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24 Mai 2021

Comparação internacional reforça hipótese de que relutância ao isolamento não colaborou para sustentar emprego

Marcos Hecksher, pesquisador do Ipea

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Enquanto países desenvolvidos começam a testar a normalização de suas atividades com o avanço da vacinação, na esperança de definitivamente retomar as rédeas da economia, no Brasil estudo recente fortalece a hipótese de que a relutância em assumir restrições mais rígidas ao convívio social desde 2020 não apenas resultou em um dos mais altos índices de mortalidade por Covid-19 do mundo como não colaborou para conter a deterioração do mercado de trabalho, tornando a retomada ainda mais desafiadora. Panorama que se agrava sob um ritmo incerto de vacinação.

Trabalho de Marcos Hecksher, assessor especializado da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc) do Ipea, divulgado há dez dias compara a perda de vidas e de ocupações registradas no Brasil em relação a outros países em 2020. Ainda que deixe claro que seus resultados não apontem uma relação causal, o estudo ressalta a correlação negativa entre esses dois fatores. No caso da letalidade da doença, análise feita por Hecksher ajustando a distribuição populacional por faixa etária e sexo mostra que, de 179 países, apenas dez tiveram menos mortes por Covid-19 que o Brasil. No caso do nível de ocupação, entre 64 países compilados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), apenas dez registraram queda mais intensa do que o Brasil nos três últimos trimestres de 2020 em relação ao mesmo período de 2019.

Hecksher afirma que tal relação não chega a ser surpreendente. “No início da pandemia, economistas analisaram em paper a evolução econômica em diferentes cidades americanas durante a gripe espanhola, e já identificavam que as que foram mais estritas em seu fechamento tiveram uma evolução econômica melhor e mais sustentável depois da pandemia”, diz. O pesquisador também cita o caso da Suécia na atual crise sanitária. “No início da pandemia, o país foi mencionado como exemplo a se seguir, de resposta inteligente, mais flexível, poupadora de emprego”, cita. No balanço de 2020, entretanto, o país havia registrado quase cinco vezes mais mortos que os demais países nórdicos, e uma taxa de desemprego ligeiramente mais alta. “No final, é o medo de contágio que determina a resposta econômica”, diz. 

Outro ponto de destaque no estudo de Hecksher foi a determinação de comparar as mortes entre países ajustando sua distribuição populacional por faixa etária e sexo. O pesquisador mostra que, para o caso brasileiro, a mudança do resultado comparando ao número calculado por cem mil habitantes nem chega a ser um salto: saímos de ser piores do que 89% dos países a 95%. “A principal diferença é a ordem dos demais, pois incluindo a variável etária já não ficamos tão parecidos com alguns países desenvolvidos como a Itália, cuja população acima de 60%, faixa em que a letalidade do vírus é mais alta, é de quase 30%, contra 14% no Brasil”, diz, questionando a falta dessa ponderação nos sites criados para comparar a mortalidade por Covid-19 entre países. Quando comparado em relação à população total, o Brasil se aproxima de países como Bélgica, Reino Unido, Estados Unidos e França, além da própria Itália, mais adiantados em sua transição demográfica. Após o ajuste feito por Hecksher, sete dos nove países com indicador pior que o brasileiro, passam a ser latino-americanos, sendo o Peru o país com pior resultado, superando em 42,8% o resultado brasileiro. Em relação à média mundial, o exercício de Hecksher aponta que o risco de morrer de Covid-19 no Brasil foi 3,6 vezes.

Mortes por covid-19 observadas em 2020 em relação às esperadas com o padrão brasileiro de mortalidade por idade e sexo
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Fonte: Marcos Hecksher, IPEA, com dados Portal da Transparência, IBGE, OMS e ONU.

Ainda que o avanço da vacinação entre idosos, ou a hipótese de aumento da letalidade entre mais jovens promovido por novas variantes do vírus se confirme, Hecksher ressalta que o importante estimular a manutenção das medidas de proteção individual, além do aumento da vacinação. “Se houver confiança de recuperação sanitária mais rápida e sustentável, a confiança na economia também tende a evoluir de forma mais intensa e mais sustentável. Caso contrário, manteremos a dominância sanitária na economia”, diz, contaminando a expectativa dos agentes econômicos e, consequentemente, a geração de emprego. 

O estudo de Hecksher aponta que, entre 64 países analisados, o Brasil saiu de ter o 25º pior nível de ocupação em 2019 para a 16ª pior taxa, com 48,8%. Foi a 11ª pior queda, na qual o país novamente é acompanhado por outros países latino-americanos. Informalidade, concentração de mão de obra em setores menos complexos e de maior interação social, baixa escolaridade são alguns dos fatores que justificam esse resultado, e que deverão ser tratados daqui para frente visando à recuperação. “Até agora, tivemos um programa bem-sucedido para evitar uma maior queda no nível de ocupação formal (o programa de manutenção de emprego e renda, BEm). Do lado dos informais, entretanto, não podemos dizer que o auxílio teve como objetivo preservar a atividade geradora de renda. Nesse ponto, ainda temos uma tarefa pendente”, diz. 

Variação do nível de ocupação entre os três últimos trimestres de 2019 e 2020
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Fonte: OIT e Pnad Contínua/IBGE.

Impacto na geração de renda

Recentemente, Juliana Trece e Claudio Considera analista e coordenador do Núcleo de Contas Nacionais do FGV IBRE, realizaram um estudo preliminar que ilustra o impacto econômico da pandemia sob outro ponto de vista.  Com base na média de rendimento e de anos de estudo dos brasileiros, calcularam quanto as 430 mil pessoas que morreram de Covid-19 no Brasil entre março do ano passado e meados de maio deste ano poderiam ter gerado de renda. Entre as vítimas de 20 a 69 anos a potencial geração de renda mensal é de R$ 492 milhões. No estado de São Paulo, que respondeu por 27,2% de todas as mortes por Covid-19 do país, o rendimento mensal das 58,9 mil pessoas dessa faixa etária representa R$ 154,5 milhões mensais. Juliana afirma que o estudo não pondera a taxa de desemprego, ressaltando que muitas poderiam se encontrar em situação mais vulnerável.

No caso das pessoas acima de 70 anos – 211 mil, segundo o Portal de Transparência do Registro Civil –, o rendimento médio mensal real de aposentadorias e pensões a preços de 2019 seria de R$ 413 milhões; R$ 112,6 milhões em São Paulo, que perdeu 57,4 mil pessoas nessa faixa etária. Aqui, a ressalva dos autores é de que algumas dessas mortes levarão a pagamento de pensão, o que afetaria essa conta. “De qualquer forma, é um impacto importante, levando em conta o fato de que em muitas famílias brasileiras a aposentadoria dos avós é fundamental como renda garantida de um domicílio, para o sustento de famílias em que país estão em desalento e há crianças para se alimentar”, diz. 

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.