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Como lidar com a tensão geopolítica?

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

A tensão geopolítica entre os Estados Unidos e a China na disputa comercial como principal potência econômica mundial, tem dominado as discussões sobre o cenário político e econômico. A grande questão que se coloca é qual a estratégia que os outros países devem adotar no meio dessa ferrenha disputa: neutralidade ou alinhamento?

A viagem do presidente Lula, com uma grande comitiva à China, nosso principal parceiro comercial, coloca mais um ponto de interrogação para onde deve caminhar a política externa brasileira e o peso que o governo deve dar nas relações entre as duas maiores potências do planeta. Lula, hábil político, que algumas vezes tem feito colocações que têm trazido certo desconforto, sempre defendeu estreitar relações com todas as nações, o que foi feito em seus dois primeiros mandatos.

Nos seus primeiros pronunciamentos no país asiático, o presidente brasileiro deu algumas estocadas nos Estados Unidos. Alguns pontos que Lula abordou:

• Defendeu que o comércio brasileiro pode ser rastreado na nossa moeda. Quem é que decidiu que era o dólar?

• O que impede os Brics de ter uma moeda que possa financiar a relação comercial entre Brasil e China e o Brasil e outros países?

• Atacou o FMI, afirmando que ele está asfixiando a Argentina.

Jogo de cena ou não para os chineses, as declarações de Lula não caíram muito bem dentro do governo e da diplomacia norte-americana.

Em artigo publicado na edição de abril de Conjuntura Econômica, a pesquisadora associado do FGV IBRE, Lia Valls, traz uma interessante reflexão sobre qual deveria ser a posição dos países diante da crescente tensão entre as duas potências mundiais. Citando artigo publicado na revista Foreign Affairs, do bimestre março/abril, Kishore Mahbubani, defende que os países do Sudeste Asiático, especialmente os que fazem parte da ASEAN – A Associação das Nações do Sudeste Asiático – bloco integrado por Brunei, Camboja, Cingapura, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Tailândia e Vietnã, encontraram uma terceira via que deveria ser seguida pelos outros países no que ele chama de Sul Global, países em desenvolvimento. Essa terceira via seria a convivência pragmática “para obter ganhos no comércio e fluxos de investimentos pelas duas grandes potências”.

Para Mahbubani, “a força dos países Asean está numa integração pragmática onde prevalecem os interesses econômicos de cada país e não se requer adesão às cláusulas de valores”. Entre os 10 países da Asean, existem regimes democráticos, autocracias, comunistas e monarquia absolutista. O que une os países é o crescimento econômico e do comércio que é impulsionado com os acordos que realizam.

Kishore Mahbubani é considerado o principal intelectual da Ásia. É membro da Asia Research Institute, da Universidade de Singapura, foi presidente do Conselho de Segurança da Onu e tem vários livros publicados.

Na área do comércio exterior, as exportações intra-regionais dos países da Asean responderam por 21,7% das exportações, no ano de 2021. A China é o segundo destino das exportações, 16,4%, seguido dos Estados Unidos, 14,9%, União Europeia, 8,9% e Japão, 6,6%. Nas importações, a China lidera com percentual de 23,9%, seguido da Asean, 20,9%, Japão, 7,8% e os Estados Unidos é o sétimo principal fornecedor com 7,7%.  No caso dos investimentos estrangeiros, os Estados Unidos responderam por 22,5% dos fluxos direcionados para os países Asean, seguido da União Europeia, 14,8%, China, 7,7%. Os investimentos. Os investimentos intra-regionais (realizados entre os países do bloco) explicaram 13,1% do total dos investimentos diretos na região.

Como mencionei, a neutralidade seria o melhor caminho. Lia, levanta, porém, um ponto que Mahbubani deixou de ressaltar em seu artigo: a posição estratégica dos países da Asean, tanto em termos geopolíticos como econômicos para os Estados Unidos e China. 

