Em Foco

O rastilho da Ômicron

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

Em Crônicas de Petersburgo, Dostoiévski escreveu em abril de 1.847: “dizem que é primavera em Petersburgo. Mas será verdade? Aliás, é bem provável que seja. De fato, temos todos os indícios de primavera, Metade da cidade está com gripe e a outra metade, ao menos constipada

Aqui é verão. A esmagadora maioria da população está com gripe ou com Covid. Pouco antes do Réveillon, meu médico, clínico geral, me ligou. Queria saber como estava passando, já que havia feito alguns exames de rotina. Todos normais, felizmente. Já passava das 22 horas e ele continuava no consultório. Me falou que estava com uma explosão de pacientes com Covid e outros tantos acometidos de forte gripe. Estava trabalhando até aquela hora e ainda iria visitar uma paciente internada em estado grave no hospital.

Me disse que o quadro iria piorar. Que estimava em uma a duas semanas um grande aumento de casos aqui no Rio, puxados pelo Réveillon, com a queima de fogos. Disse a ele que estava no apartamento de minha filha, em Copacabana, e estava assustado com a quantidade de gente perambulando pelas ruas. Que, guardada as devidas proporções, a avenida Nossa Senhora de Copacabana, por onde cheguei de carro para me entocar no apartamento, me remetia um pouco ao centro da cidade do México: gente saindo pelo ladrão, como diz o ditado.

No dia 31, com duas máscaras, álcool gel em punho, tomei coragem e fui com duas de minhas netas adolescentes, dar uma caminhada. Deslumbradas com a proliferação de lojas na região, onde se vende de tudo e se encontra qualquer bugiganga, paraíso para duas meninas de 13 anos de idade, a saída acabou se prolongando mais do que deveria.

As pessoas pareciam enlouquecidas. Lojas apinhadas de gente, mesmo com uma leve chuva que não dava trégua. Bares e restaurantes lotados. Botecos, os chamados pés sujos, com mesas nas calçadas, churrasquinho rolando em uma churrasqueira portátil, pagode, gente dançando. Tudo regado a muita cerveja. E uma alegria se espraiando pelo ar. Infelizmente, junto com o vírus.

Muitas pessoas de branco, com flores de palma, rumo ao mar para fazer suas oferendas a Iemanjá, na esperança de um ano melhor do que os dois sofridos anos dessa pandemia. Camelôs vendendo taças de plásticos com desenhos com a chegada do novo ano. Vestidos brancos, prateados, vermelhos, pendurados em araras improvisadas em dezenas de barracas espalhadas pela Nossa Senhora de Copacabana, na rua Santa Clara e adjacências.

Muita gente usando máscaras. Muitas, sem. Era como se os quase dois anos de pandemia houvessem terminado e as horas que separavam a chegada de 2022, estavam sendo aproveitadas em sua plenitude para a virada do ano. Afinal, haveria a tradicional queima de fogos em Copa.

A sensação que me invadiu é que as pessoas resolveram “chutar o pau da barraca”. Não estão aguentando mais o isolamento, a falta de contato físico.

E a conta não demorou a chegar. Com a chegada da variante Ômicron, que já representa mais de 58% dos contaminados no país, e com a corrida a postos de saúde e hospitais das redes privada e pública por pessoas com sintomas gripais, a cidade do Rio de Janeiro registrou nos primeiros cinco dias deste mês o equivalente a 80% dos casos de covid-19 registrados em todo o mês de dezembro. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, entre os dias 1º e 5 de janeiro, foram registrados 2.485 casos na cidade, considerando unidades públicas e privadas. Em todo o mês de dezembro, foram 3.070 casos de covid-19. Número que tende a aumentar pelas aglomerações da passagem do ano.

Outro problema é que com o apagão dos dados depois do ataque de hackers ao site do Ministério da Saúde, não se sabe, com certeza, o número de contágios e mortes por Covid-19 no país, dada a inconsistência dos dados, inclusive das secretarias de saúde.

A explosão de casos mundo com a chegada da nova cepa é espantosa. Com as festas de Réveillon, todos os destinos turísticos mais badalados do planeta convivem com um surto pandêmico. No espaço de duas semanas, o número de novos casos no mundo aumentou 150%.

