Em Foco
Pandemia, parasitas, vermes e a ivermectina
Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro
Ao longo do pior momento da pandemia, a insistência no uso de medicamentos não comprovados científicamente contra a Covid-19, o que foi defendido pelo governo, se contrapunha a estudos publicados que relatavam a ineficiência desses medicamentos e seus efeitos colaterais. Também no exterior, movimentos a favor desses medicamentos também pipocaram, dando sustentação para os debates internos.
A ivermectina, que se tornou uma bandeira dos defensores de tratamento precoce contra o vírus, depois mudou de nome para tratamento preventino, – o Brasil produziu uma enorme quantidade de comprimidos do medicamento indicado para o combate a vermes e parasitas, além de ter recebido doações dos Estados Unidos –, foi palco de acalorados debates, especialmente na CPI da Covid.
Recentemente, a Prevent Senior, que foi acusada de se tornar um centro de testes de medicamentos sem comprovação científica – a empresa enviava kits que incluam a ivermectina a seus associados com suspeita de Covid, no que classificava como tratamento precoce –, firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público.
No comunicado que enviou a seus associdos e à comunidade no último dia 29, a empresa afirma que não existe qualquer pesquisa científica que comprove a eficácia dos medicamentos do “kit Covid”.
Depois de passarmos por um longo período de angústia, apreensão, medo, com a escalada da pandemia por aqui e a falta de vacinas, avançamos muito na imunização. Já vacinamos quase 77% da população com uma dose, mais de 66% com duas e 8% com a dose de reforço. Os dados mostram a queda acentuada de casos e mortes, embora o número de internações por síndromes respiratórias tenha voltado a crescer: de 6 mil no final de outubro para 6,6 mil na última semana de novembro, alta de 10%. Os dados, do Boletim InfoGripe, da Fiocruz, sinalizam algo preocupante. O aumento se deu em praticamente todas as faixas de idade, com crescimento de 50% entre 10 e 19 anos; 47% dos 20 aos 29 e de 30% na faixa etária dos 30 aos 59 anos. Nas pessoas acima de 70 anos, houve uma ligeira queda. Os estados onde tem se registrado as maiores altas são Ceará, Pará e Rio de Janeiro. Este, às vésperas das festas de Réveillón que, até agora, não foram canceladas. E perto do Carnaval.
As explicações: relaxamento da população com o aumento da vacinação, que baixou a guarda e passou a sair, se aglomerar. Especialmente dos mais jovens, exaustos pela longa quarentena. Hoje, ao sair nas ruas, é comum ver bares apinhados de jovens, festas por todo lado.
Aparentemente, essa alta nada tem a ver com a nova variante que acaba de surgir, a Ômicron, no momento em que uma nova onda começa a varrer a Europa, embicando para cima o número de novos casos no mundo, com as mortes em patamares ainda estabilizados.
Média movel de casos e mortes no mundo


Fonte: Worldometer.
O surgimento da nova variante, que já se espalhou por todo canto, era uma questão de tempo, pois os cientistas têm batido na mesma tecla já há bastante tempo: enquanto não se vacinar parcela considerável da população, o vírus vai continuar se mutando e novas ondas vão nos atingir.
Não se vacinou mais do que 55% da população mundial. E nos países de renda baixa, pouco mais de 6% puderam receber a vacina. A maior porcentagem de vacinados é na Ásia, com mais de 67% da população. Os países africanos só vacinaram pouco mais de 3% de sua população.
Além disso, continua haver uma forte resistência em parcela significativa da população de vários países em se vacinar. Na Alemanha, por exemplo, onde a situação essa semana se tornou crítica, com caos no sistema de saúde, com 69% dos alemães imunizados com pelo menos uma dose, 23,18% da população diz que não vai se vacinar e 5,48% tem dúvidas se deve ou não se imunizar, conforme mostra o gráfico abaixo, em alguns países selecionados. A chegada do inverno é outro fator que contribui para uma maior disseminação do vírus nos países europeus.
Vacinação no mundo
(% em relação a população que recebeu pelo menos uma dose da vacina)

Fonte: Our in Data.
Pouco se sabe sobre a nova variante. Se é mais letal, se consegue driblar a vacina, quais os seus efeitos e sintomas. Por ora, o que se diz é que poderia ser bem mais contagiosa, que tem muitas mais mutações. Mas o botão de pânico foi ligado, mesmo com tantas incertezas, com a Organização Mundial de Saúde (OMS) classificando a nova variante como “extremamente preocupante”.
Mais um capítulo nesses quase dois anos de pandemia.
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Embora ja tenhamos assegurado vacinas, que continua, junto com uso de máscaras, álcool gel, fuga de aglomerações, os melhores remédios para se proteger, a ivermectina voltou à cena, essa semana, em um interessante artigo publicado na The Economist.
