um exercício realizado pela equipe de Braz para testar a robustez do IPGF reforça a diferença que a mudança do comportamento do consumo faz no cálculo da inflação. Ao pegar o resultado médio do IPCA e do IPGF nos 12 meses iniciais logo após a divulgação de uma nova POF e os 12 meses antes do lançamento da POF seguinte mostra que a variação entre IPGF e IPCA no primeiro caso é pequena, e no segundo chega a alcançar 1 ponto percentual.

Até novembro de 2023, a diferença entre IPCA e IPGF acumulada no ano também foi de 1 ponto percentual, e que pode ser confirmada no resultado de dezembro do IPGF. “Parte desse resultado tem a ver com a queda da alimentação em 2023, reduzindo seu peso no orçamento familiar”, diz Braz. Ele lembra que itens menos elásticos – ou seja, com menor possibilidade de corte ou substituição –, como aluguel, condomínio, constas de luz e água, são aqueles que tornam a inflação mais resiliente, e que tendem a apresentar menos variação de peso no cálculo da inflação.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.