Retomada

“Queda do PIB da construção deverá ser menor que a do total da economia”, diz Ana Castelo, do FGV IBRE

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Depois de finalmente fechar o ano no azul em 2019, sendo lanterna na saída da recessão, o setor da construção esperava botar o pé no acelerador em 2020. Tal como o restante da economia, teve que se submeter às restrições impostas pela pandemia, mas deverá sofrer um impacto menor que o estimado para o PIB agregado. Enquanto, pelas atuais projeções do FGV IBRE, a retração da atividade brasileira será de 5,5% este ano, a construção deverá registrar -4,1%. “Espera-se que a queda no segmento formal seja menor, de -3,3%, do que na autoconstrução, para qual espera-se um resultado de -5%”, diz Ana Maria Castelo, responsável pela divulgação do INCC-M e da Sondagem da Construção do FGV IBRE.

O segmento que lidera em resiliência é o imobiliário. Nas praças mais aquecidas, como São Paulo, Brasília e Goiás, a resposta de parte da demanda resistiu à obrigatoriedade do fechamento de estandes de vendas de novos projetos, com compras através de atendimento online. Em webinar promovido diz 13/8 pelo Centro de Tecnologia de Edificações, Basilio Jafet, presidente da Secovi-SP, afirmou que no município de São Paulo a venda de imóveis novos no primeiro semestre foi apenas 14% menor do que no mesmo período de 2019, quando apresentou desempenho recorde. “E, em julho, o resultado superou em 20% o registrado em julho do ano passado”, diz. Para Jafet, além da queda da taxa de juros que permite melhores condições de crédito imobiliário – cálculos de mercado apontam que cada ponto percentual de queda da Selic representa uma redução de cerca de 8,5% na prestação –, outro fator influente nesse resultado é a tendência de o brasileiro valorizar a segurança de uma casa própria, e mudar-se pouco. “Enquanto no Brasil a média de imóvel para moradia é de 1,7 por família, nos Estados Unidos é de 7”, compara. A expectativa do executivo para o segundo semestre é de um desempenho forte, ainda que com menos projetos novos do que os pretendidos pelas empresas. “Em São Paulo, haverá efetiva queda de estoque, mas um ritmo menor de lançamentos, até pela maior lentidão no processo de licenciamento verificada com a pandemia”, afirma.

Ana ressalta que o segmento de imóveis do Minha Casa Minha Vida (MCMV) foi o de maior demanda, especialmente os da faixa 3 do programa – para imóvel de até R$ 300 mil, sem subsídio, com taxa de juros de até 9,16% ao ano. “Esse é um segmento que também é atraente como alternativa de investimento, por ter giro mais fácil”, diz. Ela ressalta, entretanto, que o déficit habitacional entre o público das faixas mais baixas do MCMV ainda é alto, e que não é possível pensar numa retomada consistente desse mercado sem o papel do FGTS como financiador, que desde o ano passado tem sido minado pela ampliação das autorizações de saque (reveja a matéria Quo vadis FGTS?, da Conjuntura Econômica de setembro de 2019). A mesma defesa é feita pela Confederação Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), que aponta mais de 400 projetos de lei tramitando atualmente no Congresso, visando à retirada de recursos do Fundo. “É arriscado pensar no FGTS como complemento de renda, diante do importante papel que ele tem para o setor habitacional”, afirma Ana.

No caso do segmento da autoconstrução, para o qual espera uma retração maior que a média do setor, Ana considera que, mesmo com os sinais consistentes de aumento da demanda por materiais de construção – de acordo ao Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC), por exemplo, as vendas desse insumo cresceram 6,5% de janeiro a julho deste ano comparado ao mesmo período de 2019 –, no segundo semestre poderá haver um arrefecimento dessa tendência. “Até agora, indiscutivelmente o auxílio emergencial colaborou para esse resultado. Dependendo do destino que o governo der para esse benefício, especialmente o último trimestre do ano poderá reverter esse desempenho”, diz.

Observando o setor da construção como um todo, Ana destaca uma recuperação positiva dos indicadores medidos na Sondagem da Construção de julho. No caso do índice de situação atual, o principal destaque é para o segmento de preparação de terrenos, que praticamente já se recuperou da queda provocada pela pandemia, chegando a 97,7% do indicador registrado em fevereiro. No caso do índice de expectativas, o segmento em melhor posição em julho era o de obras de infraestrutura, marcando 94,8 pontos, contra 91,7 pontos do setor como um todo. “A aprovação do novo marco legal do saneamento, e a possibilidade de alteração de outros marcos trazem perspectivas favoráveis”, aponta Ana, ressaltando, entretanto, que as incertezas no cenário doméstico e externo ainda são altas, o que pode afetar a atração de capitais para projetos.

 


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