Em Foco
Desalento e tenacidade
Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro
A incerteza, confusão, desmonte de políticas públicas, previsões pessimistas sobre o crescimento sustentado do país nos próximos anos, piora da qualidade do emprego, queda da renda, aumento da pobreza, reviravoltas políticas, inflação e grande dispersão de preços, aumento do racismo, da xenofobia, da violência, com pessoas enraivecidas nas ruas, no trânsito. É um punhado de coisas, possivelmente esqueci de muitas outras, que causam um enorme desalento.
Vendo tudo isso, que fica ainda mais dramático no meu dia a dia, por trabalhar com uma das principais referências em análises econômicas do país – os pesquisadores do FGV IBRE –, muitas vezes dá vontade de enfiar a cabeça num buraco como uma avestruz.
A mais recente divulgação da Pnad Contínua pelo IBGE mostrou que a taxa de desemprego no trimestre móvel terminado em fevereiro de 2022 foi de 11,2%, atingindo cerca de 12 milhões de desempregados. A taxa de desemprego neste mês foi menor do que a observada no mesmo período de 2021 (14,6%) e inclusive do que a observada no mesmo período de 2020 (11,8). E, também, é a menor desde 2016.
No entanto, como alerta Paulo Peruchetti, pesquisador associado do FGV IBRE, “temos que ter cautela quanto à interpretação dos resultados, pois este recuo na taxa de desemprego tem feito com que voltemos ao patamar pré-pandemia que já era caracterizado por uma elevada taxa de desemprego”.
Peruchetti ressalta que “o quadro geral de fragilidade pelo qual tem se configurado o mercado de trabalho brasileiro também fica evidente quando analisamos outras variáveis que são muito relevantes. Uma delas é a partir da quantidade de pessoas que ainda trabalham menos de 40 horas, mas estavam dispostas a trabalhar mais, que são os chamados subocupados por insuficiência de horas trabalhadas. Os dados mostram que cerca de 6,6 milhões de pessoas (cerca de 7% do total de ocupados) ainda estavam nesta situação em fevereiro de 2022. Apesar da redução na ponta, o nível ainda é bastante elevado, contribuindo para o aumento da preocupação sobre a qualidade das vagas que vem sendo criadas”.
Pessoas subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas

Fonte: Pnad Contínua.
Outro ponto que chama atenção no mercado de trabalho, e que tem se repetido mês após mês, “é que apesar dessa lenta recuperação na taxa de desemprego, puxada pela melhora do emprego principalmente dos trabalhadores informais, o rendimento tem estado em níveis extremamente baixos. Em particular, os dados mostram que em fevereiro de 2022 o rendimento médio real foi de R$ 2.511, cerca de 8,8% menor do que o observado no mesmo período do ano passado”, diz Peruchetti.
Rendimento Médio Habitual – Todos os Trabalhos

Fonte: Pnad Contínua.
Uma recuperação mais robusta do mercado de trabalho e da renda só ocorrerá quando a atividade econômica ganhar fôlego. O que, pelas previsões dos economistas, não deve ocorrer tão cedo. O Boletim Macro FGV IBRE de março prevê para este ano um modesto crescimento, de 0,6% do PIB. A inflação embicando para cima, juros elevados e a crise na Europa com a guerra na Ucrânia, que já pressiona fortemente a inflação de alimentos e combustíveis, tornam o quadro ainda desafiador para alavancar o mercado de trabalho e a renda, que pode ficar estagnada ou até cair.
Essa progressiva deterioração da renda dos trabalhadores tem se refletido no aumento do endividamento das famílias e das pessoas. Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a parcela de famílias com dívidas, em atraso ou não, bateu recorde em março, com 77,5%, a maior taxa desde que a pesquisa começou a ser feita em 2010. Em março do ano passado, o percentual era de 67,3%.
Percentual de famílias endividadas (% do total)
(Cartão de crédito, cheque especial, cheque pré-datado, crédito consignado, crédito pessoal, carnê de loja, prestação de carro e prestação de casa

Percentual de famílias endividadas segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Fonte: Reprodução/CNC.
Já as famílias com dívidas em atraso chegaram a 20,8%, o segundo maior percentual desde janeiro de 2020. E o de famílias sem nenhuma condição de pagar suas dívidas foi de 10,8%.
Endividamento, desemprego, queda de renda, economia andando de lado: ingredientes perfeitos do que vemos hoje: um aumento expressivo de pessoas morando nas ruas, e a insegurança alimentar aumentando.
Ou seja: entraves para aumento do consumo, que dá mais fôlego à atividade econômica e, consequentemente, ao emprego e à renda.
Ítalo Calvino, nascido em Cuba, filho de italianos, no seu livro “O Barão nas Árvores”, conta a história de um menino que, por não concordar com o que acontecia em sua casa, resolve ir morar nas árvores, de onde vê as mudanças que ocorrem abaixo dos galhos que usa para se locomover. Às vezes, uma ponta de inveja me assombra ao lembrar de Cosme Chuvasco Rondó, o filho primogênito do barão de Rondó, que se revolta e sobe às arvores para nunca mais descer.
Mas a tenacidade, apesar de ver o mundo cada vez mais do avesso, é o instrumento que lançamos mão nas piores adversidades. Tomando emprestado uma frase dita por Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo e ex-senador, durante uma conversa que tivemos: “Não vou desistir deste país”.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.