Comércio atuante no e-commerce segue mais confiante que os demais

Rodolpho Tobler, coordenador da Sondagem do Comércio do FGV IBRE

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

O desenvolvimento ou a ampliação do canal de vendas pela internet foi fundamental para muitas empresas do setor do comércio resistirem ao período de isolamento em que tiveram que manter as portas fechadas. Pesquisas realizadas pelo setor de Sondagens do FGV IBRE desde junho de 2020 divulgadas anteriormente demonstram que, em média, a participação do e-commerce no total das vendas do setor cresceu 10 pontos percentuais em relação a antes da pandemia – o que, em muitos casos, significa o dobro de antes do choque sanitário –, representando 21% dos negócios do varejo. 

Rodolpho Tobler, coordenador da Sondagem do Comércio do FGV IBRE, observa que as empresas com nível de vendas online acima da média de seu segmento também se mantiveram mais otimistas do que as demais durante esse período. “Quando cruzamos a informação de operação online com os índices de confiança, observamos que no início da pandemia a queda foi forte e generalizada, mas que a recuperação foi maior entre as empresas com e-commerce acima da média setorial”, afirma. Observando o indicador que mede a situação atual em cada período do tempo, verifica-se que entre o grupo dos mais digitalizados a confiança superou o nível de neutralidade (100 pontos) em julho do ano passado, enquanto entre os negócios com nenhuma operação de e-commerce ou com vendas online abaixo da média os resultados acima dos 100 pontos só passaram a ser registrados a partir de junho deste ano, com o avanço da vacinação e maior flexibilização das restrições. “Antes disso, entre o fim de 2020 e o primeiro trimestre, ainda observamos uma desaceleração estrutural, reflexo da perda de renda da população, somada à segunda onda de contágio por Covid-19”, lembra Tobler. Já no fim do semestre, com a percepção pela população de uma maior circulação e normalização de atividades, o setor de comércio em geral se mostrou mais otimista, com o Índice de Confiança medido pelo FGV IBRE registrando quatro altas seguidas, até julho.

Confiança com a situação atual é maior no comércio com mais vendas online


Fonte: FGV IBRE.

A divulgação mais recente do Índice, feita dia 30/8, mostrou um ligeiro recuo da confiança do comércio, de 0,1 ponto, que pode estra relacionada a uma redução de demanda e possível desaceleração do ritmo de recuperação do setor. “Não é uma oscilação alarmante, mas reflete a lentidão de recuperação do mercado de trabalho, e a reação de atividades do setor de serviços, que passam a competir pelo consumidor”, diz Tobler. O pesquisador também ressalta a importância da recuperação da confiança dos consumidores para a manutenção do otimismo do comércio acima do nível pré-pandemia em que hoje se encontra. Tal como no comércio, a confiança dos consumidores também recuou em agosto, depois de quatro altas consecutivas, ampliando a distância registrada entre a confiança de empresários e consumidores, registrada a partir de meados de 2020, como aponta a Síntese das Sondagens do FGV IBRE de agosto, divulgada dia 1/9.

Tobler ressalta que, mesmo nesse movimento de recuo do índice, o comércio mais aderente ao e-commerce permaneceu mais otimista. O que, possivelmente, seja indicativo de que a adoção desse canal se manterá mesmo com a normalização das atividades, ainda que sua participação no total das vendas tenda a se estabilizar. O pesquisador lembra que o maior movimento de expansão do e-commerce no comércio se deu em meados do ano passado, registrando alterações menores este ano. “Também vale lembrar que, mesmo que o salto na adesão ao e-commerce tenha sido grande em todas as atividades, as que eram mais intensas nessas vendas se mantiveram na liderança”, diz. É o caso do comércio de material de construção, cujo percentual de vendas via e-commerce antes da pandemia era de 14,3%, saltando para 24,5% em junho. Já os hipermercados, mesmo com aumento de participação das vendas online de 4,4% no pré-pandemia para 15,9% em meados deste ano, mantiveram-se entre os mais baixos em participação do e-commerce. “Segmentos como supermercados e farmácias, que não tiveram de fechar suas portas no período mais crítico de isolamento, não precisaram acelerar o investimento em canais online como as demais atividades, que sofreram restrições mais rígidas”, lembra Tobler.

Isolamento acelera adoção de e-commerce

(participação % no total das vendas)


Fonte: FGV IBRE.

 


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