Quatro frentes externas que têm pautado o cenário macro brasileiro

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Diante de um quadro salpicado de incertezas, o quadrante ocupado pelo cenário externo é um dos que analistas convergem em identificar alto risco adiante. A Ata da reunião de novembro do Copom reforça essa conjuntura, enfatizando um contexto mais volátil e adverso. Em recente reunião de pesquisadores do FGV IBRE para interpretar essa complexa conjuntura, Livio Ribeiro, pesquisador associado da casa, decompôs essa análise em quatro pontos, apresentando quais impactos já podem ser identificados especialmente na condução da política monetária. Compartilhamos, aqui no Blog, um resumo das considerações de Ribeiro:

A cauda engordou – o primeiro tópico destacado por Ribeiro é que, diante de sequentes choques, ainda não descobrimos qual de fato é o novo normal do mundo. A lista de eventos – que, para o Brasil, ainda se soma a recente decisão da Venezuela de lutar pela anexação de território que hoje pertence à Guiana –, provoca um inevitável desgaste que muitas vezes nos faz esquecer que as chacoalhadas externas se iniciam antes mesmo da pandemia, com a guerra comercial entre Estados Unidos e China. “Daí em diante, tivemos o choque logístico global, a invasão da Ucrânia pela Rússia, o conflito Israel Hamas – e, de quebra, a tensão provocada por eventos climáticos cada vez mais extremos”, diz, lembrando que este último insta o mundo a reorganizar sua matriz produtiva, também gerando instabilidade. Com isso, não está como se acomodará a demanda mundial de bens e serviços, determinante de mudanças - significativas ou não - de preços relativos.

O sarrafo do juro global subiu – Diante de tantas mudanças, a solução apontada pelos bancos Centrais das principais economias foi a de alongar o horizonte de convergência das metas de inflação. Apesar de cobrar um sacrifício menor no curto prazo, lembra Ribeiro, essa decisão também implica mais riscos prospectivos. “A estimativa de convergência da inflação dos Estados Unidos à meta é apontada para 2026, lembrando que esse desvio da meta vem desde 2020. Isso contamina o debate da política monetária no mundo inteiro”, afirma. Ribeiro lembra que tão importante quanto o patamar da inflação é sua composição, que aponta a maior persistência. “Tivemos a atividade surpreendendo por um longo período, uma mudança de patamar no impulso fiscal, e mercados de trabalho que seguem apertados”, enumerou, lembrando que a taxa de desemprego na Europa é a menor desde a adoção do euro. “Vemos uma tendência menos fiscalista, expectativas mais flexíveis com inflação acima da meta, e o mercado com projeções otimistas para corte de juros a partir do segundo semestre de 2024, desconsiderando que o atual ciclo monetário tende a ser mais longo.”

Estrutura a termo: Zona do Euro vs. EUA


Fonte: Bloomberg.

Juro longo americano deixou de ser questão – Entre agosto e outubro, o mercado provou um desconforto em relação aos juros longos americanos, alimentando diagnósticos catastrofistas que foram de uma reprecificação monetária e erosão fiscal, chegando a questões técnicas no mercado de títulos. Ainda que o cenário atual aponte a um maior equilíbrio, Ribeiro observa que não se pode descartar um aumento do juro neutro no país, o que levaria a um recálculo do comportamento futuro do mercado de juros, com implicação para a política monetária do FED.

China e seus desafios – Dados de outubro vieram com sinais positivos para a economia chinesa, mas ainda insuficientes para reduzir a prudência das análises, diz Ribeiro. Houve bom resultado de vendas tanto no varejo como em serviços, e pela primeira vez desde a eclosão da pandemia que a taxa de poupança das famílias cai. Ribeiro lembra que a poupança precaucional dos chineses foi acumulada sem políticas de transferência como houve no Brasil, com o auxílio emergencial, o que amplia a importância desse sinal de aumento de confiança para gastar. “No momento, isso não chega a impulsionar significativamente o crescimento, mas ao menos para de atrapalhar”, afirma. O principal deste no período recente foram os resultados da Golden Week – festividades do Dia Nacional chinês, no início de outubro, com duração de uma semana – quando se registrou um fluxo turístico ao menos três vezes maior do que no Ano Novo chinês, em janeiro, quando a derrubada das medidas sanitárias de combate à Covid ainda era relativamente recente. “Os indicadores de investimento do país, entretanto, ainda estão em nível problemático, com vendas imobiliárias sem sinal de normalização”, alerta, indicando que mais incorporadoras começam a sinalizar problemas de liquidez.

China: taxa de poupabnça das famílias
(implica, % renda disponível, SA)


Fonte: BRCG, elaborado com dados do NBS.

Ribeiro destacou que o impacto nos ativos locais brasileiros ainda é moderado, o que sugere que para 2024 não há motivo para pânico. Mesmo com a alta do dólar observada nesta segunda (4/12), Livio lembra que o bom comportamento do real diante da tensão externa observada desde outubro pode ser indicativo de um horizonte menos tenso adiante, demonstrando um canal estreito para repasse de risco via câmbio – o que pode significar, entretanto, uma tendência a também se mover pouco em períodos de descompressão. “Temos um superávit comercial recorde em 2023 e projeção de que seja bastante robusto em 2024”, complementa Ribeiro. O pesquisador destaca, entretanto, que que apesar de uma tendência de equilíbrio do déficit em conta corrente como % do PIB, controlando a restrição externa, é preciso considerar que a estrutura de financiamento externo, observando a variação de ativos de reserva, ainda não é a ideal, mesmo que melhor do que o passado recente.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Subir