Em Foco

A gangorra do PIB

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

Estimar quanto o PIB vai subir ou cair tem se tornado cada vez mais complexo. Tenho escrito nesse espaço, com base no que acham os economistas que se debruçam sobre esse tema, a gangorra em que se transformou a atividade econômica, em um sobe e desce a cada trimestre. Hoje o IBGE divulgou que a economia brasileira cresceu 0,9% no segundo trimestre, revisando para 1,8% a expansão do primeiro trimestre (antes era 1,9%). O resultado pegou quase todo mundo de surpresa, pois a média de mercado estava na casa dos 0,4%.

O vai-e-vem do PIB


Fonte: IBGE.

Mas o que levou a esse crescimento, colocando a economia do país a operar em um nível 7,4% acima do patamar pré-pandemia do quarto trimestre de 2019, atingindo o ponto mais alto da série histórica iniciada em 1995?

Dois setores: a indústria, que avançou 0,9%, ainda que esteja na série histórica com resultados ainda ruins, e serviços, que responde por quase 70% do PIB, que avançou 0,6%. A agropecuária que havia bombado no primeiro trimestre, quando havia se expandido 21%, puxando o PIB para cima, recuou 0,9%. Mesmo assim, teve um desempenho melhor que o esperado. Por sinal, a agropecuária tem aumentado sua participação no PIB ao longos dos anos: hoje, responde por algo ao redor de 8%, depois de representar entre 5 a 6%.

Aqui é bom ressaltar o avanço dos serviços e as dificuldades que os economistas encontram para calcular dois componentes que respondem por quase 50% do segmento: as intermediações financeiras, em maior grau, onde se incluem seguros, como os de vida, de automóveis, de patrimônio, risco financeiro, contabilidade, serviços jurídicos; e os outros serviços. No segundo trimestre as intermediações financeiras cresceram 1,3%, com expansão de 6,9% na comparação anual. Outros serviços avançaram 1,3%, em linha com o que projetava o Boletim Macro FGV IBRE.

O que tem puxado o PIB, na verdade, é o consumo das famílias que cresce há três anos. No segundo trimestre avançou 0,9%, bem acima do que se previa. A melhora do mercado de trabalho, embora ainda com muita fragilidade, como tem mostrado o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, tem dado maior vigor ao consumo das famílias, aliado aos reajustes nos programas de transferência de renda, notadamente no Bolsa Família. Mas há ainda obstáculos, como o grande endividamento das famílias, apesar dos recém lançados programas de renegociação de dívidas, e os juros, que embora comecem a ceder, ainda estão em patamares bastante elevados. Ou seja: há dúvidas se o consumo das famílias vai se manter em patamares elevados.

O consumo do governo também surpreendeu os analistas, com avanço de 0,7%. Na outra ponta, no entanto, os investimentos continuam muito ruins: só tiveram avanço de 0,1% no segundo trimestre, recuando 2,6% em relação ao segundo trimestre de 2022. Com isso, a taxa de investimento fechou o segundo trimestre em 17,2% (foi de 18,2% no mesmo período do ano passado), muito abaixo ainda das necessidades para que a economia retome um crescimento mais sustentável.

Aguardemos os próximos capítulos.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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