Em julho, empresas calibram suas expectativas; apenas o setor de serviços registra alta da confiança

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

A confiança dos empresários medida pelas Sondagens do FGV IBRE recuou ligeiramente em julho – em 0,3 ponto, após quatro altas consecutivas –, para 98,5 pontos. Na comparação mês contra mês anterior, o único setor que registrou alta foi o de serviços, com indústria, construção e comércio  apontando a um ajuste do otimismo para baixo.  Para Aloisio Campelo Jr, superintendente de estatísticas do FGV IBRE, ainda é prematuro dizer que esse movimento significa uma mudança na tendência de alta observada nos setores desde março. Mas indica que fatores como aperto monetário, perspectivas de desaceleração da economia mundial e baixa confiança do consumidor levam os empresários a terem mais cautela especialmente com o último trimestre do ano, refletida na piora dos indicadores focados nas expectativas quanto aos meses seguintes.

No caso do comércio, Rodolpho Tobler, economista do FGV IBRE, ressalta que a queda da confiança observada em julho em relação ao mês anterior, de 2,8 pontos, ainda é observada com certa ponderação, já que o componente que mede a percepção dos empresários quanto à situação atual (ISA) se mantém acima do nível neutro de 100 pontos, marcando 105,6. Tobler ressalta uma convergência benigna entre a evolução do ISA, que cresce, com o Índice de Desconforto – que mede os fatores declarados como limitadores da atividade do comércio que reflitam dificuldade nas vendas, como demanda insuficiente, custo financeiro e acesso crédito – que registra queda. “Essa relação inversamente proporcional, que aproxima as curvas, não acontecia desde meados de 2014”, cita.

Comércio: confiança na situação atual, com redução de fatores limitantes aos negócios


Fonte: FGV IBRE.

Nota-se, entretanto, uma boca de jacaré entre o otimismo quanto ao presente e ao futuro, com uma diferença de 20,8 pontos em fator da situação atual. Quadro que, na mesma comparação mês contra mês anterior dessazonalizada, é oposto ao observado no início do ano. Em fevereiro, por exemplo, essa relação estava mais favorável para as expectativas futuras, que registrava 96,4 pontos, contra 78,1 pontos do índice de situação atual, que desde então registrou sucessivas altas, em um importante movimento de recuperação.

“Essa variação negativa do Índice de Confiança do Comércio julho ainda não é preocupante, diante da alta registrada nos últimos meses – de 20,9 pontos entre fevereiro e junho. A demanda mantém certo aquecimento, o que os empresários têm visto de forma positiva. Mas fica claro que estão muito cautelosos com o que vem à frente, demonstrando que, para eles, o ambiente macroeconômico negativo pode pesar mais do que o efeito das medidas de incentivo que governo lidera”, diz Tobler. Ele lembra que setores do comércio que trabalha com produtos de maior valor agregado dependem que consumidores possam financiar suas compras em situações vantajosas – cenário que não se dá nem pelo lado da renda, devido à inflação alta, nem pelos juros, devido à política monetária contracionista. Entre os segmentos que refletem essa situação está o de veículos automotores, cita.

Já no setor de serviços, o movimento entre a confiança no momento atual e no horizonte de até seis meses registra é de convergência, com os índices praticamente empatados em julho (com 0,1 ponto de diferença entre ambos), situação que não se via desde o início da pandemia. “Os empresários sinalizam que ainda há espaço para retomada de vendas, o que mantém as expectativas também em alta, diferindo do comportamento do comércio”, diz Tobler.  “Em neste caso, medidas que injetam liquidez na economia têm ajudado a postergar a expectativa de desaceleração no setor, diante de um cenário macroeconômico que demanda cautela”, afirma. 

Serviços: convergência entre a expectativa sobre o momento atual e futuro


Fonte: FGV IBRE.

No caso da indústria, Stéfano Pacini, economista do FGV IBRE, destaca que a demanda externa aquecida tem colaborado para mitigar uma queda maior da confiança dos empresários. “Se há moderação de otimismo no mercado interno diante do ambiente macro, no curto prazo a demanda externa ainda parece sustentar parte da confiança do setor”, diz. Pacini aponta que, enquanto no agregado o indicador de situação atual – na comparação mês a mês dessazonalizada – registrou 101,4 pontos em julho, o indicador referente apenas à demanda externa chegou a 128 pontos, melhor resultado desde outubro do ano passado.

Pacini lembra que a indústria registrou um começo de ano difícil, com quedas consecutivas de confiança que vinham desde setembro de 2021 até março, quando o índice passou a se recuperar até recuperar o nível de neutralidade, com 101,2 pontos em junho, recuando para 99,5 em julho. “É importante destacar, que em termos do indicador de tendência dos negócios, o setor ainda registra 93,9 pontos, resultado abaixo do nível histórico, de 99. Em março, entretanto, esse indicador chegou a registrar 88 pontos, o que ressalta o momento desafiador para o setor”, afirma.  

Indústria: tendência dos negócios x confiança


Fonte: FGV IBRE.

 


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