A estratégia chilena na corrida pelo hidrogênio verde na América Latina

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Tal como o Brasil, outros países sul-americanos estão fortemente dedicados em aproveitar suas vantagens comparativas na produção de energia renovável e atrair investimentos industriais em setores eletrointensivos, para os quais o desafio de cumprimento de metas de neutralização de emissões de gases do efeito estufa é maior. A estratégia, cunhada pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) de powershoring (leia mais na entrevista com o diretor da CAF, Jorge Arbache), tem no hidrogênio verde (H2V) uma das rotas tecnológicas mais cobiçadas – e, na região, o Chile entre os países com projetos mais avançados. Em dezembro de 2022, um programa colaborativo liderado pela HIF Global em Punta Arenas, na região de Magallanes – do qual participam Porsche, Enel, a Siemens e a Exxon, com apoio logístico e de infraestrutura da estatal de energia chilena Enap,– produziu os primeiros litros de combustível sintético com base em hidrogênio verde, que serão inicialmente testados pela Porsche na Alemanha. O projeto, chamado Haru Oni, prevê uma capacidade de produção anual de 350 toneladas de metanol e 130 mil litros dessa gasolina ecológica, suficiente para abastecer cerca de 1 milhão de carros de passeio no período, e promete se tornar um importante hub de pesquisa.

Em junho deste ano, o Chile também se tornou o primeiro país a receber recursos do Banco Mundial para o desenvolvimento de sua Estratégia Nacional de Hidrogênio Verde. As metas do país são ambiciosas: contar com capacidade de eletrólise de 5 GW até 2025, produzir o hidrogênio verde (H2V) mais barato do mundo até 2030, e estar entre os três principais exportadores de H2V até 2040. Francisco Meneses, gerente de Investimento e Financiamento da Corfo, agência de fomento do governo chileno, contou à Conjuntura Econômica que esses recursos formam parte de um fundo para o desenvolvimento de H2V, com aporte inicial de US$ 1 bilhão, que começará a ser operado no segundo semestre de 2024. “Para esse fundo também contamos com um financiamento do BID de US$ 400 milhões, outros US$ 150 milhões do Banco de Desenvolvimento da Alemanha (KfW), US$ 109 milhões do Banco Europeu de Investimentos (BEI), além de um aporte da própria Corfo”, enumera Meneses.

Ele explica que a aplicação desse fundo não será em subsídios diretos, mas em garantias que reduzam os riscos dos projetos e, dessa maneira, colaborem para levantar recursos privados. “Projetamos que ao menos 80% dos recursos seja para dar essas garantias, pois é a forma mais eficiente de uso, e é o que em geral os bancos de desenvolvimento fazem. A ideia é que em projetos, por exemplo de US$ 1,5 bilhão, possamos colocar uma garantia de 30% a 40% do total”, diz, reiterando a preocupação de que os projetos busquem viabilidade financeira desde seu início. “Para projetos-piloto, as empresas podem contar com vantagens como incentivos tributários relacionadas à nossa política de apoio à pesquisa e desenvolvimento. Entendemos que essas experiências nos trarão conhecimento sobre as curvas de rendimento e de custos dos eletrolisadores, em uma indústria da qual ainda sabemos pouco. Com esse incentivo, consideramos que será possível conseguir preços mais competitivos nessas plantas menores – de investimento em torno de US$ 20 milhões a US$ 60 milhões”, afirma.

O plano estratégico do país prevê que as aplicações prioritárias desse H2V sejam para substituição da matriz local, como na alimentação de caminhões usados na mineração e em ônibus de longa distância. “Temos vários projetos em andamento. Recentemente recebemos o primeiro trem a hidrogênio, para transporte de carga no Norte do país, já temos ônibus, e agora estamos trabalhando na prospecção de caminhões. Mas nossa avaliação é de que, para esses projetos menores, estamos avançando rapidamente.” Meneses reconhece que talvez a capacidade instalada projetada no plano de 5 GW em dois anos mais, não esteja ainda pronta, “mas estará em construção”, diz.  

Quanto à possibilidade de atrair investimentos industriais do país, explorando o powershoring, Meneses considera que só será possível vislumbrar daqui a dois ou três anos. “Primeiro temos que pensar no tempo de instalação das plantas e conhecer seu desempenho. Confirmando qual de fato será nosso potencial de oferta de hidrogênio, aí passaremos a fazer uma varredura de quais setores e empresas poderiam estar dispostas a vir para o Chile, como metalurgia, cerâmica e vidro”, enumera. Meneses afirma que o foco do governo continuará sendo o de facilitar o caminho. “Temos que avaliar como colaborar com o ambiente regulatório, mitigar dificuldades logísticas, ou como abrir caminho ao financiamento. Como um país de baixo risco, esse é um benefício que já podemos oferecer às companhias”, afirma, lembrando o papel da estabilidade macro no custo de capital. “Além do fato de sermos uma país aberto ao comércio internacional”, destacando que apenas em acordos comerciais o Chile soma 33, com economias que somais mais de 80% do PIB mundial.

Meneses  afirma que os planos de exportação de H2V chileno também deverão seguir o princípio de melhor custo-eficiência . “Claro que ter contratos de longo prazo para compra de H2V é um desafio”, lembra, recordando que a tendência de queda no custo da tecnologia é um complicador neste começo que, nas grandes economias, tem sido amortecido por subsídios governamentais, como no caso dos primeiros leilões dessa energia promovidos na Alemanha. “É importante conquistar contratos como esses, mas evitando subsídios locais. Ao invés destes, temos que priviliegiar os seguros, buscar formas de apoiar as empresas sem comprometer a alocação dos recursos que vêm da arrecadação pública”, diz, defendendo, ainda, que o caminho das exportações será o único rentável para muitos projetos, mas não todos. “No Chile, contamos com o triunvirato hidrogênio-lítio-cobre que são altamente cotados nesse contexto de transição energética. Alguns são segmentos por vezes controversos, pois envolvem alianças público-privadas, mas nos quais buscaremos as formas mais virtuosas de expandir a produção”, conclui.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Subir