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06 Abr 2023

Mercado de trabalho nordestino sob o prisma de duas crises

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Historicamente, o Nordeste tem se caracterizado por uma triste dinâmica, amplificadora dos problemas do mercado de trabalho brasileiro. Dados divulgados com a primeira edição da Sondagem do Mercado de Trabalho – Nordeste são ilustrativos dessa realidade. Por exemplo, a região conta com a segunda maior população em idade ativa do país, mas a menor taxa de ocupação; e uma proporção de desalentados – pessoas em idade para trabalhar que não procuram emprego por acreditarem que não conseguiriam uma vaga, mas gostariam de estar trabalhando – que é mais que o dobro da observada na média nacional. Tanto a informalidade média é maior na região quanto a renda média é menor para trabalhadores nordestinos em relação aos trabalhadores brasileiros com os mesmos graus de escolaridade, complementa Fernando Veloso, do Observatório da Produtividade Regis Bonelli.

Com a criação do FGV IBRE Nordeste, que deverá ser oficialmente lançado ainda neste semestre –, os pesquisadores têm se dedicado a compreender melhor as causas que levam a tal comportamento, visando a colaborar na elaboração de políticas públicas que revertam essa desvantagem. O mais recente estudo dessa equipe foi divulgado na Carta do IBRE de abril. Desta vez, os pesquisadores buscaram comparar a reação do mercado de trabalho do Nordeste e brasileiro na recessão de 2014-16 e na pandemia.  Em linhas gerais, o que observaram é que “a crise de 2015-16 deixou perdas permanentes nos indicadores nordestinos que não ocorreram no Brasil como um todo. Já a crise econômica da pandemia, que provocou piora inicial do mercado de trabalho muito maior tanto no Nordeste como no Brasil, foi, ao contrário de 2015-16, seguida de recuperação equivalente naquela região e no País como um todo”, diz a Carta.

Dados da PNAD Contínua mostram que, com a recessão de 2014-16, a população ocupada no Brasil chegou a registrar uma queda de 4,4% – de 92,96 milhões no quarto trimestre de 2014 para um mínimo de 88,85 milhões no primeiro trimestre de 2017. Mas no quarto tri de 2017 já havia praticamente se recuperado da queda, com 92,23 milhões de ocupados. No mercado de trabalho do Nordeste, a história foi diferente. O recuo na população ocupada provocado pela recessão foi o dobro, de 9,6%, partindo de 22,70 milhões de ocupados no 4º tri de 2014 para 20,51 milhões no 1º tri de 2017. E a reação no fechamento de 2017 foi inferior à observada no Brasil, com a população ocupada somando 21,35 milhões.

Variação (%) da força de trabalho


Fonte: Elaboração FGV IBRE com dados da PNADC (IBGE).

“Às vésperas da pandemia, no quarto trimestre de 2019, a população ocupada (PO) nordestina era de 21,74 milhões, ainda 4,2% abaixo do pico do quarto trimestre de 2014. Já no caso do Brasil, a PO às vésperas da pandemia estava 2,7% acima do pico do 4º tri de 2014”, ilustra a Carta, apontando a uma recuperação incompleta do mercado de trabalho nordestino.

Na pandemia, por sua vez, essa comparação indica comportamentos semelhantes no Brasil e no recorte nordestino. Diz a Carta: “Entre o quarto trimestre de 2019 e o pior momento no terceiro trimestre de 2020, a queda da PO foi de 12,6% no Brasil e de 16,2% no Nordeste. E desse ponto mais baixo até o quarto trimestre de 2022, a PO subiu 23,4% no Nordeste e 19,1% no Brasil. A PO nordestina no final de 2022 estava 3,4% acima do imediato pré-pandemia (4º tri de 2019) e, no caso brasileiro, 4% acima. Em ambos os casos, houve recuperação mais do que total das perdas associadas à Covid-19.”

Taxa de participação (%)

 
Fonte: Elaboração FGV IBRE com dados da PNADC (IBGE).

O que pode ter levado a essa diferença de comportamento entre uma crise e outra? Essas são respostas que os pesquisadores ainda estão buscando. Algumas hipóteses, entretanto, são apresentadas na Carta: 

Fernando Holanda Barbosa Filho, pesquisador do IBRE do núcleo de Mercado de Trabalho, aponta que a paralisação de investimentos com financiamento público observada nesse período na região pode ter afetado esse mercado. “Por essa hipótese, a dinâmica econômica criada pela indução do Estado naquela época não alterou a estrutura produtiva subjacente, levando a excessos pouco sustentáveis, cujo fim súbito deixou uma cicatriz permanente no mercado de trabalho nordestino”, diz a Carta.

Carlos Alberto Manso, do FGV IBRE Nordeste, menciona o impacto da seca que a região sofreu que durou cerca de 8 anos, terminada em 2017, que foi a pior dos últimos 100 anos. “Se não houve uma catástrofe humanitária como no passado, devido aos programas sociais e à melhor gestão hídrica, isso não quer dizer que a economia regional – não só o setor agropecuário altamente empregador no Nordeste, mas também a própria indústria local, muito ligada às atividades primárias, como no caso dos laticínios – não tenha sofrido”, aponta na Carta, ressaltando a desorganização do sistema produtivo que esse choque pode ter gerado.

Flávio Ataliba, do FGV IBRE Nordeste, ressalta que, “diferentemente da época da recessão de 2015-16, a economia nordestina na crise econômica da pandemia contou com o enorme volume de recursos do Auxílio Emergencial (além do Pronampe, para micro e pequenas empresas), que fluiu em maior proporção justamente para uma região mais pobre e com mais informalidade.”

A Carta ressalta que as hipóteses referidas ainda precisam ser estudadas, e podem ser “complementares e não excludentes”. E que um melhor entendimento dessas diferentes reações deve contribuir para o desenho de estratégias que revertam essa desvantagem que o Nordeste carrega há tantas décadas.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.