Confiança do setor de serviços e no comércio: maior diferença está no campo das expectativas
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
A bateria de sondagens de julho do FGV IBRE ainda desenha um cenário indefinido no agregado de grandes setores da economia. Além de uma queda da confiança da indústria – de 2,1 pontos em julho, para 91,9 pontos –, o comércio também registrou recuo de confiança de 2,6 pontos (para 91,6 pontos). Já nos serviços houve alta de 1,4 ponto, para 98 pontos. A confiança empresarial medida pelo IBRE fechou o mês em queda de 0,5 ponto, como divulgado hoje.
No setor industrial, os produtores de bens de consumo reportam baixos níveis de demanda e acúmulo de estoques, e há menos otimismo qual a evolução da produção nos próximos meses, como aponta Stéfano Pacini, economista do FGV IBRE. Já a confiança em comércio e serviços tem uma evolução diferenciada entre si principalmente pelas expectativas quanto ao futuro próximo, afirma Rodolpho Tobler, também do IBRE, responsável por ambas as pesquisas.
“Se observarmos o índice que mede a situação atual (ISA) nos dois setores, veremos que ambos fecharam julho em um nível muito próximo: 98 pontos no comércio e 99,5 pontos em serviços. Quando se trata do Índice de Expectativas (IE), entretanto, a distância é bem maior, de 11 pontos em julho, com os setores marcando níveis de, respectivamente, 85,6 e 96,6 pontos”, diz Tobler.
O economista do IBRE classifica a queda de 4,1 pontos nas expectativas do comércio como reflexo de um momento ambíguo vivido pelo setor. “Depois de registrar um cenário mais preocupante na virada de 2022 para 2023, houve uma melhora da demanda na passagem do primeiro para o segundo trimestre maior do que a esperada”, descreve. Tobler aponta que alguns fatores limitativos sinalizados pelos empresários na Sondagem mais recente são indicativos dessa surpresa. O aumento de 7 pontos percentuais (pp) nas referências ao aumento da competição (para 32,2%), por exemplo, pode indicar um mercado mais dinâmico. Outro elemento é o custo da mão de obra, cujas citações pelos empresários aumentaram 4,6 pp em julho em relação ao mês anterior, e 7,5 pontos em relação a julho do ano passado.
Fatores limitativos apontados pelos empresários do comércio

Fonte: FGV IBRE.
“Essa referência aumentou especialmente dentro de segmentos do varejo tradicional, e de certa forma reflete a necessidade de se contratar em um contexto de demanda mais aquecida, impactando diretamente no custo, de uma forma que esse empresário não esperava ter de enfrentar agora”, afirma o economista do IBRE.
Outros elementos dentro do grupo de fatores limitativos, entretanto, mostram que esse aquecimento ainda não é suficiente para dar sustentabilidade a um otimismo de mais médio prazo. “Somadas, as referências sobre custo financeiro (23,6%) e problemas no acesso a crédito bancário (6,4%) chegam a 30%. É um nível alto, especialmente se levarmos em conta que em 2021 as referências ao custo financeiro como limitativo para os negócios chegaram a ser de apenas 5%”, afirma. “E, mesmo que com uma reação melhor que a prevista ainda no primeiro semestre, demanda insuficiente ainda é o principal fator limitativo citado” diz, chegando a 33,4% de assinalações em julho.
Para Tobler, mesmo com a expectativa alta por um início de ciclo de corte da taxa básica de juros em agosto – a ser definida nesta quarta-feira (2/8) pelo Copom – os empresários do comércio estão mais conscientes de que isso não representará melhoras significativas no curto prazo. “Devido a terem sofrido mais no final de 2022 e começo deste ano, os empresários do comércio são mais cautelosos, e sabem que nada mudará do dia para a noite.”
Evolução dos indicadores que compõem o índice de confiança

Fonte: FGV IBRE.
No caso do setor de serviços, por não ter sofrido a mesma desaceleração, os sinais são de uma melhora consistente na confiança desde o início do ano, para a qual também colaboram as expectativas. “Ainda que esse crescimento da confiança tenha sido menos disseminado do que no mês passado, ainda é um resultado positivo”, avalia Tobler. “Em julho, o ISA avançou 0,2 ponto, indicando certa estabilidade, e o IE registrou alta de 2,6 pontos, refletindo mais claramente o otimismo com o cenário de inflação controlada e juros em queda, bem como dos reflexos do programa Desenrola no orçamento das famílias. O economista também destaca que, mesmo ainda não recuperando o nível observado no final do ano passado, tanto o indicador de volume de demanda atual quanto de demanda prevista têm registrado uma consistente alta desde março. “A tendência para o segundo semestre é de que essa direção permaneça, ainda que talvez menos acentuada.”
Essa melhora das perspectivas macroeconômicas também sem refletem nas sequentes quedas do Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br) da FGV. Com a redução de 4,1 pontos em julho, o IIE-Br soma uma queda de 13,2 pontos nos últimos quatro meses, para 103,5 pontos, menor nível desde novembro de 2017.
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