Com prudência

Presidente chinês alerta que retomada da economia global dependerá da demanda doméstica, mas modera nos estímulos, diz Livio Ribeiro

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

O alerta dado esta semana pelo presidente chinês Xi Jinping de que a turbulência nos mercados externos desafiará governos a colocar o setor doméstico como locomotiva da retomada do crescimento parece lógico no geral, mas pouco condizente com os números do próprio país.

Livio Ribeiro, pesquisador do FGV IBRE, aponta que a desaceleração da retomada econômica chinesa em julho, que surpreendeu o mercado, não suscitou ações de estímulo por parte do governo. A tendência de exaustão no ritmo de recuperação da atividade aconteceu em praticamente todas as áreas – com exceção de vendas imobiliárias –, e especialmente no varejo, provocando um descasamento com a indústria, que em geral reagiu mais rapidamente e, no caso da China, representa 51% do PIB. “No caso do varejo restrito, por exemplo, Estados Unidos, a zona do euro e até o Brasil já registram desempenho melhores, chegando ao nível pré-pandemia. Mas isso se deve, fundamentalmente, aos potentes pacotes de auxílio injetados nessas economias”, afirma. Como, no caso chinês, a travessia pelo período mais duro de isolamento e retração econômica foi financiado em boa parte pela economia das famílias, Ribeiro aponta que a tendência agora é de certa precaução no consumo, já que os chineses poderão estar preocupados em restabelecer o nível de suas poupanças. “Por isso, essa ociosidade de demanda deverá se arrastar por um tempo, sem grandes recuperações no quarto trimestre”, diz.

Até agora, esse panorama morno não pareceu preocupar o governo chinês, aponta Ribeiro, indicando que o foco do debate é prudencial. Na frente monetária, as últimas sinalizações das autoridades vão na direção oposta ao expansionismo. “Olhando os dados de crédito, percebe-se uma elevação na taxa de juros interbancária e uma desaceleração nas concessões de empréstimos. Ou seja, ao contrário de outros países, o Banco Central chinês (PBoC) já começa a tirar o pé do acelerador”, diz. Do lado fiscal, os sinais são menos evidentes, mas também estão presentes. “Apesar de se registrar um aumento de déficit, este acontece mais por queda na arrecadação do que pelo lado das despesas.”

Sem estímulos concretos na frente doméstica, e um cenário efetivamente complexo no campo externo – “por sair primeiro do pico da pandemia, a China precisa lidar com o vento de proa por mais tempo, aguardando a recuperação dos demais países, além de viver a ameaça de um novo capítulo na guerra comercial com os Estados Unidos” –, Ribeiro mantém sua estimativa para o PIB chinês em 1,5% este ano, um resultado positivo, mas tímido em relação a outras projeções do mercado. Para o pesquisador, mais preocupante que a dinâmica da recuperação chinesa, neste momento, é como esse abrandamento da retomada do país poderá afetar as expectativas de recuperação das demais economias, “incorrendo no risco de se dobrar a aposta na via expansionista, para evitar a experiência dessa exaustão chinesa”.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Subir