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18 Out 2022

Desalento e subocupação: reflexos da desigualdade social no mercado de trabalho

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Em recente artigo publicado na Conjuntura Econômica, o pesquisador do FGV IBRE Fernando de Holanda Barbosa Filho lembra que, diferentemente de outras comparações setoriais em que a retomada da atividade aos níveis pré-pandemia chegou como sinais de alívio, no caso do mercado de trabalho esse resultado não se pode ser visto com o mesmo otimismo. Desde a recessão que durou do segundo trimestre de 2014 ao final de 2016, a dinâmica do emprego no Brasil registrou fortes sinais de deterioração que ainda não haviam sido superados quando a pandemia chegou.

Quando a recente recuperação do mercado de trabalho é analisada por recortes específicos, observa-se também um reflexo de desigualdades que precisam ser combatidas. A Carta do IBRE de outubro, destaca estudos da pesquisadora Janaína Feijó que mostram como a pandemia freou um lento movimento de convergência da participação de mulheres e homens no mercado de trabalho, com as primeiras registrando um nível de participação ainda 2 pontos percentuais abaixo da tendência pré-pandemia no segundo trimestre de 2022, enquanto entre homens essa tendência já voltou ao que era.

“Quando se fala de desigualdade social, entretanto, ainda é preciso considerar que esta possui um forte componente racial”, ressalta Janaína. Em levantamento atualizado, utilizando microdados da PNAD Contínua do IBGE, a pesquisadora do FGV IBRE aponta que, mesmo o país registrando 3 milhões a menos de desempregados no segundo trimestre de 2022 em comparação ao mesmo período de 2019, a diferença entre a proporção de desempregados pretos e pardos da de brancos e amarelos continua a mesma, com o primeiro grupo representando 64,7% do total. Os pretos e pardos também representam ⅔ dos empregados informais do país, somando 23,9 milhões, com uma participação em torno de 11 (p.p.) maior do que a de trabalhadores brancos e amarelos.

Composição dos Desalentados


Fonte: Elaboração com base nos microdados da PNAD Contínua disponibilizados pelo IBGE.

 

Subocupação por insuficiência de horas trabalhadas

 

Fonte: Elaboração com base nos microdados da PNAD Contínua disponibilizados pelo IBGE.

Ao relacionar dados de raça e gênero, Janaína aponta um grave quadro para as mulheres pretas e pardas. Enquanto entre homens pretos e pardos o percentual de desempregados registrou ligeira queda em relação ao segundo tri de 2019, de 0,5 p.p., somando 29,5% do total, entre as mulheres desse grupo o percentual registrado no segundo tri deste ano ainda é 1,5 p.p. maior do que em 2019, de 35,2% do total.  

Outro elemento ilustrativo desse quadro é a análise dos desalentados - aqueles que gostariam de trabalhar mas não buscam emprego por considerar que não encontrarão -, grupo que registrou forte alta no Brasil no agregado da população a partir de 2015, e que ainda é o dobro do registrado antes da recessão. Comparando a evolução de desalentados entre mulheres brancas/ amarelas e pretas/pardas, por exemplo, Janaína identificou que, enquanto o percentual de desalentadas do primeiro grupo registrou queda importante de 2012 para cá - saindo de 19,6% no primeiro tri desse ano para 15,3% no segundo tri de 2022, depois de ter chegado a 13,3% no segundo tri de 2018 -, entre as mulheres pretas/pardas esse número permanece o mesmo, 39,9%, tendo chegado a 425 em 2016, durante a recessão.

Quando analisada a subocupação por insuficiência por horas trabalhadas, indicativo da qualidade da oferta de mercado de trabalho, nota-se que, além de os trabalhadores pretos/pardos nessa condição serem o dobro dos brancos/amarelos, há um distanciamento mais persistente entre o nível de subocupação de homens e mulheres negros/pardos, com as mulheres registrando um nível mais alto. Quando se trata do rendimento recebido por homens e mulheres desse grupo, entretanto, Janaína aponta que se mantém uma certa convergência entre ambos, diferentemente do observado entre homens e mulheres brancos/amarelos.

Rendimento-hora habitual médio

Fonte: Elaboração com base nos microdados da PNAD Contínua disponibilizados pelo IBGE. Valores em reais do 2º trimestre de 2022.

“Levando em conta que hoje o mercado de trabalho se mostra mais desafiador e exigente quanto à escolaridade, falar em nível educacional e capacitação é fundamental para mitigar um agravamento desse quadro de desigualdade racial”, afirma Janaína. Tal tendência já se encontra refletida nos números, diz a pesquisadora, ao apontar um aumento de 7 p.p. no desemprego de mulheres pretas/pardas com ensino médio completo no segundo tri de 2022 em relação a 2019, e de 3 p.p. para homens pretos/pardos. “É fundamental pensar em políticas de requalificação desse grupo pois, quanto mais tempo afastados do trabalho, mais difícil será sua reinserção”, alerta.

No caso das mulheres pretas/pardas, Janaína reforça a recomendação publicada na Carta do IBRE, sobre ampliar a cobertura de creches. “Mas, para ser efetiva, essa política precisa levar em conta as características da vida desse grupo, que em geral moram mais distantes dos centros urbanos. Fatores como a localização das creches e horário de funcionamento - garantindo flexibilidade no atendimento, como se vê em instituições particulares, para adequar a atenção à jornada de trabalho das mães - são fundamentais para atender a esse grupo mais vulnerável, e que mais precisa de apoio”, afirma.

Composição de gênero-raça dos desocupados com ensino médio completo

Fonte: Elaboração com base nos microdados da PNAD Contínua disponibilizados pelo IBGE.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.