Em Foco

Um novo olhar sobre o crescimento brasileiro

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

Um precioso trabalho de revisão do crescimento brasileiro do período de 1900 a 1980 mostra que os dados que os economistas trabalham como base para suas análises contêm incorreções, mudando o que se entendia sobre o crescimento da economia brasileira.

O trabalho “Reestimating Brazil’s GDP growth from 1900 to 1980”, de Edmar Bacha, Guilherme Tombolo e Flávio Versiani, foi aceito para publicação e aparecerá em um dos próximos fascículos da Revista Brasileira de Economia, e revisa as taxas de crescimento do País no período.

Segundo o Ponto de Vista, de Samuel Pessoa, pesquisador associado do FGV IBRE, publicado na edição de agosto da revista Conjuntura Econômica, de 1947 até 1980 uma parte da economia brasileira não entrava no cálculo do PIB: eram os serviços governamentais e financeiros e os aluguéis, o que representava algo ao redor de 30% do PIB no período. Com isso, a taxa de crescimento do PIB que não estava incluído nas Contas Nacionais – 3,1% ao ano em média  era menor do que a taxa de crescimento dos componentes do PIB que eram incluídos nas Contas, como a agropecuária, indústria, comércio e transportes, levando a uma superestimativa do crescimento brasileiro no período. Os autores do trabalho também encontraram problemas de dados semelhantes para o período anterior, de 1900 a 1947.

Alguns pontos que Samuel destaca em seu artigo da Conjuntura Econômica:

• Segundo o resumo do trabalho, das correções às séries “resultam cortes que reduzem as taxas de crescimento anual do PIB de 7,4% para 6,2% no período de 1947-1980 e de 4,4% para 4,0% no período de 1900-1947. Para todo o período de 1900-1980, os cortes que sugerimos reduzem a taxa de crescimento anual do PIB de 5,7% para 4,9%”.

• A partir de 1980, passaram a ser incluídos todos os setores da economia no cálculo do PIB. Consequentemente, a superestimativa do crescimento entre 1900 e 1980 redundou em uma economia subestimada em 1900.

• Há clara evidência de que as estatísticas conhecidas subestimam o nível da economia brasileira em 1900. Segundo a última atualização da base de dados de Maddison1, a renda per capita do Brasil em 1900 era 11% da renda per capita americana. Para a mesma base de dados, a renda per capita italiana era 40% da americana, e a da Espanha era 33%. Estranho haver o fortíssimo fluxo imigratório da Itália e da Espanha para um país quatro ou três vezes mais pobre. Por outro lado, em 1900, sempre segundo a base de dados de Maddison, o México tinha uma renda que era 23% da dos EUA, a Bolívia 18%, e a América Latina, excluindo o Brasil, era de 26%. Segundo a mesma base de dados de Maddison, a renda per capita brasileira era, em 1900, um pouco mais baixa do que a indiana, que representava 12% do PIB per capita americano (contra 11% da nossa). Todos os dados estão em dólares de 2011, controlando-se por diferenças sistemáticas de custo de vida.

• Os autores propuseram, para diversos períodos, ajustes na taxa de crescimento anual médio, sempre para menor. De 0,2 ponto percentual (pp) para o período entre 1900 e 1919; de 0,6pp de 1920 até 1947; de 1pp de 1948 até 1966; e de 1,5pp de 1967 até 1980. Se nós, a partir de 1980, refizermos a trajetória da economia brasileira até 1900 ajustando as taxas por esses fatores, obtém-se que a renda per capita do Brasil em 1900 era 80% maior do que se imagina. Aplicando esse fator na série da economia brasileira da base de Maddison, chegamos a que, em 1900, a renda do Brasil era 20% da renda americana, um número não muito inferior à média dos países latino-americanos.

• A maior consequência da revisão dos autores é mudar muito o desempenho do Brasil no período do nacional-desenvolvimentismo, entre 1930 e 1980, quando o país lançou mão de políticas intervencionistas para estimular o crescimento. Com os dados atualmente conhecidos, nosso desempenho é muito bom. Segundo a base de dados de Maddison, somente o Japão e a Romênia apresentaram crescimento do PIB per capita superior ao brasileiro nas cinco décadas desenvolvimentistas. O PIB per capita brasileiro cresceu ao ritmo de 3,7% ao ano, ante 4,3% da Romênia e 3,8% do Japão. Todos os demais 53 países tiveram um desempenho pior do que o Brasil.

• O Ponto de Vista, com alguma liberalidade, reconstrói a série do Brasil de Maddison do século XX. Aplicou-se, para os dados do Brasil, os mesmos fatores de correção que os autores calcularam a partir dos dados usuais (dados do Ipeadata).2 Pode haver alguma diferença em função do deflator de uma e de outra série. Sob essa hipótese de trabalho, e com os dados corrigidos, o PIB per capita cresceu entre 1930 e 1980 ao ritmo de 2,7% ao ano. Tivemos a 17ª maior taxa de crescimento do produto per capita entre os 56 países em que há dados na série de Maddison para o período. O desempenho médio entre os países para o período foi de 2,2% ao ano. Nosso desempenho foi 0,5pp por ano acima da média.

• O fato de o nível da economia brasileira em 1900 ser quase que o dobro do que se imaginava indica que o desempenho brasileiro no século XIX deve ter sido melhor que se imaginava. Os mesmos três autores têm um trabalho para discussão em que revisam a experiência brasileira de 1820 até 1900.3

• Para o século XIX, a correção é da inflação do PIB, também conhecido por deflator implícito do PIB. Essencialmente, as estatísticas empregadas consideram uma inflação para o século XIX maior do que deveria. Para a primeira metade do século XIX, os autores consideram também uma nova série para as exportações brasileiras.

• Segundo a base de dados de Maddison, o crescimento brasileiro per capita entre 1820 e 1900 foi de 0,03% ao ano. Com a proposta de revisão, crescemos ao ritmo de 0,7% ao ano, o mesmo que a América Latina excluindo o Brasil. Os números fazem muito mais sentido.

 

1Maddison Project Database 2020.

2Os dados de PIB per capita real (a R$ de 2010) baixados do site de séries históricas brasileiras do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipeadata.

3“Secular stagnation? A new view on Brazil’s growth in the 19th century”.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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