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12 Abr 2023

“Devemos observar a maior aproximação do IPCA à meta em junho. No segundo semestre, o índice volta a acelerar”

André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do FGV IBRE

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Março trouxe boas notícias no campo da inflação. O IPCA do mês teve alta de 0,71%, conforme anunciado pelo IBGE e a inflação em 12 meses ficou quase 1 ponto percentual abaixo da observada em fevereiro, saindo de 5,6% para 4,65%. Um dos destaques foi a inflação de bens duráveis, com 2,8%, ante 15% em março de 2022. “Esse efeito tem se manifestado de forma mais ampla porque núcleos apresentaram finalmente alguma desaceleração”, analisa André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do FGV IBRE. Há, porém uma persistência inflacionária em serviços livres, que Braz atribui à característica desse tipo de atividade aqui no Brasil, que apresenta importante grau de indexação. “São serviços livres, mas com cara de monitorados, como vemos nos alugueis residenciais e na mensalidade escolar”, exemplifica.

Habitação foi o item com a terceira maior alta no IPCA do mês (representou 0,09 ponto percentual da inflação de 0,71%), atrás apenas de transportes (0,43 pp) e saúde e cuidados pessoais (0,11 pp). Braz afirma que parte da pressão no item alugueis é ditada por uma reversão do efeito pandemia – quando os trabalhadores que puderam exercer sua atividade remotamente se afastaram dos centros urbanos, em busca de uma estrutura que proporcionasse mais conforto à família –, que aquece o mercado imobiliário nas grandes capitais. “Há também o efeito dos juros altos, que desestimulam o financiamento imobiliário”, afirma, destacando, entretanto, que a despeito do cenário de juros o mercado vive um ciclo forte de lançamentos.

IPCA Brasil - variação (%) em 12 meses


Fonte: IBGE.

No campo dos transportes, a reoneração parcial dos combustíveis se fez notar, com a gasolina representando um impacto de 0,39 ponto percentual na inflação do mês. Os derivados do petróleo, aliás, são um ponto de atenção para os próximos meses, devido ao anúncio-surpresa da Opep – que reúne 23 países responsáveis por 30% da produção mundial –,de cortar a oferta de petróleo a 1 milhão de barris ao dia, feito no início de abril. Braz lembra que, além do efeito direto que a medida pode causar nos preços administrados, há um processo de inflação gradual que pode ser contratado para os produtos que têm derivados de petróleo entre os seus insumos, que vão de adubos e fertilizantes a tintas e canos de PVC. Com isso, a celebrada redução do espalhamento da inflação pela economia – que chegou a 78% em abril do ano passado e em março caiu para 60%, menor índice em um ano – pode ser parcialmente revertida.

Por outro lado, os alimentos, que tanto pressionaram os preços nos últimos anos, se mantêm como candidatos a âncora inflacionária em 2023. “As boas safras no Brasil e em outros países, como os Estados Unidos, abrem espaço para quedas de preços, que já estão se materializando em produtos como soja, milho e trigo. E isso terá desdobramento no custo de criação de animais, bem como na produção de derivados”, diz.

Contribuição para a inflação de março, por grupo, em p.p.


Fonte: IBGE.

Braz ressalta, entretanto, que esse alívio nos preços tende a durar apenas até junho, quando o IPCA chegará no nível mais próximo da meta de inflação para 2023, de 3,5%. “A partir do segundo semestre, veremos a inflação voltar a acelerar no cálculo de 12 meses, devido ao efeito base da redução dos tributos federais operada no ano passado. Neste ano não há previsão de contarmos com nada nesse sentido”, diz, reforçando que a aproximação da inflação à meta nos próximos meses não significa dizer que os problemas de política monetária foram resolvidos. “Caso o Banco Central decida operar algum corte da Selic até meados do ano em função desse resultado, este será pequeno e não trará impacto significativo”, conclui.

IPCA - índice de difusão (%)


Fonte: IBGE.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.