Em seminário, pesquisadores do FGV IBRE destacam piora da conjuntura econômica, apesar de bom PIB no primeiro trimestre

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

O resultado melhor do que o esperado para o PIB do primeiro trimestre do ano divulgado pelo IBGE chegou com pouco a se celebrar. No II Seminário de Análise Conjuntural do FGV IBRE em parceria com o Estadão, os pesquisadores do IBRE destacaram a degradação das condições de entorno para a sustentabilidade desse crescimento. Além do impacto das enchentes no Rio Grandes do Sul, o cenário externo e o aumento das incertezas no campo fiscal foram destacados como fatores de risco nesse caminho.

“Os mesmos riscos que trabalhamos há 3 meses, em nosso primeiro seminário do ano, estão presentes, e estão piores”, afirmou Armando Castelar, pesquisador associado do FGV IBRE. No campo externo, Castelar destacou a revisão nas expectativas de corte de juros nos Estados Unidos, fruto da persistência inflacionária observada este ano, além do impacto negativo que a elevada dívida pública americana implicará para os emergentes. “Os EUA vão absorver uma quantidade de recursos internacionais gigantesca para se financiar. Vai ser difícil o juro do Tesouro americano cair abaixo de 4% diante dessa demanda, e o dinheiro sairá dos emergentes”, afirmou.

José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV IBRE, destacou a preocupação com a natureza expansionista da política fiscal. “Ela explica boa parte dos números bons que vimos no PIB do primeiro trimestre”, afirmou, referindo-se, entre outros, aos fatores que colaboraram para o bom resultado do consumo das famílias: o aumento do valor do benefício do Bolsa Família, triplicando os repasses, e a volta da regra de reajuste do salário mínimo que permite ganhos reais estendidos aos benefícios previdenciários – aposentadorias e pensões. Se por um lado essa expansão vitamina o PIB no curto prazo, de outro amplia piora as expectativas inflacionárias, implicando uma política monetária mais contracionista por mais tempo.

Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro IBRE, ressaltou no evento que esse aumento de despesas não teve contrapartida do lado das receitas. “Todos no Congresso votaram pelo aumento do Bolsa Família, mas não querem discutir como financiar esse aumento de gastos de 1% do PIB.”

Senna incluiu em sua lista de preocupações a natureza das discussões no campo de atuação do BC – em torno da meta de inflação e da política de juros – indicando que a forma como esses temas têm sido conduzidos não colaboram para o combate à inflação. “Dentro do próprio governo vemos dúvidas quando ao realismo da meta de 3%. Falta compreensão, no âmbito do governo, de que combate à inflação é coisa complicada”, diz, reforçando a mensagem de que essa tarefa envolve esforços também na frente fiscal. “No dia a dia, a discussão se concentra nos programas de governo, em como financiar aumento de gastos. Falta a percepção de como seria bom viver sem inflação: nos orçamentos familiares, para os governos, também para os empresários tirarem a inflação do cálculo econômico”, afirmou, citando a maior disciplina nas economias desenvolvidas em busca de estabilidade de preços. “A zona do euro, por exemplo, é uma união monetária que envolve 20 países, de Alemanha ao Chipre, e nasceu com meta de inflação abaixo de 2. Essa meta é cumprida na maior parte do tempo. Se é possível e desejável em regiões como china e zona do euro, como não será possível no Brasil?”, questionou. Para Senna, risco de uma postura leniente com uma inflação em torno de 4% ou 5% ao ano é que, quanto mais alta a taxa de inflação, mais instável ela é.

Composição melhor, sustentabilidade em dúvida

Silvia Matos destacou aspectos positivo e negativos em relação à atividade em 2024. Do lado positivo, destaca um resultado melhor que o previsto para a agricultura no primeiro trimestre, e uma melhor composição do PIB, com o crescimento mais disseminado entre as atividades.

“A melhor notícia, que já tínhamos mapeada, é a recuperação do investimento, impulsionada em especial pela queda de juros, uma melhor perspectiva para a construção civil”, afirmou. No caso da recuperação do setor de máquinas e equipamentos, Matos pondera que ele acontece sobre um resultado ruim de 2023. “No ano passado houve queda de quase 40% na produção de caminhões, pelos dados da Anfavea. Em parte, por uma antecipação de compras em 2022. Parte da recuperação de bens de capital que vemos hoje é com base em números negativos de 2023. Ainda precisamos de um crescimento mais forte do investimento”, afirmou. Para isso, a coordenadora do Boletim macro citou a necessidade juros reais mais baixos. “Mas isso não estamos vendo, ao contrário. Há mais incerteza quanto ao futuro.”

Matos destacou a forte dinâmica ainda observada na renda. Uma parte, afirmou, é fruto dessa maior disseminação do crescimento, cuja composição colabora para uma maior formalização e demanda por trabalhadores mais escolarizados. O lado menos brilhante desse resultado, diz, é a parcela do aumento de salários fruto da pressão de um mercado apertado, com taxa de desemprego de 7,5%, que pode colaborar para uma pressão inflacionária.

“Para este ano, vemos a inflação mais próxima de 4% do que de 3,5% ao ano. Em 2025, o efeito questões climáticas podem levar a uma inflação de alimentos num patamar mais elevado. Por outro lado, não estamos vendo mais deflação insumos industriais, tal como o IPA da FGV mostra. E o câmbio está mais depreciado leva a pressão preços manufaturados”, enumerou, indicando que os fatores que no passado colaboraram para a queda da inflação não devem ajudar agora. “Num contexto de demanda aquecida, o cenário demanda cautela nas decisões de política monetária”, reforçou.

Silvia Matos destacou o comportamento do setor de serviços, lembrando que, no Brasil, períodos de aceleração do setor coincidiram com um crescimento da renda em termos reais em torno de 6% ao ano – tal como o registrado nos últimos 12 meses. “Esse cenário preocupa, como desinflação ocorrerá num contexto de consumo crescendo, transferência crescendo, e renda tendo crescimento real elevado”, questionou ponderando, entretanto, que as Sondagens do IBRE não apontam os empresários com uma visão otimista do futuro. “A indústria tem sinais melhores, porque parte da demanda tem voltado aos bens duráveis. Mas quando olhamos serviços e comércio não vemos o mesmo comportamento. O próprio consumidor demonstra uma visão mais cautelosa”, afirmou Matos, destacando que, em maio, parte desse resultado foi afetada pela tragédia climática no Sul. “Ainda assim, há uma mudança de percepção, para a qual colabora um custo do crédito ainda alto”, destacou.

Além da preocupação com o impacto da política fiscal no horizonte de corte de juros, a coordenadora do Boletim Macro ainda destacou o alargamento de horizonte para a obtenção de superávits primários e estabilização da dívida pública. Também ressaltou a necessidade de nova revisão das regras de aposentadoria, destacando que o déficit da previdência saltou de R$ 100 bilhões há dez anos para R$ 330 bilhões (em preços de abril de 2024). “Com o mercado de trabalho indo bem, e o rápido envelhecimento da população, essa também é uma questão relevante, que precisa ser revisada”, afirmou. Para ampliar o potencial de crescimento da economia, Matos defendeu que é preciso garantir investimento em capital humano e físico. “Os dados de PTF – produtividade total dos fatores, que mede a eficiência da economia – mostram que temos um caminho longo para garantir crescimento positivo consistente. E sob um cenário de incerteza econômica mais elevado, acabamos prejudicando as decisões de investimento que promoverão maior eficiência da economia.”

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