Barômetros globais reforçam sinais de desaceleração mundial. China entra no radar das preocupações

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Os Barômetros Globais divulgados pelo FGV IBRE em parceria com o Instituto Econômico KOF, da Suíça, recuaram em novembro, sinalizando um cenário de desaceleração mundial par aos próximos meses. Quadro inflacionário global, conflito na Ucrânia e os efeitos da política de tolerância zero com a Covid na China estão entre os desafios que determinam esse resultado, afirma Paulo Picchetti, pesquisador do FGV IBRE. “Na medida em que nenhuma dessas questões tem probabilidade relevante de solução no curto prazo, as expectativas captadas pelos barômetros globais sinalizam consistentemente na direção de desaceleração da atividade econômica nos próximos meses”, diz, no comunicado.  

A maior queda registrada em outubro se deu nas expectativas quanto à situação presente, com a queda de 6,5 pontos do Barômetro Coincidente, enquanto o Barômetro Antecedente retrocedeu 3,4 pontos em novembro.

Em novembro, a região da Ásia, Pacífico & África contribui com 5,2 pontos para a queda do indicador Coincidente, enquanto o Hemisfério Ocidental e a Europa contribuem com -0,9 e -0,4 ponto, respectivamente. O indicador regional da Europa registra agora uma sequência de onze quedas seguidas e o menor nível entre as regiões.

Barômetros Globais


Fonte: KOF, ETH Zurich e FGV IBRE.

Analisado por setor, o Barômetro Coincidente aponta que apenas as atividades de comércio registraram alta na confiança, de 1,4 ponto. Na outra ponta, a maior queda aconteceu no setor de serviços, que recuou 14,9 pontos. O pior resultado, entretanto, é o do setor da construção, que perdeu 5,9 pontos em relação ao resultado de outubro. Enquanto os demais setores se posicionam na casa dos 80 pontos, o Barômetro Coincidente da construção está em 63,7 pontos, “cada vez mais afastado da média histórica de 100 pontos”, destaca Picchetti.

Sinais fortes de economia fraca

Na análise regional, Ásia, Pacífico e África registrou a maior queda tanto no indicador coincidente (-5,2 pontos) quando no antecedente (-de 3,1 pontos), depois de ter se destacado positivamente no resultado de outubro (leia aqui). A Europa, por sua vez, registrou queda de 0,4 ponto na avaliação da situação atual – registrando uma sequência de 11 resultados negativos – e ligeira alta do indicador antecedente, de 0,5 ponto.

No caso da região asiática, a maior influência se dá pelas expectativas em relação à atividade econômica chinesa. Indicadores recentes reforçam o diagnóstico de uma economia sem vigor, ressalta Lívio Ribeiro, pesquisador associado do FGV IBRE, sócio da consultoria BRCG. “Em outubro, os indicadores qualitativos dos PMI´s (índice que mede a temperatura de alguns setores da economia de forma mais tempestiva) confirmam que as possibilidades de aceleração do crescimento este ano são parcas, mostrando uma economia em desaceleração no início do quarto trimestre, deixando uma herança negativa para 2023”, diz. “As aberturas do PMI oficial de manufatura apontam contração da produção, e os indicadores ligados à demanda, tanto interna como externa, seguem em terreno amplamente negativo”, afirma. Já os serviços registraram desaceleração em relação a setembro, acentuando o resultado contracionista.

Barômetros Globais – por setores 
Barômetro Global Coincidente


Fonte: KOF, ETH Zurich e FGV IBRE.

Os dados da inflação chinesa divulgados nesta quarta (9/11) reforçam os sinais de carência de demanda, afirma Livio. “Se olharmos o acumulado em 12 meses, veremos que as principais aberturas da inflação seguem em descompressão”, diz. Para os preços aos produtores, registrou-se a crescimento de 0,2% em outubro. “No entanto, voltou-se ao terreno deflacionário em 12 meses, com esta métrica afundando para -1,3%, a leitura mais baixa desde o final de 2020.”

Livio afirma que problemas de focalização das políticas públicas e uma nova rodada de restrições sanitárias – com picos de casos em todo o país, e, mais recentemente, novamente na província de Guangdong, região onde fica Hong Kong – acentuam o diagnóstico de uma economia com baixa tração no final deste ano. A projeção de Ribeiro para o PIB chinês em 2022 é de 3,4%, “uma herança estatística nefasta para o crescimento do ano que vem”.

China: CPI
(analíticos, acumulado 12 meses)


Fonte: NBS. Elaboração: BRCG.

 

China PPI: aberturas selecionadas (AsA)


Fonte: NBS. Elaboração: BRCG.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Subir