Bares e restaurantes: setor em recuperação, mas ainda endividado
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
Para muitos negócios, 2023 foi marcado pelas dificuldades de um crédito mais caro, reflexo do ciclo contracionista da política monetária, contribuindo para um alto nível de endividamento. Para o setor de bares e restaurantes, a dificuldade em repassar ao consumidor a inflação de alimentos acumulada desde anos anteriores contribuiu para essa conjuntura mais desafiadora. Pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) com 2,12 mil empresários do setor mostra que nos 12 meses encerrados em fevereiro, 40% não conseguiram reajustar seus cardápios de acordo à inflação.
O panorama geral, entretanto, foi de recuperação. “Neste ano, o movimento do Carnaval já contribuiu para afirmar essa percepção, com 76% dos empresários que abriram seus estabelecimentos indicando um lucro em média 15% maior do que no ano passado”, afirma José Eduardo Camargo, líder de Conteúdo e Inteligência da Abrasel. A situação financeira dessas empresas, entretanto, ainda requer atenção: em fevereiro, 43% reportaram ter dívidas em atraso, sendo que 40% afirmaram estar inadimplentes com bancos – ou seja, em torno de 17%. Em meados de 2023, a inadimplência do setor relativa a crédito bancário chegou a 23%; antes da pandemia, a Abrasel afirma que a média não superava 7%.
O cenário do setor converge com o diagnóstico de Katherine Hennings, pesquisadora associada do FGV IBRE, na matéria de capa da Conjuntura Econômica de março (acesso gratuito aqui), de que a conjuntura do mercado de crédito no Brasil ainda demanda cautela.
Camargo destaca que mais de 50% as empresas do setor são MEIs, mas que em 2023 o setor fechou com um aumento da participação de negócios de maior porte. “Em dezembro, o número de MEIs com cadastro ativo atuando no setor caiu de 1 milhão (dado de abril) para 795 mil. Já as empresas “não-MEIs” com CNPJ ativo eram 578 mil em dezembro, contra 474 mil em abril”, descreve. Outro sinal positivo observado pela Abrasel foi o aumento de empresas dispostas a ampliar suas operações. “No quarto trimestre de 2023, 35% dos empresários que entrevistamos afirmaram que pretendiam contratar, sendo que 10% destes indicaram que era para abrir filial”, destaca.
Camargo afirma que a questão de crédito ainda é sensível para o setor, lembrando que no ano passado um dos pontos sensíveis para as empresas foi a elevação do custo do crédito tomado pelo Pronampe – criada em 2020 para apoiar pequenos negócios impactados pela pandemia, posteriormente tornando-se permanente –, devido à taxa dessa linha ser atrelada à Selic. No primeiro semestre de 2023, o governo sancionou lei que ampliou o prazo de pagamento desses empréstimos. “Com a tendência de queda da Selic e recuperação do faturamento das empresas, espera-se que essa questão esteja equacionada, mas ainda é tema de atenção”, diz Camargo. Para as empresas maiores, o foco de atenção no início deste ano esteve nas discussões em torno do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), que o governo federal pretendia extinguir e agora discute projeto de lei que definirá as condições de sua manutenção.
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