Edgar, superando obstáculos

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

Hoje não vou falar de economia, política. Mas de uma coisa real, que convivi neste final de semana. Vou falar do senhor Edgar, um desconhecido entre milhares de pessoas meio excluídas, morando em lugares onde o acesso é restrito e, muitas vezes, perigoso.

Domingo, 21 último, teve Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro. Depois de um tempo horrível no sábado, com muita chuva e frio, o dia começou com um céu azul. Por volta das 11h, resolvemos dar uma caminhada pelo Aterro. Àquela hora, com certeza, a Meia Maratona já estaria encerrada. Chegando lá, várias motos, ambulâncias e veículos de apoio, todos buzinando, com sirenes ligadas, acompanhavam um senhor que puxava esse pelotão motorizado rumo à linha de chegada: era o concorrente 19.031 da corrida, como dizia o número colado em sua camiseta. As pessoas que circulavam por lá começaram a gritar, bater palmas, incentivá-lo. O senhor, com um saco de plástico em uma das mãos, aqueles de supermercado, demonstrando enorme cansaço, por vezes levantava o braço, acenando para as pessoas que começaram a acompanhá-lo. Era o último participante da corrida que, a duras penas, tentava completar a prova.

Linha cruzada, ficamos curiosos em saber quem seria o número 19.031 que se superou para chegar até o fim da corrida. Com ele, já estavam duas pessoas, que julgamos ser parentes: uma jovem, com uma máquina fotográfica, e outra mulher, com camiseta de uma outra competição, que chamarei de A.... e que nos disse que também corria, mas por estar tratando um câncer, ainda estava meio fora de combate.

Não eram parentes. Estavam procurando ajudá-lo a chegar até uma barraca, um pouco depois da linha de chegada, para receber a sua medalha por ter completado os 21 quilômetros da prova.

Disseram-me que ele se chamava Edgar, que não o conheciam. Vendo-o exaurido pelo monumental esforço, começamos também a ajudá-lo a chegar à sua merecida medalha. Colocou-a no peito e começou a empalidecer. Disse que estava com tontura, os músculos do corpo doloridos. A estrutura médica do evento já estava desmontada. As ambulâncias que ligaram as sirenes quando ele se aproximava da linha de chegada já tinham ido embora. As motos e carros de apoio, também.

Começou a dar um certo desespero. Conseguimos molhar seus pulsos, cabeça. Com a ajuda de dois rapazes que desmontavam uma barraca de apoio para hidratação dos atletas, conseguimos sentá-lo. Ele reclamava muito de dores. Seus lábios começaram a arroxear. A... foi em busca de algum apoio, trazendo dois socorristas que estavam já indo embora. Não tinham nenhum equipamento. Aparelho de medir pressão ou qualquer coisa. Um deles liga pelo celular para pedir uma ambulância do evento, mas informam que tudo já estava desmontado. Não havia mais assistência médica. Como o senhor Edgar estava sozinho, disseram que chamar o SAMU era complicado, pois um responsável teria que acompanhá-lo a um hospital, possivelmente o Miguel Couto. Não sabíamos sequer o seu sobrenome.

E fomos conversando com o senhor Edgar para mantê-lo lúcido, acordado. Disse que morava no Vidigal. Que tinha 80 anos de idade e que participava dessas meias maratonas. Falou que veio sozinho para a competição e iria pegar um metrô para voltar para casa. O que não tinha a menor condição. Perguntamos se ele tinha documentos, um celular. “Meu filho”, disse, “não uso essas coisas. Elas deixam a gente mais burro, sem lembrar de nada, nem do nosso endereço”. Perguntamos o telefone de algum parente, mas ele insistia que não queria dar trabalho.

Perguntamos se poderíamos ver se na sacola de plástico que carregava tinha algum documento. Se podíamos abri-la. Disse que sim. Dentro não achamos nenhum documento. Só uma sandália toda destruída. Seu tênis não tinha mais sola. Estava todo furado, estropiado pela caminhada.

E soltou a frase que deixou aquelas pessoas que continuavam buscando um meio de ajudá-lo mais emocionadas, ao vê-lo tentar chegar à linha de chegada, depois de 21 quilômetros: “Nunca tive tanta atenção de alguém na minha vida. Não quero dar trabalho. Só tenho que agradecer o que vocês estão fazendo. Mas logo que ficar bom, vou pegar o metrô e voltar para casa”. E emendou: “participei da Meia Maratona de Vitória, no Espírito Santo, e quase morri. Fiquei desidratado e ninguém me ajudou”.

Os dois socorristas foram embora, já que nada mais poderiam fazer, sem estrutura. Um deles fez questão de deixar seu telefone, caso alguma coisa pior acontecesse. A jovem com a máquina fotográfica também foi embora. Só eu, Silvia e A... continuamos ao seu lado, buscando um número de telefone, o nome de um parente, sem saber muito o que fazer dada a relutância do senhor Edgar em nos dar pistas para quem ligar. Finalmente, ele disse o endereço do Vidigal. Falou que morava no meio do morro.

Aí começou outra batalha para convencê-lo a não ir até o metrô. Peguei o celular e comecei a buscar o endereço dele no aplicativo do Uber. Não aparecia. Perguntamos se havia outro lugar perto, tipo Associação de moradores, Igreja. Por morar no meio do morro, nenhum Uber ou táxi o levaria até a porta de casa. Mais um triste retrato da exclusão de quem mora nas chamadas áreas de risco. Razão para o endereço não constar. Convencido de que iríamos colocá-lo em um Uber, passou um endereço que, segundo ele, ficava perto de onde morava. Quando estava entrando no aplicativo, nos passou o telefone de sua filha. Ligamos informando que ele estava indo para casa, no endereço que nos passou. O Uber já havia partido e sua filha falou que o melhor seria encaminhá-lo para o Miguel Couto, onde iria encontrá-lo. Mudamos o roteiro, passamos mensagem para o motorista e demos um valor a mais.

Nos despedimos de A... com uma sensação de alívio, mas ainda apreensivos. Trocamos números de telefones. Acompanhamos o trajeto até o desembarque do senhor Edgar no hospital.

Parecia tudo resolvido. Passada uma hora, a filha dele envia mensagem de voz dizendo que ele não estava no Miguel Couto. Que tinham revirado o hospital, que é enorme, e não o encontraram. Disse que um segurança do hospital o tinha visto. E que iria em outra ala do hospital. Se tínhamos alguma foto dele, com a camiseta que estava vestindo da competição, para que as pessoas que estavam no hospital pudessem identificá-lo. O que seria mais fácil.

Por sorte, pouco antes de ele entrar no Uber, ainda sentado na cadeira improvisada, tiramos uma foto que encaminhamos para a filha dele. Meia hora depois, ela passa uma mensagem: “meu pai foi encontrado e está bem. Estava com a pressão muito alta e está estabilizado”.

À noite, já estava em casa, recuperado. Havia saído para a Meia Maratona sem tomar sequer o café da manhã, como nos disse sua filha.

Uma manhã de emoção onde, felizmente, tudo terminou bem. Com o senhor Edgar colocando, com orgulho, sua merecida medalha no peito depois de 21 quilômetros de prova.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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