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07 Fev 2022

Pressão de preços deve levar a reequilíbrio da oferta de energia, revisando caminho da transição energética

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

A forte inflação de energia que impactou empresários e consumidores de diversos países em 2021 também pode afetar o caminho para a transição a uma economia mundial neutra em emissões de carbono até 2050, debatida na Conferência do Clima sediada em Glasgow, em dezembro último. Já em outubro do ano passado, o Blog do FMI apontava que a pressão de preços de energéticos, inicialmente puxada pelo gás natural, era elemento de preocupação. E que entre os fatores para essa alta estava a redução dos investimentos na expansão da produção de energia fóssil, derivada não só da incerteza inicial provocada pelo choque sanitário em 2020, como pela redução do interesse dos investidores frente à pressão por uma urgente mudança a uma economia verde que mitigue a intensificação dos efeitos, já sentidos, do aquecimento global, direcionando sua atenção para fontes mais limpas.

“Vivemos hoje um processo de dimensionamento da transição energética”, define Elbia Ganoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). No webinar “Riscos Inflacionários da Transição Energética”, promovido pelo Centro de Estudos em Regulação da Infraestrutura (FGV Ceri) na última sexta (4/2), com moderação de Joisa Dutra, diretora do Ceri, Elbia reconheceu que o caminho para se chegar à “net zero” deverá passar por choques durante o caminho. “Chegar lá demandará adaptações ao longo do processo, muitas delas que não gostaríamos de fazer, mas seremos obrigados a enfrentar”, afirma. Como as discussões que ocorrem na Europa de incluir o gás natural e a energia nuclear na lista de combustíveis “verdes”, cita. “Não é uma discussão nova, já que o gás natural já foi entendido como combustível da transição energética. E talvez o uso do gás agora demonstre que vamos precisar muito dele – e outros países, da energia nuclear – para alcançar o objetivo final da descarbonização. O que não significa que essa missão seja impossível de alcançar”, afirma.

Variação inflação dezembro 2020 – dado mais recente
(pontos percentuais)


Fonte: World Economic Outlook, January 2022 Update.

Elbia ressalta que, além da tendência a uma pressão de custos estrutural devido ao aumento da demanda para atender à agenda de descarbonização, no aspecto conjuntural o setor de renováveis também tem sido impactado pelos choques que levaram à alta de matérias-primas para a indústria de base, pois depende de insumos como alumínio, para fabricação de turbinas e torres na montagem de parques eólicos, ou lítio, no caso das baterias de energia fotovoltaica. “No caso da eólica, já ouvimos falar que contratos assinados agora incutem um aumento de 40% no custo dos componentes de bens de capital, que deve ser repassado para o preço final”, diz. Para a executiva, não é um contexto que gere preocupação sobre o horizonte de investimentos no Brasil, posto que ambas as fontes operam de forma muito competitiva no país. “Em termos de custo, as renováveis já estão distantes em relação às energias fósseis. E ainda temos que levar em conta que o gás natural também está subindo. Ou seja, só muda a régua”, afirma.

Ricardo Gorini, sênior programme officer do programa REmap, da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena, na sigla em inglês), ressalta que de 2010 a 2020 o custo médio global da produção de energias renováveis registrou uma redução em torno de 85% no caso da fonte solar, e de 60% na eólica. “Isso acompanhado de um aumento da capacidade instalada de 750 GW para 2,8 mil GW em nível global”, descreve. “Quando olhamos para frente, entendemos que também há uma perspectiva de contínua redução de custo.”

Barateamento da produção de energia solar e eólica amplia competitividade dessas fontes
(em 2020 US$/kWh)


Fonte: IRENA.

Para José Julio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV IBRE, o maior desafio da transição energética, mesmo com a urgência na contenção do aquecimento global, é a de calibrar adequadamente os incentivos para a substituição da matriz sem causar um desequilíbrio muito forte nos preços. “A solução via preços sempre é a melhor; via imposto é impopular, regressivo e pode prejudicar a distribuição de renda”, diz. “Um caminho mais racional seria estimular tecnologias inovadoras através de um pacto mundial que encarecesse de fato o uso de combustíveis fósseis. Para William Nordhaus, prêmio Nobel de Economia em 2018 que se dedicou ao estudo da precificação de carbono, a melhor forma de se atingir essa concertação global seria via comércio internacional: caso uma país não faça parte do grupo que coopera, é punido na área comercial. E mesmo assim, visualizar uma coordenação dessa estratégia parece algo complexo”, avalia.

Gorini concorda que o nível de governança necessário para se elevar a adoção de fontes renováveis ainda não está dado, mas afirma ter esperança no avanço de algumas iniciativas. “A eliminação do incentivo a combustíveis fósseis em nível global é algo que ainda podemos coordenar. É fato que uma concertação ampla e irrestrita é difícil, mas há como se obter avanços nessa campo.” Gorini também destacou a vantagem dada pelo acelerado avanço tecnológico voltado ao desenvolvimento de uma matriz energética renovável. “Pelos cálculos na Irena, para se neutralizar as emissões de carbono será necessário reduzir o mercado de fósseis em 75% até 2050, mantendo o atual consumo de energia. É uma meta ambiciosa, mas para isso temos como evoluir não somente na geração renovável, mas nos combustíveis renováveis, como a biomassa e mais recentemente o potencial do hidrogênio, trazendo um universo de possibilidades de fato”, diz.

Elbia lembra que a aprovação do artigo 6 do Acordo de Paris, ocorrido na COP 26, que viabiliza o mercado global de créditos de carbono, é outro passo significativo na busca da precificação dessa transição de forma orquestrada. “A aposta na inovação é certeira. Mas também é importante buscar mecanismos de preços para ajudar nesse processo. A lição que temos é pensar em como adotar tais mecanismos de preços para acelerar a transição mitigando os efeitos negativos conjunturais que vimos agora.”

Leia também:

- “Gestão da crise elétrica precisa estar alinhada a estratégias para o uso de energias cada vez mais renováveis”

- Entrevista de Elbia Ganoum à Conjuntura Econômica, novembro/21

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.