Crescimento a partir de 2023 também dependerá da disposição do governo para realizar ajustes, afirmam pesquisadores do FGV IBRE no IBP

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Tal como em outros países latino-americanos produtores de commodities, o impacto econômico provocado pela guerra na Ucrânia, que pegou o mundo no contrapé da recuperação do choque sanitário, foi de aumento de receitas exportadoras, colaborando para uma revisão positiva para o PIB em 2022. No Brasil, essa arrecadação permitiu a aprovação de aumento de despesas fora do teto de gastos, entre as quais um incremento de R$ 200 no valor do benefício do Auxílio Brasil, que ajudarão a mitigar parte da desaceleração da atividade que era esperada no segundo semestre e elevar a projeção do PIB deste ano – para 1,7% conforme o Boletim Macro FGV IBRE de julho.  

Esse cenário menos sombrio para 2022, entretanto, vem acompanhado de revisões negativas para 2023, tanto para o PIB quanto para a inflação, que demandarão habilidade do candidato que assumir o timão do país para não agravar as condições macroeconômicas e comprometer o crescimento brasileiro durante seu mandato. “Há questões domésticas que permitirão que cresçamos mais ou menos, a depender do conjunto de políticas que forem privilegiadas pelo governo”, afirma Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro.  

Nesta terça-feira (2/8) Silvia e Livio Ribeiro, pesquisador associado do FGV IBRE, foram convidados pelo Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) para debater o cenário macroeconômico brasileiro e mundial junto a um grupo de especialistas do setor. O evento Economia, Política e Energia – Diálogos Estratégicos teve mediação de Valéria Lima, diretora executiva de Donwstream do IBP, e faz parte de uma série de encontros idealizados pela diretora executiva corporativa do IBP Fernanda Delgado, professora da FGV e articulista da Conjuntura Econômica.

No evento, os economistas defenderam que será preciso dosar a demanda por mais gastos, abrindo espaço fiscal para estes dentro do Orçamento, e não mais fora. “Aqui, a discussão relevante será conciliar demandas dignas com a necessidade de as contas fiscais fecharem no dia. Se não fechar, vira inflação”, resume Ribeiro. Ele ressaltou a atual falta de sincronia nas políticas para contenção da crise: de um lado, uma política monetária contracionista para controlar a demanda e combater a inflação; de outro, a atenção à demanda de apoio a setores afetados. “Somente este ano, já se gastou R$ 150 bilhões entre políticas fiscais, de desoneração e expansão de renda, cujo resultado é difícil de prever”, diz. Sem contar, completa, na conta que parte dessas medidas deixa para o futuro. No caso da criação do teto para alíquotas de ICMS de combustíveis, energia, telecom e transportes, Ribeiro ressalta que esta representará uma perda de anual de R$ 75 bilhões em arrecadação. “Os estados poderão absorver isso anualmente? Acho que não. Se isso comprometer o fiscal, se refletirá no câmbio, que por sua vez baterá na inflação. É outro exemplo de que vender o longo prazo para maximizar o curto em geral não termina bem”, diz.  

Silvia lembra que, para se enquadrar no grupo de mudanças virtuosas, a decisão sobre o ICMS deveria ter acontecido dentro da reforma de tributos indiretos, que já avança no Congresso e não foi concluída. “Em 2017, publicamos o livro Anatomia da Produtividade no Brasil em que demonstramos como certas escolhas de políticas alimentam um ambiente de negócios disfuncional. Discutimos na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE) o capítulo em que tratamos de como nossa estrutura tributária alimenta incentivos perversos, e a necessidade de reformá-la. Mas ainda não concretizamos essa mudança”, lamenta. A coordenadora do Boletim Macro que, além de alimentar um ambiente disfuncional, a falta dessa reforma abre espaço para a demanda do setor produtivo por subsídios que compensem essas distorções, muitos deles comprovadamente ineficientes e de alto custo fiscal, fechando um círculo vicioso que joga contra a produtividade e o potencial de crescimento econômico do Brasil.

Para Silvia, perseverar no caminho das reformas será ainda mais importante em 2023, pois agora soma-se a necessidade de se combater a persistência da inflação. “A tendência é de que buscamos atalhos para combater a inflação, mas isso é ruim”, diz. “Estamos falando de uma inflação que não é só choque de energia. Ela se generalizou e entrou no núcleo, apontando que será mais alta em 2023, e tende a ser mais persistente”, afirma, indicando que para combater essa pressão de preços não há como escapar do remédio amargo de uma política monetária contracionista. “É um custo alto para desinflacionar, mas com o benefício de ter uma inflação mais baixa no futuro. Não consigo imaginar crescimento econômico persistente sem inflação baixa”, diz, reforçando o diagnóstico de que, por enquanto, os sinais estão contraditórios, com o BC puxando o freio de mão e o governo, o acelerador.

Lívio lembra que o desafio de enxugar estímulos e desacelerar a demanda é de todo o mundo ocidental, que ao se vacinar voltou para a rua para consumir serviços, acelerando esses preços, enquanto a inflação observada nos bens duráveis não cedeu no ritmo esperado. “Essa transição incompleta contamina o núcleo e impede um pouso suave. E agora temos que desacelerar a economia global para trazer a demanda onde está a oferta”, conclui. Resta saber se o próximo governo estará disposto a assumir essa taxa de sacrifício. Essa escolha não é só brasileira, mas preocupa pela falta de histórico positivo, ressalta Ribeiro, em garantir uma institucionalidade suficiente para blindar os avanços graduais de futuros retrocessos. “Esse será o debate dos próximos governos: teremos massa crítica suficiente para garantir dois passos para frente, ao invés de um para frente e outro atrás?”, questiona.

Macro e energia

Os pesquisadores do FGV IBRE ressaltaram que o clima de alerta das análises é necessário para que o Brasil não perca mais oportunidades adiante. “Vemos toda a demanda mundial por alimentos, por energia limpa, e lideramos essas áreas. Temos muito potencial a desenvolver”, cita Silvia. No evento, ela também mencionou análise publicada na Carta do IBRE de junho que destaca a importância que os royalties e participações especiais do setor extrativo brasileiro terão para a arrecadação – deverão representar em média 1,7% do PIB entre 2022 e 2030, comparado à média de 0,7% do PIB de 2001 a 2021. “Basicamente, 80% desse aumento de arrecadação como proporção do PIB está relacionado ao setor de petróleo e gás. São recursos importantes. O desafio colocado para o país é o de saber usar bem esses recursos, de forma eficiente, gerando crescimento de longo prazo”, afirmou.

 


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