Em Foco
As promessas e obstáculos para Trump
Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro
Há 20 anos que um candidato à presidência dos Estados Unidos não vencia no voto popular e no número de delegados. Não sei ao certo, mas as pesquisas erraram feio, como nunca havia ocorrido. Será também a primeira vez desde 1897 que um presidente terá dois mandatos não consecutivos, sendo o presidente mais velho da história norte-americana (hoje está com 78 anos de idade). O resultado, que ainda não foi totalmente concluído, mostra uma “lavada” dos Republicanos sobre os Democratas. Além de elegerem Donald Trump, que tingiu de vermelho quase todo os Estados Unidos – venceu, inclusive, em todos os estados pêndulo, aqueles que decidem a eleição –, terão maioria no Senado e na Câmara. O que levou a essa vitória arrasadora e quais as consequências disso? Trump terá condições de cumprir o que prometeu em sua campanha?
Vamos por partes, lembrando Jack, o Estripador, que por volta de 1886 iniciou uma série de assassinatos brutais de prostitutas na periferia de Londres. O assassino ou assassinos nunca foram encontrados.
Em meados do século XIX, a Inglaterra recebeu um grande fluxo de imigrantes irlandeses que superpovoaram as grandes cidades inglesas, incluindo East End. A partir de 1882, refugiados judeus que escapavam de ataques em massa na Rússia Czarista e de outras áreas da Europa Oriental imigraram para a mesma região. A periferia de Whitechapel rapidamente se tornou hiper-habitada. As condições de moradia e trabalho pioraram, e surgiu um número significativo de pessoas pertencentes às classes menos favorecidas. Roubos, violência e alcoólatras eram comuns na região, e a pobreza endêmica levou muitas mulheres à prostituição. Em outubro de 1888, a Polícia Metropolitana de Londres estimou a existência de 62 bordéis e 1.200 mulheres trabalhando como prostitutas em Whitechapel. Os problemas econômicos eram acompanhados por várias tensões sociais. Entre 1886 e 1889, manifestações frequentes levaram a polícia reprimir as multidões e prender manifestantes, culminando no fatídico Domingo Sangrento. Antissemitismo, crimes, nativismo, racismo, distúrbios sociais e depravação severa reforçaram a opinião pública que Whitechapel era um antro de imoralidade. Em 1888, tais opiniões ganharam mais força quando uma série de assassinatos grotescos atribuídos a "Jack, o Estripador" receberam uma cobertura sem precedentes da imprensa. Fonte Wikipedia.
Uma das plataformas – chave que levou Trump à vitória – foi a imigração. Com um discurso em que promete a ampliação do muro que separa os Estados Unidos com a fronteira do México e a deportação de cerca de 11 milhões de imigrantes considerados ilegais, captou grande parcela da população que se sente prejudicada pelo aumento dos imigrantes no país. No ano passado, algumas estimativas apontavam que cerca de 2 milhões de migrantes foram detidos na fronteira, um recorde histórico. O que fortaleceu o discurso anti-imigração e o fracasso do governo Biden de encontrar uma solução para tão complexo problema.
Há o lado econômico dessa questão – a perda de empregos dos americanos pelos “cucarachos”, como são rotulados. Mas isso deve ser melhor estudado. Há milhares de trabalhos que só os imigrantes fazem, como os mais braçais. O americano comum não se sujeita a esse tipo de coisa.
Mas, acredito, que a grande força do discurso de Trump é a chamada perda de identidade do povo norte-americano com o aumento da imigração, a mistura inter-racial, através de relacionamentos, casamentos, nascimento de crianças. É como se quisesse preservar uma raça autenticamente americana. Guardadas as devidas proporções, a história recente tem macabro exemplo disso.
Fazer o que ele prometeu na campanha não é tão trivial assim. E arrisco a dizer, quase impossível, pois pode ter efeitos desastrosos para a economia norte-americana: expulsar 11 milhões de ilegais, invadir fábricas e comércio para deportar. E o custo disso seria altíssimo. Há muito tempo, assisti um filme que, infelizmente, não lembro o nome, de uma decisão de retirar todos os mexicanos de uma região dos Estados Unidos. O resultado foi o colapso da economia, pois não havia mão-de-obra para serviços básicos.
