Confiança em março: consumidores menos otimistas e melhora no setor de serviços
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
A síntese das Sondagens do FGV IBRE de março, divulgada ontem (4/4), reflete a calibragem da confiança de empresários e consumidores diante de uma conjuntura com mais inflação e juros, que compromete a atividade e o consumo. No agregado, o Índice de Confiança Empresarial fechou com ganho de 0,7 ponto no mês em relação a fevereiro. Esse resultado, entretanto, deveu-se ao bom desempenho do setor de serviços, que compensou a queda nos demais setores.
A confiança da indústria recuou pelo oitavo mês consecutivo, afetada pela perda de fôlego da demanda interna e por problemas de fornecimento de insumos, registrando a mais baixa intenção de contratação desde julho de 2020. Na construção, por sua vez, a queda refletiu a preocupação do setor com uma nova aceleração de preços de insumos devido ao conflito internacional, como apontou Ana Maria Castelo, do FGV IBRE, ao Blog. No caso do Comércio, a estabilidade registrada pelo Índice de Confiança em relação a fevereiro esconde uma forte variação entre os índices que a compõem, com um aumento de 9,5 pontos na confiança quanto à situação atual e recuo de 10 pontos das expectativas quanto aos próximos meses. “É um setor que, como a indústria, foi mais impactado pelo aumento da incerteza ao longo do mês relacionado aos desdobramentos da guerra da Rússia contra a Ucrânia. E, no caso da melhora do otimismo com a situação atual, a alta registrada em março recupera apenas 30% da queda observada nos últimos 7 meses”, diz Rodolpho Tobler, economista do FGV IBRE responsável pela análise e divulgação dos índices de confiança de Serviços e Comércio. “Comércio registra o nível mais baixo de confiança entre as Sondagens, e ainda é difícil identificar condições para uma recuperação mais consistente do setor”, completa.
Apenas a confiança do setor de Serviços sobe no mês
Índices de confiança setoriais, dessazonalizadosÍndices

Fonte: FGV IBRE.
Pelo lado da demanda, a confiança do consumidor caiu 3,1 pontos na mesma comparação, reflexo de uma piora tanto na situação presente (variação de -2,6 pontos em relação a fevereiro) quanto nas expectativas (-3,2 pontos), indicando aumento da preocupação das famílias quanto a sua situação financeira diante de um quadro de aumento da inflação e do endividamento. A Sondagem apontou que a piora da percepção do consumidor piorou tanto entre as faixas de renda mais baixas quanto mais altas, e que a distância entre as duas faixas extremas de renda tem se reduzido, sendo agora de 11,5 pontos, a menor desde março de 2021, quando registrou 11,3 pontos. Aloisio Campelo, superintendente de Estatísticas Públicas do FGV IBRE, ressalta que, para a camada de mais baixa renda, o início do pagamento do benefício de R$ 400 do Auxílio Brasil chegou a promover uma melhora do humor entre esse grupo, mas de fôlego curto. “No caso da camada de renda mais alta, uma melhora do câmbio poderia incidir positivamente sobre suas expectativas de consumo, mas não foi suficiente para alterar o quadro geral”, diz, lembrando que outras fontes de pressão de preços, como aumento de combustíveis e passagens aéreas, serviram de contrapeso nesse balanço.
Cai a confiança dos consumidores de baixa e alta renda em março
Média das faixas de renda baixa e alta* – Indicadores dessazonalizados; diferença entre as média no eixo à direita

*Faixas mais baixas – renda familiar mensal até R$ 4,6 mil. Faixas mais altas renda familiar mensal acima de R$ 4,6 mil. Fonte: FGV IBRE.
No caso da recuperação dos serviços, Campelo afirma que para os empresários desse setor, mais do que as implicações da guerra da Rússia contra a Ucrânia, o que pesou foi o arrefecimento do contágio de Covid-19 após a forte onda provocada no início do ano pela variante Ômicron. “Desde o início da pandemia, observamos a formação de um ‘V’ no gráfico de evolução da confiança, com forte queda e posterior recuperação conforme a situação se estabilizava”, descreve. Tobler lembra que, mesmo não trazendo restrições tão severas, tampouco a mesma gravidade apresentada pelas outras variantes, a Ômicron representou o cancelamento oficial de eventos massivos como Réveillon e Carnaval, bem como uma revisão de planos de trabalho em escolas e empresas. “Ainda há muitos segmentos com espaço de recuperação. Mas ainda é preciso olhar os números com cautela e esperar os resultados de abril para avaliar as características dessa melhora – se é uma devolução da piora dos meses anteriores ou um avanço sustentável”, diz. Tobler lembra que em novembro e dezembro de 2021, antes da onda da Ômicron, a confiança do setor já apresentava queda, fechando o ano em 95,5 pontos, contra 99,1 registrados em outubro. Em janeiro e fevereiro, devido à Covid-19, a confiança de serviços perdeu outros 2,7 pontos, chegando a 89,2 em fevereiro. E, em março, fechou em 92,2.
Tobler reforça que segmentos de serviços como transporte e os prestados às famílias ainda têm uma margem de consumo a recuperar – como em turismo e serviços de beleza – que pode alimentar o otimismo do setor. “Mas se a tendência de inflação, endividamento e renda das famílias permanecer negativa, limitando o poder de compra das famílias, são gastos que permanecerão postergados, comprometendo a dinâmica dessas atividades”, diz.
Melhora da confiança dos serviços é disseminada entre os segmentos
Índices de confiança setoriais, dessazonalizados

Fonte: FGV IBRE.
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