Sondagens do FGV IBRE apontam recuo das expectativas dos empresários em todos os setores, de olho em uma desaceleração da atividade

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

O Índice de Confiança Empresarial do FGV IBRE registrou queda de 3,3 pontos em outubro, caindo para 98,2 pontos. O resultado reflete a piora de avaliação nos quatro setores pesquisados. As quedas mais expressivas no mês em relação a setembro foram da Indústria e do Comércio, com -3,3 pontos, sendo a indústria o setor que apresenta o indicador no nível mais baixo, com 95,7 pontos. No agregado, as perdas foram maiores no campo do otimismo quanto aos próximos meses, com retração de 4,2 pontos no Índice de Expectativas (IE), enquanto a percepção sobre a situação atual (ISA) sofreu queda de 2,7 pontos. “A perspectiva de uma virada de ano e começo de 2023 com a atividade econômica mais fraca, ainda que com melhor perspectiva para inflação e mercado de trabalho, tem sido absorvida pelos empresários”, afirma Rodolpho Tobler, economista do FGV IBRE, indicando que o fator econômico se mostra com mais peso nessa revisão de humor do que o segundo turno das eleições. Sinal similar foi dado pelo Indicador de Incerteza da Economia - Brasil (IEE-Br) de outubro, divulgado dia 31, que registrou um comportamento proativamente estável, com alta de 0,3 ponto - somando 112 pontos, pouco acima do nível considerado confortável de 110 pontos.

Índice de Confiança Empresarial e setoriais – outubro/22


Fonte: FGV IBRE.

A única variação positiva observada na confiança empresarial na comparação com o resultado de setembro se deu no ISA do setor da construção, com 0,9 ponto, que mantém um bom nível de atividade corrente, como destaca Aloisio Campelo Jr., superintendente de Estatísticas do FGV IBRE. A construção é o único setor em que o Índice de Confiança se mantém no campo da neutralidade, com 100,9 pontos. Esse resultado representa a quinta melhora consecutiva do indicador, lembra Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos de Construção do IBRE, colaborando para o índice recuperar o nível observado no início de 2014, pré-recessão. Esse dinamismo da construção, que se manteve resiliente mesmo com o aumento da inflação e a virada contracionista da política monetária, também serviu como impulsionador do mercado de trabalho. Há sete meses, o indicador de emprego previsto da Sondagem se mantém acima do nível de neutralidade, mantendo a construção como importante farol de geração de postos de trabalho.

Emprego previsto – indicador padronizado, com ajuste sazonal 
(Média móvel trimestral)


Fonte: FGV IBRE.

No caso de comércio e serviços, ambos apresentaram queda de confiança - respectivamente, de 3,8 pontos e 2,6 pontos. Além de uma retração maior, o indicador do comércio responde a uma tendência mais clara de desaceleração de fato, aponta Tobler. “Quando se observa o indicador presente, mesmo quando calculamos em média móvel trimestral, que tende a suavizar as evoluções, é perceptível esse movimento desde agosto. Ainda que o nível do indicador não esteja ruim, acima de 100 pontos na média trimestral, a tendência é de fato de desaceleração”, afirma. No caso dos serviços, o economista do FGVIBRE considera prematura traçar o mesmo diagnóstico. “Como o setor vem de um movimento constante, mas lento de recuperação, não está claro se o resultado de outubro responde a uma estabilização ou se de fato haverá um arrefecimento da atividade. Será preciso esperar o resultado dos próximos meses para confirmar”, diz. Para Tobler, eventos sazonais como a Black Friday, ou mesmo a Copa do Mundo, que podem aquecer tanto o comércio como a atividade de bares e restaurantes, por exemplo, devem ter seu potencial limitado pelas restrições orçamentárias das famílias, cuja confiança, no agregado, também apresentou ligeiro recuou em outubro, depois de crescer por quatro meses consecutivos. “São eventos que certamente estimulam a atividade, mas cujo resultado deverá ser de atenuar a propensão a uma desaceleração, mais do que promover uma alta”, afirma.   

No caso da indústria, além da desaceleração adiante, os empresários também se mostram afetados pela percepção da situação atual, como a percepção já presente de redução da demanda interna e externa, além da indicação de estoques acima do desejável, afirma Stéfano Pacini, economista do FGV IBRE. Para Tobler, as sinalizações que começarem a sair do processo de transição de governo já poderão servir como influenciadores de expectativas adiante, na medida em que colaborarem para reduzir a incerteza do ambiente de negócios. “No dia a dia da empresa, isso certamente é fundamental, para se garantir alguma previsibilidade no planejamento das operações”, conclui.

Indústria: sinais negativos em outubro


Fonte: FGV IBRE.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Subir