“O forward guidance nunca esteve escrito em pedra”

Livio Ribeiro, pesquisador do FGV IBRE

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

A Ata da última reunião do Copom, divulgada nesta terça-feira (14), conseguiu acalmar o mercado ao sinalizar que a divergência entre diretores quanto ao corte da Selic – definido em 0,25 ponto percentual (pp), para 10,5% ao ano – não se deu por discordância sobre a necessidade de uma política monetária mais contracionista diante do aumento das incertezas na conjuntura externa e doméstica. Como tratado na coluna Em Foco (leia aqui), o voto dos quatro diretores indicados pelo governo Lula por um corte de 0,5 ponto percentual foi inicialmente interpretado como uma postura mais leniente ou dovish. A Ata atribui o racha na votação a avaliações distintas do custo x benefício de não acompanhar a indicação feita na reunião anterior do Copom, em maio, ou o forward guidance

Para o pesquisador do FGV IBRE, Livio Ribeiro, sócio da consultoria BRCG, os ruídos na forma como a decisão de política monetária aconteceu ainda deixarão vestígios. “O dissenso para 0,5 pp de todos os diretores escolhidos pelo presidente trouxe um sinal de comunicação corretamente mal percebido pelo mercado, devido ao jeito como aconteceu”, diz. “O forward guidance nunca esteve escrito em pedra, isso foi muito claro”, afirma, apontando a decisão do Copom de evitar indicações futuras além de maio. Em evento em Washington em meados de abril, o presidente do BC Roberto Campos também havia sinalizado que a piora da conjuntura dificultaria a manutenção do mesmo nível de corte das reuniões anteriores, de 0,5 pp. “Houve uma construção prévia de cenário – independentemente de considerá-la correta ou não – que tem princípio, meio e fim. Então, não vejo grandes custos, dada uma comunicação bem-feita de não se honrar o guidance.”

Ribeiro ressalta que, apesar de que a política monetária continuaria restritiva caso o corte de 0,5 pp acontecesse, o horizonte que precisa ser considerado para levar a inflação para a meta não se limita ao curto prazo. O que é preciso observar, destaca, é a curva de juros, que reflete a expectativa do mercado sobre o rendimento de títulos ao longo do tempo.

Ribeiro também sugere cuidado ao se analisar a avaliação do Copom quanto às incertezas no campo internacional. “Quando o BC fala de cenário internacional, ele se foca em torno das mudanças na sinalização de política monetária do FED, o que fortalece a narrativa de que o banco central americano determina um limite para a atuação monetária do Brasil, mas no médio prazo isso não é necessariamente verdade”, diz. “A restrição que se pode ter ao juro brasileiro não vem em si da taxa básica de juros americana, mas sim do impacto que mudanças na sinalização do juro tanto americano quanto europeu terá sobre o comportamento de preço de ativos, e a forma como esses preços irão afetar a inflação e a condução da política monetária”, afirma.

A mudança negativa de cenário explicitada na Ata deixa campa aberto para reavaliação de até onde o BC chegará com a Selic. Ribeiro projeta que a Selic feche 2024 em 10% ao ano – com dois cortes de 0,25 nas reuniões de junho e julho –, com chances de parar em 10,25% ao ano.

 

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