Outro ponto que foi exaustivamente usado na campanha foi a resiliência dos preços que pesam no bolso dos americanos. Embora a inflação nos Estados Unidos esteja declinando suavemente, os núcleos continuam resistentes. “A natureza do processo inflacionário dado pelos núcleos e pela inflação de serviços é onde mora o perigo. O núcleo de exclusão de inflação em setembro fechou em 0,31% ou 3,8% anualizado. Ou seja, as duas últimas leituras, agosto e setembro, foram mais salgadas. Preocupa, também, o comportamento do chamado supernúcleo de serviços, dado pelos serviços que excluem aluguéis. Este índice, que em setembro de 2023 rodou a 3,55% em 12 meses, fechou setembro último a 4,59%”, comenta Samuel Pessôa, pesquisador associado do FGV IBRE no Boletim Macro de outubro (acesse aqui o Boletim).
A proposta de Trump é domar a inflação, reduzindo o peso da alta dos preços para o bolso dos norte-americanos. Mas quais os obstáculos para isso?
Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro FGV IBRE, aponta algumas dificuldades que o novo presidente terá para cumprir a proposta de uma perspectiva de vida melhor para os americanos – aumento de salário, maior crescimento econômico, inflação menor, redução da imigração, entre outros.
Começando pela imigração. Com menos mão-de-obra disponível haverá pressão sobre o mercado de trabalho. Com isso, os salários poderão se valorizar, por um lado, mas como nada vem de graça, haverá pressão sobre os preços.
Trump também promete taxar produtos para valorizar a indústria local. Especialmente produtos da China. Isso pode gerar uma alta interna de preços, já que os custos de produção local podem ser maiores do que o de produtos que vêm de outros países. No caso da China, por exemplo, ela expandiu suas fronteiras e produz em várias partes do mundo. Muitos produtos, com preços mais baratos, que saem do México e vão para os Estados Unidos, são de produção chinesa,que vem investindo pesado em várias regiões do planeta.
Outro ponto que ainda não está claro é se a taxação será ampla, com percentuais diferenciados, dependendo do país ou região. Há nesse caso uma questão geopolítica que merece atenção, já que a taxação pode mudar o fluxo de exportações de muitos países para a China, por exemplo. Trump já havia mencionado que os produtos chineses serão taxados em 60%. E implantaria uma tarifa universal de 10% a 20% sobre todas as importações norte-americanas.
Octaviano Canuto, ex-vice presidente do Banco Mundial, em artigo no InvestNews do dia 6 de novembro, lembra que as tarifas impostas por Trump contra a China no seu primeiro mandato “acabaram impactando negativamente o emprego manufatureiro nos Estados Unidos, para não falar da agricultura perdida para o Brasil no mercado chinês”.
Há também a questão fiscal norte-americana, que não anda bem das pernas. Direcionar recursos para reduzir a dependência externa, incentivar transferências para a indústria local, ampliar os gastos para combater a imigração, entre outros, vai pressionar ainda mais as contas públicas. E isso acaba gerando inflação futura. O novo presidente também prometeu cortar, ou reduzir, impostos como o Imposto de Renda Corporativo, o Imposto de Renda Individual e o de Herança.
Analistas projetam que as propostas de Trump vão aumentar a dívida federal. Canuto cita em seu artigo que “o Comitê para um Orçamento Responsável, apartidário, estima que os planos de Trump podem adicionar US$ 7,5 bilhões à conta”.
Outro ponto que gostaria de mencionar é como homens e mulheres votaram. O discurso de que a igualdade de gênero seria uma ameaça, com os homens perdendo terreno no mercado de trabalho, e o papel da mulher na sociedade, também foram determinantes para a vitória de Trump. Números ainda não definitivos mostram que 54% do eleitorado masculino votou em Trump e 44% em Kamala. Nas mulheres isso se inverte: 54% votaram nela e 44% em Trump.
A vitória de Donald Trump vai acirrar a briga geopolítica com a China. Uma das grandes disputas é quem vai controlar o mercado de chips, onde Taiwan tem o controle produzindo cerca de 90% do que é consumido no mundo. Também pode haver nova configuração no conflito no Oriente Médio, com maior apoio do novo governo à Israel e redução, ou paralis ação, da ajuda à Ucrânia. Não é novidade para ninguém que Trump nutre simpatia por Putin.
São muitas as indagações que estão sendo feitas. E uma delas é como fica a questão do meio ambiente e da transição energética, especialmente para o Brasil, que tem apostado forte em energias alternativas e no hidrogênio verde. A reunião do G20 que acontece em meados deste mês no Rio de Janeiro, que deve contar com a presença de Joe Biden, deverá tratar desse tema.
Os republicanos, sob a liderança do novo presidente, tem foco em combustíveis fósseis com a promessa de interromper projetos eólicos, cortar créditos fiscais para reduzir o custo de energia renovável e turbinar o ritmo de descarbonização. É um retrocesso em relação a “onda” pela busca de energia mais limpas que toma conta de boa parte do planeta.
O ano que vem promete.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.