Carta do IBRE – Desafios para formar mão-de-obra qualificada

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

A volta às aulas neste mês, mostrou a enorme disparidade que marcou a educação durante a pandemia no Brasil, um dos países que ficou mais tempo com a escolas fechadas no mundo. Nas redes particulares, em vários estados o retorno dos estudantes às salas de aula chegou a 100%, enquanto nas redes públicas o percentual ficou com uma média de 50%. E o pior é que a maioria das redes públicas não tem estrutura para ministrar aulas presenciais.

Esse desastroso quadro, que terá consequências graves sobre a produtividade do país nos próximos anos devido a baixa formação de capital humano, está umbilicalmente ligada a péssima distribuição de renda no Brasil que é especialmente nociva quando se pensa nas crianças e nos jovens. Enquanto filhos da classe alta frequentam colégios privados com mensalidades que são múltiplos de mil reais, famílias pobres, recebendo apenas pouco mais que uma centena de reais de Bolsa-Família, enviam seus filhos a escolas públicas de qualidade deficiente, como sustenta a Carta do IBRE deste mês, a ser publicada na revista Conjuntura Econômica.

Ao se debruçar sobre o assunto, a Carta afirma que “o abismo em termos de oportunidades é tão agudo que não é possível apenas esperar a convergência de qualidade, num horizonte distante, entre o sistema público e o melhor sistema privado de educação. É preciso, no presente, pensar em como ampliar a capacitação e o preparo para o mundo do emprego de jovens pobres que ingressam no mercado de trabalho – e de outras faixas etárias com deficiência na formação educacional e profissional.

Nesse sentido, programas de qualificação profissional são fundamentais no cenário social brasileiro. E, dada a imensa diversidade da população que enfrenta dificuldades no mercado de trabalho, desde os muito pobres com fundamental incompleto até profissionais com ensino médio completo e mesmo terceiro grau, é necessário haver um cardápio diferenciado e eficiente de programas de qualificação profissional”.

Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV IBRE, pesquisou a literatura sobre programas que podem incentivar e melhorar o mercado de trabalho e a formação de mão-de-obra, através de 207 trabalhos com comprovação empírica.

Os trabalhos chegaram a conclusões bastante interessantes e que merecem uma reflexão de como melhorar o mercado de trabalho. Um deles é que os programas de qualificação profissional – não os de busca de emprego -, tendem a mostrar resultados mais favoráveis nos médios e longos prazos. Nos programas com cursos de qualificação profissional, as avaliações mostraram que a variável de emprego após essa intervenção mostrou uma melhora de 1% a 3%, no curto prazo, entre 3% e 5%, no médio prazo e 5% a 12% no longo prazo.

Como mencionado pela Carta, “um achado importante é de que programas de auxílio na busca de emprego – como o Sistema Nacional de Emprego, Sine, no Brasil – obtêm melhores efeitos em populações socialmente desfavorecidas. Já programas de treinamento funcionam melhor para desempregados de longa duração. Os programas de qualificação também apontam efeitos melhores para as mulheres, resultado de interpretação mais difícil”.

Um dos programas que apresentou os melhores resultados no país foi o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego( Pronatec-MDIC), também chamado de Super-TEC.

“Um estudo de 2017 de O’Connel, Mation, Bastos e Dutz avaliou o Pronatec-MDIC, e concluiu que o programa afetou de forma positiva as mais de 300 mil pessoas que dele participaram entre 2014 e 2015, com aumento entre 8% e 16% da empregabilidade. Numa extensão do trabalho anterior realizada em 2020, O'Connell e Mation compararam o Pronatec com o Pronatec-MDIC. Os autores mostraram que o Pronatec-MDIC possui uma efetividade muito maior, indicando que a coleta de demanda de qualificação de empresas do setor amplia a potência do programa”, diz a Carta.

Ver a íntegra da Carta do IBRE.

 


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