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14 Out 2022

Em Foco

Incerteza e desafios

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

Na edição especial de outubro da revista Conjuntura Econômica, vários pesquisadores do FGV IBRE avaliaram os rumos da economia, com algumas sugestões de mudanças para melhorar a eficiência de nossa economia que, nos últimos anos, vem caminhando aos trancos e barrancos. Este ano, a atividade econômica ganhou impulso, já que a demanda estava reprimida. Com a volta da vida à normalidade, setores que haviam sido duramente castigados durante a pandemia, como o de serviços, maior responsável pela formação do PIB brasileiro, voltaram a crescer, puxando para baixo as taxas de desemprego.

Às vésperas do primeiro turno das eleições, o desemprego medido pela Pnad Contínua do IBGE era de 8,9%, inferior ao nível pré-pandemia. Diferentemente de 2021, quando a retomada da economia veio sem uma resposta do mercado de trabalho no mesmo ritmo, este ano o emprego acelerou mais que o PIB. Tal movimento se deveu, em especial, à resposta de setores intensivos em mão de obra que ainda não haviam se recuperado completamente dos efeitos das medidas de isolamento – como atividades culturais, de recreação, educação –, parte deles até superando o nível de atividade anterior ao choque de Covid-19. 

No caso do mercado de trabalho, embora o recuo das taxas de desemprego seja uma excelente notícia, os analistas do FGV IBRE têm um olhar mais cuidadoso sobre essa trajetória descendente.

Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV IBRE lembra que, apesar de positivo, “esse cenário ainda reflete uma situação frágil. Vale lembrar que, diferentemente do que pode acontecer com outras comparações setoriais, no caso do mercado de trabalho alcançar o nível pré-pandemia não significa exatamente um bom resultado. O cenário do emprego no início de 2020 ainda apresentava sinais de deterioração provocada pela recessão de 2014-2016. Assim, quando observamos que no trimestre móvel encerrado em agosto de 2022, 6,4% do total das pessoas empregadas ainda trabalhavam menos horas do que gostariam, vemos que esse nível é similar ao observado no fim de 2019. Mas tal índice de subocupação por insuficiência de horas trabalhadas está bem acima do registrado em 2015, por exemplo, quando era de 4,4%. Há outros indicadores, por sua vez, que ainda permanecem piores do que antes da crise sanitária. É o caso do desemprego de longa duração, como é classificado o desemprego de uma pessoa que busca trabalho há 2 anos ou mais, sem sucesso. No segundo trimestre de 2022, esse grupo representava 29,6% do total de desempregados, o maior percentual da série iniciada em 2012”. 

Para Barbosa Filho, “além desse quadro qualitativamente preocupante, em 2023 a tendência é de que a redução do índice de desemprego freie, até retroceda. No ano que vem, não haverá mais a ajuda dos setores que ainda tinham uma margem de recuperação a preencher, e o aumento de juros operado pelo Banco Central para combater a inflação deverá provocar certa contração da atividade. Independentemente do governo que assuma o Executivo federal, espera-se que este opere um ajuste no campo fiscal, contrastando com a política de estímulos operada este ano, colaborando para esse cenário de desaceleração”.

Embora haja dúvidas sobre a sustentação do mercado de trabalho, este ano a economia terá um resultado bem melhor do que o previsto anteriormente pelos analistas. Como lembra Samuel Pessôa, pesquisador associado do FGV IBRE, “o PIB tem surpreendido positivamente, assim como o desempenho do mercado de trabalho. Hoje, a população ocupada no país é 7% maior do que no quarto trimestre de 2019, último antes da pandemia de Covid-19. A PNADC de agosto nos informa que a taxa de desemprego caiu para 8,9%, o menor número desde o final de 2015”.

Para Pessoa, de certa maneira, “parece que a capacidade de crescimento da economia aumentou, ao menos um pouco. Mas ainda não é possível comprovar essa alta. Cálculos dessa natureza sempre chegam com atraso, e só atestamos uma alteração positiva quando a atividade já está crescendo mais. Foi o que aconteceu nos anos 2000, no período do governo Lula. A economia acelerou, mas os economistas só perceberam que o potencial de crescimento tinha subido algum tempo depois. É possível que agora vivamos um processo parecido”.

Um ponto que merece maior atenção é o alto endividamento das famílias brasileiras, que pode ter consequências nefastas sobre um aumento do consumo das famílias, que têm sido um dos principais fatores de crescimento do PIB brasileiro.

Em setembro, o número de famílias com dívidas chegou a 79,3% dos lares brasileiros, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O quadro é mais dramático para as famílias de baixa renda, onde nos lares com renda inferior a 10 salários-mínimos, o endividamento superou os 80% pela primeira vez.

Embora o índice esteja em níveis altíssimos, o crescimento parece que está arrefecendo: o aumento em setembro foi de 0,3%, sobre agosto, o menor desde abril deste ano. E o avanço nos últimos 12 meses foi o menor desde julho do ano passado.

Fatores para esse arrefecimento: melhora no mercado de trabalho, queda da inflação, embora a de alimentos se mantenha elevada, e a política de transferência de renda.

Para a economista da CNC, Izis Ferreira, a escalada da inadimplência deve-se a alta dos juros que encarece as dívidas contraídas. Segundo a entidade, as taxas de juros nas linhas de crédito para pessoas físicas cresceram 13,5 pontos percentuais em um ano, chegando à média de 53,9%, a maior taxa desde abril de 2018.

Silvia Matos, pesquisadora e coordenadora do Boletim Macro FGV IBRE, é um pouco cética quanto a uma recuperação sustentável da economia. A entrevista que abre o especial de outubro da revista Conjuntura Econômica, feita pela editora Solange Monteiro, deixa claro que “entre as palavras que resumem a lista de preocupações de Silvia para o Brasil em 2023, eficiência certamente está entre as principais. Para ela, a base para o sucesso do governo que assumir o país a partir do ano que vem passa por privilegiar critérios técnicos que garantam a qualidade das políticas a serem implementadas. E, no campo fiscal, que não limitem o debate a gastar mais ou menos, mas de como gastar de forma melhor e mais sustentável. O que não exclui a necessidade de cortar gastos, especialmente após um ano em que o crescimento da atividade foi tão apoiado por políticas de estímulos e subsídios”. Para Silvia, “sem espaço orçamentário, e com carga impositiva tributária alta, alguém terá que perder. E escolher quem será sempre foi algo difícil no Brasil, seja em governos de esquerda, seja em governos de direita”.

Algumas das principais preocupações de Sílvia em relação à atividade econômica:

• Uma recuperação vigorosa é uma notícia boa, mas se a produtividade não a acompanha – o que envolve uma combinação de políticas –, é sinal de que esse crescimento terá limite

• Quando tratamos de produtividade, falamos de uma agenda de longo prazo, que precisa ser abordada de forma técnica, com uma visão transversal

• Controlar a inflação de fato passa pela política fiscal, não com um debate limitado a se gastar mais ou menos, mas de como gastar melhor, de forma eficiente

• Sem espaço orçamentário, e com carga impositiva tributária alta, alguém terá que perder. E escolher quem será sempre foi algo difícil no Brasil, seja em governos de esquerda ou de direita

• Como convencer o mercado de que, a qualquer novo sinal de aperto, não acontecerá o mesmo com uma nova regra fiscal? Isso pode comprometer a eficácia de qualquer política de longo prazo

Acesse, gratuitamente, a edição de outubro da Conjuntura Econômica.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.