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16 Set 2022

Em Foco

Anitta é uma santa

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

Vou, uma vez mais, sair da seara da economia. Na sexta-feira passada, 9, fui a São Paulo. Sofia, uma de minhas netas, fez 15 anos e teria uma “balada”, como dizem os jovens, para os amigos mais próximos que, no caso dela, são muitos. Extrovertida, faz amizades com grande facilidade. Como diz minha filha, “ela conversa até com uma folha de alface”.

Nunca havia ido a uma festa de 15 anos, já que, com minha idade, seria “Um estranho no ninho”, fazendo uma analogia ao filme de Milos Formam, de 1975, com a magistral atuação de Jack Nicholson, no meio da moçada. Mas, como avô, não poderia deixar de participar desse momento tão importante da vida que se abre à minha neta.

Chegamos mais cedo no salão. Muitas luzes, uma pista iluminada aguardando a juventude chacoalhar o esqueleto, som já um pouco alto, um pequeno bar – quem tinha fita preta no pulso, maiores de 18 anos, poderia pedir bebidas com álcool –, uma máquina que despejava enormes porções de algodão-doce, lugar para tirar fotos personalizadas. E algumas mesas espalhadas pelo salão. Tudo pronto, aguardando a chegada dos convidados.

Por volta das 21h, a primeira leva entra no salão. A esmagadora maioria, toda de preto. Pareciam pessoas duplicadas. Guardadas as devidas proporções, me veio à mente O Homem Duplicado, de José Saramago, onde os dois personagens do livro tinham a mesma aparência. E foi chegando mais gente, quase todos com as mesmas roupas: os meninos de calça e camisa preta, só variando o modelo do vestido das meninas, não a cor, muitas procurando se equilibrar em saltos altíssimos. Algumas parecendo ter 18, 20 anos.

Era um mar de preto. Todos que chegavam se abraçavam, se beijavam, como se não se vissem há meses. Uma alegria contagiante. No meio de tudo isso, um jovem, de terno azul claro, de óculos tipo Harry Porter, cabelo rigorosamente aparado, destoava do conjunto. É o nerd da turma, me disseram.

Quem ainda estiver com paciência para continuar lendo esse texto, provavelmente já passou por situação semelhante. Já fez uma festa de 15 anos ou seus filhos, toda semana, tem uma festa dessas para ir.

Com o salão já quase lotado – os amigos mais próximos de minha neta eram uns 70 –, o momento mais esperado: a dança da valsa que teve uma preparação prévia, com ensaios por várias semanas. Caio, meu neto de 17 anos, e João, primo de Sofia, foram os escolhidos para rodopiar pela pista com Sofia, envolta em um vestido que lembrava aqueles de contos de fada.

Já estava com um sentimento de absurda ignorância ao ver a legião de jovens “duplicados”. Ignorância que aumentou ainda mais quando a valsa começou. Lembrei de Beethoven, Mozart, Bach, o que seria uma barbárie naquele ambiente. O som na caixa foi de duas músicas que, confesso, nunca tinha ouvido falar: Photograph, de Ed Sheeran, e A Thousand Years, de Christina Perri, como me contou minha neta. Mas o som agradou meus ouvidos.

Terminada a dança, que teve canhões de fumaça, alguns passos de valsa, rodopios, Sofia sendo alçada ao alto pela cintura, passos que lembravam, ainda que vagamente, bailes da corte francesa, o bicho pegou.

Numa contagem regressiva, o DJ começou a chamar aquela massa de adolescentes para a pista de dança. Quando a contagem chegou a zero, o som foi ampliado a decibéis inimagináveis. E o funk começou a rolar solto, num batidão incontrolável.

O barulho era ensurdecedor. As letras me convenceram que a tão criticada Anitta, por suas músicas, é uma monja enclausurada de pés descalços. Uma verdadeira santa perto do que tocava.

Todos sabiam as letras. Dançavam. Faziam coreografias. Se abraçavam. Os saltos foram descartados, com as meninas deixando os sapatos largados no chão. Como não se ouve esse tipo de música em casa ou na da minha neta, a internet faz esse papel. É o enorme poder desse meio de comunicação, especialmente entre os adolescentes. Como me lembrou a Solange Monteiro, minha editora na revista Conjuntura Econômica, na hora da festa não tem essa de classe social: brancos, ricos, classe média, também sobem o morro.

Raquel, minha enteada de 17 anos, que estava na festa e que tem um gosto musical apuradíssimo, que também chocalhava na pista, deu o caminho das pedras: “Se você não entrar no clima, fica excluída. Sei que isso não é música. Mas é uma diversão”.

Saí do salão completamente surdo. Até achei que meu tímpano havia sido perfurado. A festa foi até as duas da manhã, com aquele funk rolando solto. Saí antes, com uma sensação de alívio e emoção ao ver Sofia cercada de tantos amigos e carinho. Agora começa um novo caminho, cheio de obstáculos, que serão superados, um a um.

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Como estava em São Paulo, no sábado fui almoçar no Koh I Baba. Um minúsculo restaurante – tinha só quatro mesas –, escondido na rua Tamandaré, ainda Liberdade, descoberto pela minha ex-cunhada. Localizado num lugar decadente, passa despercebido a qualquer um. Três pessoas trabalham no restaurante: um casal e o filho, um jovem, que não fala uma palavra em português.

Nas paredes, três ou quatro quadros com fotos do Afeganistão, país de onde vieram. O pai está no Brasil há 11 anos, tentando fazer um pé de meia. Há seis meses, mesmo com o Talibã no poder, conseguiu trazer o filho para o Brasil, que ajuda a servir as poucas mesas. A mulher, com o apoio do marido, que também faz o papel de garçom, prepara pratos caseiros, como os que fazia quando estava no Afeganistão. Cheios de aromas e temperos que, quando chegam à mesa, perfumam o pequeno restaurante que começa a ser ampliado.

No cardápio, umas oito opções de comida afegã. E outra parte de pratos indianos e tailandeses. Tudo muito simples, mas com um sabor maravilhoso. E por um preço que, quando vimos o cardápio, achamos que estava errado. Muito barato.

Bebidas, só cerveja, Coca-Cola e Fanta, que surgiu em 1941, na Alemanha, dada a dificuldade, devido à II Guerra Mundial, do recebimento do concentrado para a fabricação da Coca-Cola. E chá: de menta, cardamomo, verde, hibisco.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.