Deterioração do cenário macroeconômico é a tônica do debate em webinar FGV IBRE/Estadão

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

A combinação de piora no nível de contágio e mortes por Covid-19 e lentidão na vacinação no campo doméstico, somada à mudança do quadro internacional puxada pelo movimento nos juros nos Estados Unidos, desenham um cenário mais pessimista para a economia brasileira em 2021 do que se estimava no final do ano passado. No I Seminário de Análise Conjuntural de 2021, promovido nesta segunda (8/3) pelo FGV IBRE em parceria com O Estado de S. Paulo, com moderação da jornalista Adriana Fernandes, pesquisadores do IBRE apontaram que, diferentemente das expectativas registradas no último seminário de 2020, os atuais sinais macroeconômicos apontam a que o país deverá se beneficiar menos da recuperação internacional, tornando os esforços internos de vacinação e equacionamento do quadro fiscal ainda mais importantes para a recuperação da atividade.

“No final de 2020, tínhamos a percepção de que, a despeito de nossas fraquezas domésticas, este ano poderia ser melhor, com um câmbio mais favorável, uma bolsa de valores que subisse mais, e com espaço para o Banco Central subir menos juros. Nesse momento, ainda havia bons analistas prevendo que a Selic fecharia 2021 em 2%”, lembrou Armando Castelar, coordenador da Economia Aplicada do FGV IBRE – que hoje considera uma Selic de 5,5% para o final do ano. Castelar apontou a virada registrada pela bolsa de valores brasileira em fevereiro como um sinal claro de que a conjuntura mudou. “Vimos a saída dos investidores estrangeiros de países emergentes de forma geral, mas a virada na bolsa brasileira foi tocante, de uma média de entrada de quase US$ 30 bilhões de dinheiro estrangeiro e, novembro, dezembro e janeiro, para uma saída de mais de US$ 6 bilhões no último mês”, comparou.

No webinar, José Júlio Senna, chefe do Centro de Política Monetária do IBRE, reforçou o diagnóstico defendido na Carta do IBRE da Conjuntura Econômica de março, de que o pacote de estímulo fiscal do presidente Biden aliado à evolução da vacinação nos Estados Unidos não deverá alterar a trajetória da inflação americana de forma permanente, o que deveria se refletir na curva de juros mais à frente, amenizando esse impacto negativo para o Brasil. “Há quem diga que o país corre o risco de voltar ao cenário de inflação do início da década de 1970, mas discordo.  A meu ver o que está em curso hoje – preço de commodities, juro, medo de inflação – são coisas mais temporárias e mais adiante teremos um crescimento mais modesto, com inflação e juros mais baixos”, afirmou, reiterando sua expectativa de que a recuperação econômica não será rápida nem em países com a capacidade fiscal dos Estados Unidos. Castelar, por sua vez, ponderou que o pacote de US$ 1,9 trilhão aprovado pelo Congresso americano no último sábado não é o único planejado pelo presidente Biden e que isso, somado às previsões de que no quarto trimestre deste ano o país poderá crescer 7,5% contra o mesmo período de 2020, sem efeito base e acima do que cresceria sem pandemia, poderá mudar o quadro da atividade no país.

No campo doméstico, Senna afirmou que o Banco Central não deve facilitar com a trajetória ascendente da inflação. Ele defende que, para ser crível, o ciclo de alta da taxa básica deve partir em março e não pode ser feito com mão fraca. Senna ponderou que algumas características do quadro inflacionário atual não apontam a uma tendência persistente. “Se olharmos a decomposição do Índice de Preços no Atacado (IPA) por estágios de processamento, veremos que as matérias-primas subiram 75% em 12 meses, mas é legítimo imaginar que vivamos uma espécie de repasse reprimido. Da mesma forma que a alta da inflação para 7% interanuais, provavelmente a partir de maio, embute um efeito estatístico, pois passarão a sair da amostra meses de 2020 em que a inflação foi muito baixa”, citou. Mas a deterioração do ambiente econômico, alertou, pode levar a um descontrole da inflação. “A PEC emergencial que tramita no Congresso não ataca diretamente nosso grande drama fiscal, que é crescimento das despesas obrigatórias. E acentuação do caráter populista da política econômica atual também amplia a incerteza.”

Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro IBRE, lembrou que o aumento esperado para a Selic a partir deste mês também é reflexo de uma piora do quadro macroeconômico brasileiro. “É normal pensar em juros subirem se a economia está se recuperando. No nosso caso, entretanto, é em função da necessidade de um juro de equilíbrio maior mesmo com a atividade mais fraca”, disse, lembrando que a estimativa de uma inflação interanual de 7% em meados do ano estará combinada com um aumento da taxa de desemprego. A economista, que na semana passada comentou a divulgação do PIB oficial de 2020 ao Blog da Conjuntura Econômica, ressaltou no evento que, sem a piora da pandemia e com uma melhora no ritmo de vacinação, seria possível pensar em revisões para ciam da atividade econômica em 2021.  “Sabíamos que seria início de ano seria desafiador, pois os segmentos que mais sofrem são intensivos em emprego. Mas o que vemos é uma perda mais intensa, devido ao descontrole da pandemia”, afirmou, apontando que a estimativa revisada do IBRE para o PIB de 2020 é de 3,2%, para um carregamento de 3,6%, resultado da recuperação verificada no final de 2020. “Como se sabe, para conter os efeitos da crise sanitária, a melhor política econômica é a vacinação. Mas até agora temos um processo lento, cujos benefícios não serão colhidos tão cedo”, disse, indicando especial preocupação com o cenário do emprego. “A taxa de desemprego, que fechou em 13,5% em 2020, seria perto de 20% se incorporássemos as pessoas fora da força de trabalho, que deixaram de buscar uma atividade. Este ano, esse percentual ainda deverá subir, fechando 2021 com uma média de 15,5%, podendo chegar acima de 16% dependendo do desdobramento da pandemia”, afirmou. Em sua apresentação, Silvia também destacou a gravidade do quadro do emprego informal, com uma queda de vagas da ordem de 12% em 2020, contra 4% do setor formal. “Nunca antes tínhamos entrado numa crise antes de ter superado o impacto da anterior como agora, especialmente com um grau tão alto de informalidade na economia. Estimamos para este ano uma queda da massa ampliada de rendimentos que pode chegar a 6%, e não teremos espaço orçamentário para políticas sociais que compensam essa perda”, concluiu.

 

Reveja o I Seminário de Análise Conjuntural

 


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