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Emprego melhora, mas ainda há fragilidades

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

O ao longo deste ano o mercado de trabalho vem apresentando forte recuperação. Passada a fase mais crítica da pandemia, marcada por uma queda recorde do número de pessoas ocupadas, o emprego tem estado no seu maior nível desde o início da série histórica. Dados do trimestre móvel terminado em julho de 2022, por exemplo, mostraram que o número de ocupados no Brasil atingiu a marca de 98,7 milhões de pessoas.

“É importante destacar que parte relevante desta recuperação, ocorreu por conta da volta dos informais para o mercado de trabalho, principalmente no ano passado”, diz Paulo Peruchetti, pesquisador do FGV IBRE.

Mas só isso explica essa retomada?

Não. No primeiro semestre houve um avanço mais forte do emprego formal, caracterizado pelo aumento da contribuição deste tipo de ocupação para o aumento do emprego, principalmente na primeira metade deste ano. A despeito desta melhora do emprego formal desde o início de 2022, a taxa de informalidade, que no final do ano passado girava em torno de 40,7%, passou para 39,8% no trimestre móvel encerrado em julho de 2022, atingindo 39,3 milhões de pessoas, um número ainda bastante elevado.

Que outros fatores têm contribuído para isso?

Outro ponto que merece atenção a despeito da melhora do emprego nos últimos meses é que ela ocorreu por conta de uma recuperação de setores que ainda não haviam se recuperado por completo. Em particular, a recuperação do mercado de trabalho neste ano tem sido muito concentrada na volta dos serviços presenciais e de produtividade mais baixa.

O Núcleo de Mercado de Trabalho, Produtividade e Renda do IBRE tem pontuado que essa recuperação, embora salutar, ainda mostra um mercado de trabalho fragilizado....

Sim. Apesar desta melhora no emprego, cerca de 6,6% do total das pessoas empregadas (ou seja, quase de 6,5 milhões de trabalhadores) ainda trabalhavam menos horas do que gostariam no trimestre móvel encerrado em julho de 2022. A título de comparação, no final de 2015 a proporção de subocupados por insuficiência de horas trabalhadas no total do emprego era de 4,4%. Estas pessoas, por serem majoritariamente informais, acabam por receber um salário mais baixo, contribuindo assim para o aumento da vulnerabilidade deste grupo. Diante disso, podemos notar uma piora considerável neste indicador ao longo dos últimos anos.

Evolução dos Subocupados por insuficiência de horas trabalhadas 
Subocupados


Fonte: FGV IBRE.

Que outros dados podem apontar para essa fragilidade?

Outro ponto que merece destaque é o fato de que apesar da forte redução na taxa de desemprego para 9,1% (atingindo ainda 9,9 milhões de pessoas) no trimestre móvel encerrado em julho de 2022, ainda existia um número elevado de pessoas que estão nesta situação por dois anos ou mais, e que são os chamados desempregados de longa duração. Dados do segundo trimestre de 2022, por exemplo, mostraram que 29,6% do total dos desempregados estava nesta situação, revelando uma piora considerável na composição dos desocupados no Brasil.

Proporção de desocupados de longa duração (que procuram por trabalho a dois anos ou mais) sobre total de desocupados


Fonte: FGV IBRE.

Mas ainda há um grande contingente de pessoas que não conseguem entrar no mercado de trabalho. Por quê?

O número de pessoas fora da força de trabalho ainda se encontra acima dos níveis observados em meados de 2020. A despeito disso, a taxa de participação tem se recuperado num ritmo mais lento. Em particular, no trimestre móvel encerrado em julho de 2022, a taxa de participação foi de 62,7%, maior do que a observado no mesmo período de 2020 (56,7%), porém menor do que a observado em 2019 (63,7%).

A taxa de participação é a razão entre a força de trabalho (que engloba ocupados e desocupados), e a população em idade para trabalhar, que compreende as pessoas de 14 anos ou mais.

Taxa de Participação (em %)


Fonte: FGV IBRE.

Mas a renda não tem melhorado na mesma velocidade que a queda da taxa de desemprego...

É verdade. A mudança de composição do emprego, impulsionada pela volta dos trabalhadores menos escolarizados e em ocupações informais acabou contribuindo para a piora da renda. Os dados mostram que apesar da melhora neste ano, no trimestre móvel encerrado em julho de 2022 o rendimento médio (R$ 2693) estava 3,6% abaixo do observado no mesmo período de 2019 (R$ 2795).

Rendimento Real do Trabalho


Fonte: FGV IBRE.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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