Com um viés do refinado humor inglês, diz a publicação: “Você não é um cavalo. Você não é uma vaca. Sério, pessoal. Pare com isso. Como indica a mensagem da Food and Drug Administration (FDA), a ivermectina – uma droga usada para tratar parasitas, inclusive em cavalos e vacas – nunca se tornou parte do padrão de tratamento para Covid-19”, diz a conceituada publicação inglesa.
Mas como aqui no Brasil muitos achavam, e ainda acham, que deveria ser. Segundo a revista, os médicos norte-americanos prescreveram mais de 100 mil comprimidos da droga por semana, trinta vezes mais do que foi administrado em 2019, antes da pandemia.
Por aqui não há números seguros sobre a produção e a administração de ivermectina. Só se sabe que as vendas dispararam nas farmácias, engordando os lucros do fabricante.
Os defensores da ivermectica continuam afirmando que há sólidas comprovações científicas sobre a eficácia do medicamento. Segundo a The Economist, um site, sem citar qual, lista 67 artigos sobre o assunto. E indaga se todos poderiam estar errados. E traz uma luz sobre essa questão. Ou, pelo menos, uma hipótese levantada por dois médicos norte-americanos.
O dermatologista Avi Bitterman, ao reler os estudos que indicavam a ação benéfica da ivermectina sobre o vírus da Covid-19, percebeu que havia uma forte relação em regiões com altas taxas de infecção por estrongiloides, vermes parasitas comuns em países da África, da Ásia e da América Latina, que podem causar diarreia, fadiga e perda de peso.
Segundo a reportagem da The Economist, esses vermes parasitas representam uma ameaça mais grave apenas se seus números crescerem fora de controle. Essa hiper infecção, muitas vezes fatal, torna-se muito mais provável se um paciente estiver recebendo corticosteroides, que suprimem o sistema imunológico, levando as fêmeas vermes a ficarem mais férteis, se reproduzindo de forma acelerada. A dexametasona, um corticosteroide, é agora um tratamento padrão para a Covid-19 grave.
Com base em estudos e observações de David Boulware, professor de Medicina da Universidade de Minnesota sobre o assunto, Bitterman concluiu que os estrongiloides, podem ser responsáveis pelos resultados conflitantes dos estudos sobre a eficácia da ivermectina como um tratamento eficaz. Em testes feitos onde os parasitas são comuns, muitas pessoas podem ter infecções de Covid e de vermes. A Covid-19 pode ter enfraquecido o corpo de suas defesas contra os vermes, já que o tratamento da doença com corticosteroides deixaria campo para os parasitas se proliferarem, relata a The Economist.
“A ivermectina não trata a doença”, escreveu Bitterman. Trata os parasitas que matam as pessoas quando recebem esteroides para combater o coronavírus.
É mais um capítulo nessa longa discussão sobre um medicamento que, segundo as principais evidências, não serve para tratar a Covid-19. Embora haja muita gente que ainda ache o contrário.
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Com mais gente na rua, com a mobilidade voltando a níveis pré-pandemia, o setor de serviços, que tem um peso da ordem de 70% no PIB, cresceu 1,1%, no terceiro trimestre do ano, mas foi praticamente anulado pelo tombo de 8% na agropecuária e recuo de 9,8% nas exportações de bens e serviços, levando a uma retração de 0,1% do PIB. Foi um resultado ruim, que quase todo mundo esperava – a média do mercado apostava que o PIB ficaria estagnado na casa do 0%. Que fica pior se levarmos em conta que o IBGE revisou seus dados do segundo trimestre: a atividade econômica teve um tombo bem maior do que previsto anteriormente: de -0,1% para -0,4%. Mas esse pálido desempenho não chega a configurar uma recessão. Mais correto dizer que estamos numa estagnação.
Com inflação em alta, juros subindo, cenário externo menos favorável e fortes fragilidades no mercado de trabalho, além das incertezas com as próximas eleições presidenciais, e com os sinais de que este último trimestre do ano não deve ser uma grande maravilha, o quadro pode mudar para pior. Os analistas já dão como certo uma estagnação em 2022. E muitos sinalizam para uma recessão.
Mas há alguns fatos que podem minimizar esse quadro. É possível que haja um arrefecimento inflacionário, com um recuo nos preços dos alimentos por safras melhores, o fim da crise hídrica com o fim da estiagem, com redução nos preços da energia – a nova bandeira tarifária vigora até maio do ano que vem –, a aprovação da PEC dos Precatórios que, bem ou mal, tranquiliza o mercado. Mas tudo muito incerto.
Os dados deste último trimestre do ano serão fundamentais para uma análise mais segura do que vem pela frente. A ver.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.