Monitor do PIB: economia começa segundo tri desacelerando, mas em ritmo mais lento que o esperado

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

O Monitor do PIB do FGV IBRE divulgado nesta terça-feira (21/6) aponta um crescimento de 0,3% da atividade econômica brasileira em abril em relação a março. Uma desaceleração significativa quando comparada com os meses anteriores: 1,5% e 1,4%. Mas um panorama melhor do que era esperado, avalia Juliana Trece, coordenadora da pesquisa. “É o terceiro crescimento consecutivo, e sabíamos que a atividade econômica passaria por dificuldades. Mesmo em um contexto mais negativo de inflação e juros, são sinais de que a atividade resiste”, afirma. Na comparação interanual, o Monitor mostra um crescimento de 3,6% em abril, e de 2,8% no trimestre móvel findo em abril.

Pelo lado da oferta, o Monitor indica uma alta de 0,9% na atividade agropecuária em relação a março, depois de registrar quatro quedas consecutivas. Já a indústria marca uma expansão de 2,3%, com apenas o segmento de bens duráveis apontando retração. Os serviços, entretanto, registraram queda de 0,8% em relação a março. Movimento que, segundo Juliana, responde à constatação de que o setor como um todo esteja mais próximo da normalização, depois do forte impacto das medidas de isolamento em segmentos como o de serviços prestados às famílias. Os principais destaques negativos foram comércio e transportes. No caso deste último, a variação foi de -6,6%. Juliana lembra que as taxas mensais apresentam maior volatilidade e, portanto, é preciso mais cuidado ao analisar sua evolução. “Transportes havia crescido 7,7% em março.  Assim, em linhas gerais, um balanço do bimestre ainda aponta um resultado ainda positivo. Mas que, de certa forma, aponta que o segmento já está chegando a seu nível de atividade”, diz. Administração pública, intermediação financeira e serviços de informação foram os destaques positivos do mês, contendo uma queda maior no desempenho do setor de serviços.

Serviços: série encadeada com ajuste sazonal
Janeiro de 2020 = 100


Fonte: FGV IBRE.

O Monitor aponta que o grande destaque do mês esteve no lado da demanda, no consumo das famílias, que registrou alta de 4,8% no trimestre móvel findo em abril em relação ao mesmo período de 2021. “Com a redução praticamente total das restrições de circulação, muitas pessoas voltaram a trabalhar presencialmente – o que, junto com a chegada do frio, estimula o setor de vestuário – e retornaram a bares, restaurantes, cinemas”, descreve Claudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais do FGV IBRE. Na comparação de abril em relação a março, o consumo de semiduráveis foi o que registrou o maior avanço, de 1,9%, seguido pelos serviços (0,6%) e os não duráveis (0,3%). Já o consumo de duráveis registrou queda de 1,6% refletindo, aponta Juliana, o cenário de inflação e juros altos. “Apesar do cenário do mercado de trabalho estar melhorando, o desemprego ainda é alto e a inflação acaba afetando a renda disponível. Como os bens duráveis em geral são produtos mais caros, costumam envolver algum tipo de financiamento, encarecido pelos juros mais altos, o que inibe seu consumo. Como não são bens tão essenciais como alimentos, por exemplo, as famílias tendem a postergar a compra do carro, da geladeira nova, tanto quanto puder”, descreve Juliana, reforçando que o consumo de bens duráveis costuma ser o primeiro a sinalizar um aperto das condições financeiras das famílias.

Considera afirma que, apesar do aperto das condições monetárias e do significativo aumento da pobreza no país, que fez a quantidade de famílias que atendiam aos critérios do Auxílio Brasil dobrar de março para abril, no segundo trimestre do ano o consumo ainda poderá ser impulsionado pelos pacotes de medidas do governo para colocar recursos na economia. Somente de antecipação do 13º para segurados do INSS, a previsão é de uma injeção de R$ 56 bilhões entre abril e maio. Já o calendário de liberação da nova rodada de saques do FGTS vai de abril a junho, e pelas estimativas do governo poderá liberar outros R$ 30 bilhões. 

No campo dos investimentos, entretanto, os dados capturados pelo Monitor do PIB indicando que os sinais de alerta já estão soando. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) registrou queda de 5,2% no trimestre móvel até abril em comparação com o mesmo período de 2021. Juliana indica que esse resultado foi puxado especialmente pelo desempenho do segmento de máquinas e equipamentos (-10,7%). “Esse segmento foi o que segurou o investimento no final da recessão de 2014-16. A construção vinha mal, passando a se recuperar somente a partir de 2019”, lembra a economista. “Agora, entretanto, com o grave nível de incerteza vivido pelo país, tanto política quanto econômica, e aumento da taxa de juros, que naturalmente desestimula investimento, é difícil imaginar uma reação no curto prazo”, afirma Considera. Levando em conta que o resultado esperado para o consumo das famílias é ajudado por medidas de estímulo temporárias, e que o cenário é negativo para uma reação consistente dos investimentos, os economistas deixam claro que a onda de otimismo com os resultados da atividade no primeiro trimestre do ano definitivamente começa a ser revisada.

Consumo das famílias: duráveis retraem

Fonte: FGV IBRE.

 

Investimento: setor de máquinas e equipamentos acumula queda


Fonte: FGV IBRE.

 


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