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Atraso secular

Por Claudio Conceição, de Brasília

Depois de uma acirrada disputa no primeiro turno, por 11,4 pontos percentuais, com 55,7% dos votos, Javier Milei, que se autodenomina anarcocapitalista, é o novo presidente da Argentina, derrotando Sergio Massa. Com propostas polêmicas, muitas das quais não serão possíveis de ser implementadas, Milei, que durante a campanha afirmava não se aliar aos velhos políticos – o mesmo discurso usado pelo ex-presidente Bolsonaro –, logo de eleito começou a mudar de tom. Como no Brasil, vai precisar fazer alianças para poder governar, já que não tem maioria na Câmara e no Senado.

Na edição de novembro do Boletim Macro FGV IBRE, Samuel Pessôa, pesquisador associado do FGV IBRE, faz uma análise do que pode ocorrer na Argentina com a eleição de Milei, que toma posse no dia 10 de dezembro. 

Para Pessôa, “a Argentina é um caso extremado do conflito distributivo que temos no Brasil. Nas sociedades modernas, o conflito distributivo não é vivenciado no chão de fábrica. O grosso do conflito distributivo é travado na discussão e execução do orçamento público. Quem paga os impostos e quais serão as políticas públicas priorizadas”.

Alguns pontos que Pessôa destaca em sua rica análise:

• A Argentina ainda não conseguiu encontrar uma forma civilizada de gerir seu conflito distributivo. Ele acaba sendo solucionado por meio de inflação. Segundo os dados oficiais, a inflação nos últimos 12 meses terminados em outubro foi de 142%. No entanto, a cotação do câmbio paralelo, conhecido na Argentina por dólar blue, desvalorizou-se 198%.

Evolução do câmbio paralelo


Fonte: Investing.

A figura acima apresenta a evolução do câmbio paralelo de 16 de novembro de 2022 até 16 de novembro de 2023. Os dados são médias de cinco dias e cada dado é a média entre a cotação máxima e mínima do dia.

• Milei terá que tratar no curto prazo dos benefícios que Massa, ministro da Economia derrotado nas eleições, concedeu em uma tentativa desesperada de conseguir vencer as eleições. Segundo coluna de Carlos Góes no jornal O Globo de 4 de novembro último, Massa concedeu isenção de imposto de renda para todos os que ganham acima de R$ 10.700 por mês (valores calculados com o dólar blue), o que inclui 99% da população! Concedeu empréstimos a trabalhadores aposentados de até R$5.400, com taxas subsidiadas. Segundo os cálculos de Góes, a conta desses dois programas é da ordem de 1,5% do PIB. Esses são dois exemplos de subsídios do Estado a indivíduos que terão que ser alterados para o enfrentamento do problema inflacionário.

• Segundo os dados do FMI, o déficit primário será em 2023 de 1,6% do PIB. Parece que os números estão muito subestimados em função de todo o esforço de Massa para ganhar a eleição. De qualquer forma, Milei tem um dificílimo legado para gerir.

• Milei aposta na dolarização da economia. Ninguém sabe como fará. Provavelmente, a Argentina tem hoje reservas negativas. Tem uma dívida de mais de US$ 40 bilhões com o FMI. O FMI ajudaria mais uma vez a Argentina, liberando mais recursos para financiar a dolarização? Não parece ser o caso. Assim, Milei não conseguirá fugir do problema. Terá que produzir um fortíssimo ajuste fiscal logo. Quando tiver uma posição superavitária nas contas públicas, poderá caminhar para a fixação do câmbio em alguma moeda, pode ser o dólar americano ou pode ser o real, e eliminar a inércia inflacionária. Pode fazer essa operação por meio de uma reforma monetária e criar uma nova moeda. Após a eliminação da inércia inflacionária e a reconstrução de uma posição fiscal superavitária – lembre-se de que planos heterodoxos em geral pioram a situação fiscal –, Milei pode encaminhar uma flutuação do câmbio e a construção do regime de metas de inflação. Essencialmente, esse foi o roteiro seguido por nós entre 1993 e 1999.

• Esse é o roteiro que Mieli terá que seguir. Seguirá? Ninguém sabe. Como também não se sabe se ele terminará o mandato. Sabemos que há elevadíssima probabilidade de que o próximo presidente seja peronista e que a Argentina continue na sua trajetória de decadência secular.

 

Veja a íntegra do artigo no Boletim Macro FGV IBRE de novembro.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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