Empresas brasileiras revisam para baixo expectativas para os próximos três meses

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

O Índice de Confiança Empresarial do FGV IBRE de fevereiro aponta empresários menos otimistas. O índice recuou 0,7 ponto em relação a janeiro, para 94 pontos, primeira retração em nove meses. O resultado foi  influenciado especialmente por uma queda no índice que mede as expectativas quanto à evolução da demanda nos próximos três meses, que caiu 3,5 pontos, para 90,3 pontos. As principais quedas nesse quesito foram nos segmentos de comércio e serviços. Na indústria, o resultado ficou estável em relação a janeiro, e construção registrou alta.

Aloisio Campelo Jr., superintendente de Estatísticas do FGV IBRE, afirma que os resultados de fevereiro refletem uma calibragem em várias atividades que viveram alguma reação da atividade no final do ano. “Tal como apontou o IBGE, o quarto trimestre de 2023 fechou com crescimento zero. Mas houve uma aceleração na ponta em segmentos da indústria, serviços, comércio - com aumento de vendas inclusive no segmento de bens duráveis - resultando no carregamento positivo que levou muitos analistas a imaginar um primeiro trimestre melhor do que estava projetado”, descreve. “Agora, entretanto, isso parece ter perdido força, sinalizando que esse otimismo pode ter sido passageiro, e que uma melhora expressiva da atividade ainda vai demorar um pouco mais.”

Essa correção foi significativa no setor de serviços, cuja resiliência poderia levar a um PIB mais forte no começo de 2024. Em fevereiro, a queda da confiança foi disseminada: dos 13 segmentos analisados, 10 registraram revisão para baixo; em janeiro, a maioria (77%) tinha sinalizado aumento da confiança. “Em 2023, o setor já demonstrou uma resiliência importante - não se esperava um crescimento significativo, dado que a recuperação do choque provocado pela pandemia parece ter sido concluída em 2022 -, crescendo 2,4% no agregado, com resultados acima do PIB (2,9%) em segmentos como o de serviços prestados às famílias (4,7%) e serviços profissionais (3,4%)”, ressalta. Entre as quedas registradas em fevereiro, Campelo destaca o do segmento de serviços que engloba os prestados a empresas - de segurança de prédios à advocacia - e, especialmente, o de transportes, que afirma ter sofrido a maior contração. “Esse segmento fechou o ano em queda, esboçou uma reação em janeiro, mas já voltou a registar resultado negativo, principalmente no campo das expectativas”, diz. Além de uma conjuntura complicada vivida pelo setor aéreo - “que engloba da oferta de aviões ao impacto na demanda provocado pelo reajuste de passagens” - Campelo também destaca a piora da percepção no setor rodoviário, para a qual pode contribuir um cenário menos promissor para o agronegócio, atividade que impulsionou o setor em 2024. 

No campo da disseminação da confiança, o setor da construção é o que melhor resultado apresentou, com 9 de 11 segmentos registrando alta 82% do total, contra 32% em janeiro). Na indústria, a alta da confiança aconteceu em praticamente metade dos segmentos analisados. O Índice de confiança do setor acomodou em fevereiro, após quatro meses em alta, “período em que houve melhora nas avaliações sobre a demanda e normalização dos estoques”, destaca a Sondagem. “Um dado a destacar desse setor é que ele puxou uma mudança no padrão de respostas sobre crédito, demonstrando uma visão mais favorável para a tomada de financiamento”, destaca Campelo, o que pode ser um farol positivo para o investimento. “Talvez a expectativa quanto à nova política industrial, anunciada em janeiro, já esteja se refletindo nesse resultado”, conclui.

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