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20 Out 2022

Monitor do PIB aponta retração de 0,8% em agosto. “Desaceleração econômica pode ter chegado”, afirma Juliana Trece

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

O Monitor do PIB do FGV IBRE divulgado ontem aponta retração de 0,8% da atividade econômica brasileira em agosto. Na comparação com agosto de 2021, registrou-se crescimento de 3,7%. Claudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais, e Juliana Trece, coordenadora da pesquisa, ressaltam que esse resultado não partiu de pioras pontuais. Com exceção da agropecuária, que registrou alta, houve retração na maior parte das atividades da indústria e dos serviços. “Ainda que uma queda em um só mês não seja suficiente para cravar uma tendência, essa disseminação deixa o alerta de que não foi algo tão pontual assim, e que a esperada desaceleração da economia pode ter chegado”, diz Juliana.

Os pesquisadores lembram que, mesmo com as surpresas acumuladas no ano em relação à atividade e ao mercado de trabalho, e uma desaceleração da inflação, essa mudança já era esperada. “Sabíamos que esse resultado negativo uma hora chegaria, pois temos um contexto de juros elevados, e a sustentação do crescimento observada até agora se deu às custas de muita injeção de estímulos, o que não é sustentável por muito tempo”, afirma.Pelo lado da demanda, o consumo das famílias retraiu 0,5% em agosto comparado a julho. “O consumo de bens duráveis já vinha negativo há alguns meses, e o de semiduráveis começa a entrar nesse campo. O que salva neste momento é o consumo de não duráveis, com alimentação e combustíveis. Os serviços, que vinham se destacando, continuam em terreno positivo, mas também já registram redução no ímpeto de consumo”, descreve Considera.

Consumo das famílias por componentes
(taxa trimestral móvel com relação ao mesmo período dos anos anteriores, % e pp)


Fonte: Monitor do PIB FGV IBRE.

Ainda que o pagamento do Auxílio Brasil de R$ 600 tenha se dado no decorrer do mês, o que pode ter reduzido o efeito do benefício ainda em agosto, Juliana lembra que o nível de endividamento das famílias continua crescendo - a PEIC, pesquisa sobre endividamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC) de outubro aponta que 80,3% das famílias com renda até dez salários mínimos estão endividadas. E 30% dos brasileiros estão inadimplentes, o que corrobora a ideia de que esse desempenho deve se ver comprometido no segundo semestre. “Se observarmos as características desse endividamento, veremos uma alta concentração no cartão de crédito e carnê, e não para a compra de bens de maior valor agregado, mas de itens básicos”, ressalta a economista do FGV IBRE.

Ainda do lado da demanda, o Monitor registrou alta de 0,7% no investimento. Uma característica positiva, ressaltam Juliana e Considera, de que nenhum segmento da chamada Formação Bruta de Capital Fixo contribui negativamente para a taxa trimestral interanual. O segmento de máquinas e equipamentos se destaca, especialmente com o crescimento de importados. Tendência que poderá se manter, levando em conta os resultados do Icomex de setembro, que apontam um amento da importação de bens de capital na indústria e na agropecuária. No acumulado do ano, máquinas e equipamentos representam o terceiro maior déficit, de US$ 10,8 bilhões. 

Monitor do PIB:
taxa acumulada em 12 meses, em relação ao mesmo período do ano anterior


Fonte: Monintor do PIB FGV IBRE.

O balanço da fotografia de agosto, entretanto, reforça a estimativa de que já começou a ficar bem mais difícil crescer, diz Juliana. Especialmente com serviços interrompendo a trajetória de alta, e o consumo demonstrando sinais de fraqueza. Considera afirma que, a partir dos próximos meses, será mais difícil pensar em revisões para cima do PIB, como observou-se até agora. “Se analisarmos a variação da atividade no acumulado de 12 meses, veremos que, à medida que nos encaminharmos para o final do ano, perderemos os bons resultados observados no final do ano passado, e será difícil suplantá-los. Já estamos registrando uma tendência decrescente, o que reforça essa dificuldade de se manter o otimismo observado até agora com relação a uma melhora contínua do PIB”, conclui.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.