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05 Nov 2021

Em Foco

A pandemia cede, mas a economia não decola

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

A pandemia da Covid-19 entrou num processo de maior controle com o avanço da vacinação, melhor conhecimento da doença, formas de enfrentá-la. No Brasil, perto de 55% da população já está totalmente imunizada, 75% receberam pelo menos uma dose ou dose única e 4,3% já foram imunizados com a terceira dose. É um avanço extraordinário, já que há uns três meses ainda patinávamos na vacinação, com a falta de imunizantes, com o descontrole na logística, com a politização exacerbada da vacina.

A vida parece estar voltando, lentamente, ao normal, embora alguns alertas surjam, como o aumento de contágios no leste europeu, novos casos na China, onde o governo tem tolerância zero com o vírus, isolando províncias com mais de 10 milhões de habitantes quando aparecem novos casos. O Imperial College, de Londres, anunciou essa semana que a taxa de transmissão do vírus no Brasil voltou a subir para 1,04, depois de se manter por algum tempo abaixo da linha de 1, o que era um sinal de controle da pandemia.

Se sairmos à rua, podemos notar que as coisas voltaram ao normal. Lojas cheias, bares lotados, muita gente zanzando, ruas entupidas de carros, ônibus. Felizmente, a maioria ainda usando máscaras. Apesar dessa volta a um novo normal, a economia não decola. No auge da pandemia, em meados do primeiro semestre deste ano, a alegação é que o isolamento e as restrições sanitárias travavam a economia, aumentando o desemprego. É evidente que a pandemia teve seu papel devastador, não só sobre a economia, mas sobre a educação, a cultura e uma infinidade de outras atividades. Muitas empresas fecharam e não vão reabrir. Muitos empregos foram perdidos e as pessoas vão demorar muito para conseguir uma ocupação. Os pesquisadores do Boletim Macro IBRE estimam que, se as condições permanecerem como estão, só daqui três ou quatro anos é que a taxa de desemprego começará a ter queda significativa, já que a economia deveria crescer por volta de 3,5% ao ano para que o desemprego caísse mais rapidamente. O que parece bastante improvável dado o andar da carruagem.

Taxa de desemprego


Fonte: IBGE. Previsão Boletim Macro FGV IBRE.

Com a vida voltando quase ao normal, a economia não decola. Novos ingredientes vieram se somar, formando o que se costuma dizer de tempestade perfeita. A inflação começou a disparar, corroendo o já combalido poder de compra dos mais vulneráveis. Os juros embicaram para cima, com a taxa Selic já batendo nos 7,75%, depois de permanecer meio adormecida em 2% no final e começo deste ano. Uma crise hídrica estourou. Houve quebra de safras, os preços dos combustíveis não param de subir. E há, em função das próximas eleições, forte pressão para aumento de gastos, o que leva a furar o teto dos gastos, instrumento criado no governo Temer como forma de tranquilizar investidores quanto a responsabilidade do governo em relação a questão fiscal.

Juntando tudo isso, as previsões para o ano que vem não são nada animadoras. Embora o governo mantenha sua previsão de crescimento do PIB em 2,5% – número que poderá ser revisado –, o consenso no mercado é que a atividade econômica não cresça mais do que 1,2%, na média. Já há quem estime crescimento negativo. Mês que vem, o IBGE divulga o PIB do terceiro trimestre. E deve haver revisão, possivelmente, para baixo dos números.

É um enrosco, como tenho escrito nesse espaço, de equação complexa que, sem sombra de dúvidas, ficará para o próximo governo resolver.

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Se podemos comemorar que saímos do fundo do poço em níveis de vacinação para uma situação bastante confortável, cujo mérito todo é do Sistema Único de Saúde (SUS), com uma enorme capacidade de vacinar milhões de brasileiros diariamente – na última quarta-feira, mais de 1,6 milhão de vacinas foram aplicadas no Brasil –, é preocupante a situação dos países mais pobres.

Em artigo a ser publicado na próxima edição da revista Conjuntura Econômica, Lia Valls, pesquisadora-associada do FGV IBRE, relata que “em junho de 2021, foi criada uma força tarefa dos líderes multilaterais para a COVID-19 com a participação do Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Mundial do Comércio (OMC). O objetivo era assegurar que pelo menos 40% da população de todos os países tivesse sido vacinada até final de 2021. Até setembro, países de renda alta haviam vacinado 54,8% da sua população, países de renda média alta, 49,5%, países de renda média baixa, 10,3% e países de baixa renda, 0,6%”.

O que continua sendo um grande risco para o planeta, já que a pandemia só será totalmente controlada quando a maioria da população do mundo estar imunizada.

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Os estragos que o coronavírus trouxe para o mundo são inestimáveis. Além de derrubar a atividade econômica, aumentando a desigualdade entre ricos e pobres que já era enorme, atingiu em cheio a educação.

Estudo divulgado pela Unicef aponta que 168 milhões de crianças foram afetadas pelo fechamento das escolas, das quais dois terços estavam na América Latina e no Caribe, afetando quase 98 milhões de crianças em idade escolar. Catorze países, em todo o mundo, ficaram com as escolas praticamente fechadas desde março do ano passado.

Os estragos para a formação de futuras gerações serão enormes. No Brasil, onde a produtividade engatinha em níveis medíocres, como mostra o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, não haverá crescimento sustentável sem que a produtividade aumente. E isso passa pela educação que vinha melhorando, com mais crianças e adolescentes na escola. A pandemia freou esse movimento.

Agora, com as escolas voltando a ter aulas em vários estados, a corrida para recuperar o tempo perdido será grande.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.