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31 Mai 2021

Pandemia abre janela de oportunidade para valorização do SUS, defendem pesquisadores

Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Gonzalo Vecina, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, disse certa vez: “sem o SUS, era a barbárie”. Isso foi em 2019, pré-Covid-19. Com a pandemia, o diagnóstico do médico sanitarista ganhou força. “Se algumas respostas não aconteceram de forma adequada, isso ocorreu em função das escolhas dos gestores, e não devido ao SUS”, diz Mônica Viegas, coordenadora do Grupo de Estudos da Saúde e Criminalidade do Cedeplar/UFMG.

Em webinar realizado na sexta-feira passada (28/5) pelo Observatório do Federalismo Brasileiro do Governo do Ceará, moderado por Flavio Ataliba, secretário Executivo da Secretaria de Planejamento do estado, pesquisador associado do FGV IBRE, especialistas defenderam que a pandemia abre uma importante janela de oportunidade para a valorização do Sistema Único de Saúde. Um desafio que vai da ampliação de seu financiamento à revisão de modelos operacionais para ampliar a eficiência na atenção e tratamento de pacientes.

No evento, Mônica lembrou que o sistema híbrido de atenção à saúde instalado no Brasil, público e privado, trouxe pontos positivos, como reduzir a pressão do setor público, direcionando parte da demanda para a saúde suplementar. Mas que provocou uma fragmentação do cuidado que desequilibrou o sistema, além de induzir práticas que não necessariamente são as mais eficientes, como a incorporação de tecnologia não baseada em evidências, e um foco na atenção mais curativa que preventiva. Um desenho que, lembra Mônica, passa a não ser sustentável com a tendência de envelhecimento da população. 

A pesquisadora ressalta, entretanto, que a ampliação da telemedicina e da digitalização da digitalização no setor poderá trazer importantes benefícios, permitindo uma maior integração de ambos. Ela lembra que, até o ano passado, a telemedicina era permitida no país apenas em casos de emergência, laudos à distância e suporte diagnóstico e terapêutico entre médicos. “Em abril de 2020, entretanto, uma nova lei reconheceu o uso da telemedicina para consultas, atendimentos pré-clínicos, monitoramento”, diz. Mônica aponta que o aumento da saúde digital ajuda no fortalecimento da atenção primária como ordenadora do cuidado, e adotada de forma permanente poderá mitigar um dos defeitos do sistema, que é a alta busca pelos hospitais para tratar de problemas que poderiam ser resolvidos fora deles, de forma mais eficiente e barata. “No sistema privado, a adoção da telemedicina poderá abrir caminho até para um aumento da cobertura”, diz.

Outros elementos pró-eficiência com o aumento da digitalização da saúde são, por exemplo, melhor organização de filas de espera, colaborando para maior clareza e uma expectativa mais positiva do paciente quanto à execução de algum procedimento. Além de uma maior integração das operações pública e privada, abrindo caminho para o uso de um identificador único de pacientes nos dois sistemas, o que permite um melhor mapeamento de seu histórico e da utilização de serviços de saúde. Sobre os benefícios dessa integração, Mônica cita o caso do modelo unificado de regulação de leitos hospitalares de Belo Horizonte, que permite uma melhor alocação de pacientes pelo município. 

A professora da UFMG também ressaltou os desafios trazidos pela pandemia, como a alta dependência de insumos da indústria farmacêutica nacional, “que pode ser reduzida com políticas de inovação e geração de tecnologias e maior integração da universidade com a estrutura produtiva, pois o Brasil já mostrou capacidade para isso”, diz. Outro elemento citado por ela é a necessidade de se organizar a resposta a pandemias e epidemias, com melhoria do sistema de registros e notificações, maior controle de doenças infectocontagiosas e uma maior integração dos sistemas público e privado, como já referido.

E, não menos importante, repensar o financiamento do sistema. Mônica destaca que desde sua origem o SUS não possui fonte de financiamento definida, ficando dentro do orçamento da assistência social, levando ao subfinanciamento. “Já conseguimos refazer o pacto da Previdência, agora é importante fazer o mesmo com a saúde”, diz. 

Roberto Claudio, ex-prefeito de Fortaleza (pelo PDT), mestre em Saúde Pública, reforça o coro puxado por Mônica. “Frente à grave crise econômica fruto da pandemia, vários países de viés liberal, como os Estados Unidos, voltaram a destacar o papel do Estado com coordenador da economia. Hoje, não pensar no fortalecimento de políticas públicas não é opção, é omissão”, afirma, ressaltando que a atual conjuntura traz maior sensibilização do ambiente político para uma rediscussão orçamentária de áreas chave como a da saúde.

O economista cearense Dércio Chaves, estudante do Master of Research Economics na Universidade de Exeter, na Inglaterra, defendeu a importância dessa revisão citando o exemplo do Reino Unido – cujo sistema público de saúde (NHS) foi instaurado logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1948, tornando-se farol para as demais nações. “Lá, o financiamento público do sistema é crescente, sem importar a linha partidária do governo de turno”, diz, apontando que em 2018 a saúde representava 29,7% do orçamento do governo, contra 11,2% quando o NHS foi criado, em 1948. Chavez ainda destaca que essa ampliação de recursos não significou inchaço da infraestrutura. Ao contrário. “Hoje o Reino Unido dispõe de 120 mil leitos hospitalares. Em 1948, eram 480 mil”, compara, ressaltando que o investimento na expansão da atenção primária reduziu a demanda por leitos e colaborou para a eficiência do sistema. “O resultado desse investimento foi um aumento da expectativa de vida, que hoje é de 81 anos, e da mortalidade infantil, que está em 3,8 por mil nascimentos”, ilustrou.  

 


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