Novas casos no mundo – média móvel últimos sete dias


Fonte: Worldemeter.

No último dia 6, o governo francês aprovou a exigência de passaporte de vacina para que pessoas, maiores de 12 anos, possam entrar em restaurantes, bares, teatros, cinemas, shows, jogos esportivos, trens de média e longa distância, entre uma série de outras atividades não essenciais. Nas últimas 24 horas do dia 6, mais de 320 mil novos casos foram registrados na França. Mais de 4 milhões de franceses ainda não se vacinaram contra a COVID-19.

Nos Estados Unidos, onde mais de 1 milhão de novos casos foram registrados no último dia 3 – número nunca visto no mundo desde que a pandemia começou –, o Grammy, principal premiação de música que ocorreria no dia 31 foi suspensa. O Globo de Ouro, outra premiação importante, que ocorre neste final de semana, foi mantida, mas de forma virtual. Perto de 30% da população norte-americana ainda reluta em se vacinar contra a COVID-19.

Novas casos nos Estados Unidos – média móvel últimos sete dias


Fonte: Worldemeter.

 

Novas casos no Reino Unido – média móvel últimos sete dias


Fonte: Worldemeter.

 

Novas casos na França – média móvel últimos sete dias


Fonte: Worldemeter.

 

Novas casos na Itália – média móvel últimos sete dias


Fonte: Worldemeter.

 

Novas casos no Brasil – média móvel últimos sete dias


Fonte: Worldemeter.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em coletiva ontem (6), em uma semana o número de novos casos de COVID-19 bateu recorde, chegando a 9,5 milhões de contaminados no mundo, e alerta que os números vão crescer mais na próxima semana.

Apesar dessa explosão que tem levado a uma corrida a hospitais, postos de saúde e busca de testes, graças a vacinação o número de mortes vem caindo. Na semana terminada em 2 de janeiro, nas Américas a redução dos óbitos foi de 18%, enquanto os casos cresceram 100%.

Na África do Sul, onde a nova cepa foi descoberta, depois de um pico de casos em dezembro, com a média móvel dos últimos sete dias chegando a 22.852, os números despencaram. Até o último dia 5, a média móvel contabilizava 8.734 casos, uma queda de 162%. E as mortes também despencaram em patamares da ordem de 80.

O que traz esperança de que essa nova onda passe logo.

Novas casos na África do Sul – média móvel últimos sete dias


Fonte: Worldemeter.

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Na China, onde um novo surto pandêmico surgiu no mês passado, levando as autoridades a isolar a província de Xian, com mais de 10 milhões de habitantes, as informações são de que a situação está sob controle com a testagem em massa da população. O surto parece ter sido controlado.

Xian guarda um tesouro da era imperial chinesa. Em 1974, Yang Zhifa, agricultor chinês, estava cavando a terra para abrir um poço artesiano, quando sua enxada desenterrou a cabeça de uma estátua. Cavando mais fundo, apareceu o ombro e outros pedaços.  Descobriu-se, com escavações posteriores, sob a supervisão de técnicos, uma legião de estátuas feitas de terracota. Conhecidos como guerreiros de terracota, foram esculpidos a mando do primeiro imperador da China, Quin, que unificou o país e morreu em 210 antes de Cristo. Construiu um exército de soldados, generais, cavalos, carruagens, todos em tamanho natural. E todos com feições diferentes. Não há nenhum guerreiro igual.

Acredita-se que o imperador construiu o exército para que o protegesse após a morte. Até agora, mais de 8 mil estátuas foram descobertas. Apenas uma estátua foi encontrada intacta. As previsões são de que o exército seja bem maior. A tumba de Quin ainda não foi escavada.

Em 2015, fui a Xian. Foi uma experiência que jamais esquecerei. Vira e mexe, aquela legião de guerreiros enfileirados assalta a minha mente. Trouxe cinco réplicas de guerreiros que ficam me olhando fixamente quando me sento na sala para ouvir música, ler. E o calafrio que senti ao entrar onde estão os guerreiros em Xian, muitas vezes volta.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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