• A Asean, criada em 1967, era entendida, segundo o autor, como um projeto do imperialismo norte-americano para conter a possível expansão do comunismo na região. Ao longo do tempo, porém, e, com a expansão do comércio com a China, os países consolidaram seus laços comerciais com a principal economia da região.

• Com a expansão da China, o presidente Obama procurou preservar a liderança dos Estados Unidos na região com a proposta de um acordo de livre comércio, o Acordo Transpacífico, rejeitado por Trump. Nesse interim, a China avançou com o seu projeto da Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Intiative) que prevê mais de 53 projetos na região.

• Com o processo de decoupling (dissociação) dos Estados Unidos nas cadeias de produção que dependem da China, alguns países da Asean são entendidos como fortes candidatos como o Vietnã, Mianmar, por exemplo. Ao mesmo tempo, a China também olha para os países Asean como parceiros em sua estratégia de formação das cadeias na Ásia.

• Todos os fatores acima mencionados têm permitido até o momento a neutralidade da Asean, apesar da proximidade geográfica com a China.

Mahbubani considera que a mesma estratégia de neutralidade que permite extrair ganhos de ambas as potências é possível de ser replicada em outras regiões, como a América Latina. Para Lia, no entanto, há alguns pontos que devem ser mais bem avaliados.

• É preciso distinguir a região em dois grandes blocos. O primeiro se refere ao México e os países da América Central e Caribe, exceto Cuba, que estão mais diretamente sob a influência dos Estados Unidos, apesar das inciativas chinesas como o acordo de livre comércio com a Costa Rica. O segundo é o bloco da América do Sul, que iremos tratar.

• O comércio intra-regional é menor do que na Asean. Em 2021, o percentual nas exportações foi de 15,9% (na Asean foi de 21,7%) e nas importações de 18,3% (na Asean de 20,9%). Em termos de participação, a China lidera as exportações e sua diferença para os Estados Unidos e a União Europeia é elevada. Em 2021, as exportações para a China responderam por 26,3% das exportações totais, seguida dos Estados Unidos, 12,8% e da União Europeia, 11,8%. Comparativamente aos resultados da Asean, a China é mais importante para a América do Sul em termos de exportações e os Estados Unidos é menos importante.

• Nas importações, a China lidera com percentual de 23% seguida dos Estados Unidos 17,4% e a União Europeia, 14,3¨% Na comparação com a Asean, o percentual com a China é similar, mas o peso dos Estados Unidos é menor na Asean. Esse último caso poderia ser explicado pela distância geográfica, mas para o Brasil o que parece contar é a competitividade dos produtos chineses em relação aos dos Estados Unidos no mercado da América do Sul.

• Como a integração comercial não é plena na América do Sul, as diferenças de interesses se acentuam. Na comparação da média das exportações entre 2018/2021, a participação da China ultrapassa a dos Estados Unidos e foi acima de 20%, no Chile, Brasil, Peru e Uruguai. A liderança dos Estados Unidos é clara para o Equador e Colômbia e para a Venezuela, os percentuais são similares. Para a Argentina, Bolívia e Paraguai, a importância das duas potências é inferior a 10% e o principal comércio está associado à região sul-americana. O interesse do Uruguai em realizar um acordo com a China está em parte associado a esses resultados.

• Não podemos falar como na Asean em um bloco consolidado na América do Sul. Apesar dos países possuírem entre si acordos de livre comércio, a integração não tem avançado como na Asean em termos regulatórios e na garantia de um cenário de livre comércio. Além disso, diferente da Asean que existe desde 1967 e que conseguiu sobreviver às turbulências políticas, o processo de integração sul-americano avança e sofre retrocesso influenciado em grande parte pelas preferências presidenciais do momento em cada país. Uma estratégia comum da América do Sul seria bem-vinda, mas por enquanto parece distante.

Ver a íntegra do artigo na edição de abril da revista Conjuntura Econômica.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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