Aumento da confiança e da preocupação com escassez de mão de obra evoluem com o ciclo da construção
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
O Índice de Confiança da Construção sinalizou estabilidade em junho, marcando 96,4 pontos. Com isso, os empresários do setor fecham o semestre um pouco mais confiantes do que no final de 2023, diz Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção do FGV IBRE. Entre as variações observadas ao longo da cadeia, Ana destaca um aumento mais acentuado da confiança nas empresas de serviços de acabamento, de olho na demanda contratada neste novo ciclo do setor, que registra aumento no volume de negócios desde o final do ano passado, especialmente pelo Minha Casa Minha Vida (MCMV). “Nesse segmento de acabamentos, a confiança alcançou o patamar dos 100 pontos”, ilustra Ana.
Tal otimismo, entretanto, também é acompanhado por aumento da preocupação com escassez de mão de obra qualificada. Em junho, as assinalações deste fator como limitativo dos negócios foi mais de 60% maior nas empresas de acabamento em relação à média do setor. Dados do Caged divulgados nesta quarta (26/6) mostram que, no acumulado do ano até maio, a construção registrou um saldo líquido de 159,2 mil empregos formais, cerca de 7% maior do que no mesmo período de 2023. Na comparação do acumulado janeiro-abril, a diferença era de 16,8%, como destacou Ana em análise publicada no Boletim Macro do FGV IBRE de junho. No Boletim, ela destacou que essa evolução colaborou para pressionar o mercado de trabalho, e que “a escassez de trabalhadores já se traduz na elevação dos custos. A taxa em 12 meses do componente mão de obra do INCC alcançou 7,13% em maio”.
No Boletim, Ana também destaca o financiamento como desafio para a sustentabilidade da expansão do setor de forma sustentável. No caso do segmento imobiliário, ela lembra as limitações do FGTS para atender ao aumento da demanda no segmento do MCMV. “O orçamento do FGTS para habitação em 2024 é de R$ 105,6 R$ bilhões, sendo que, até abril, período normalmente de menor volume de contratações, foram consumidos R$ 43,6 bilhões, um crescimento de 90% em relação ao mesmo período de 2023”, ilustra, indicando a necessidade de suplementação no segundo semestre. Já para o segmento de renda média não enquadrado no MCMV, as limitações estão na dinâmica da poupança, principal fonte de financiamento desse grupo. No acumulado do ano, o saldo líquido do SBPE permanece negativo, mantendo a dinâmica observada nos dois últimos anos. Ana diz que não há perspectiva de melhora substancial nesse campo, “dado que a Taxa Selic deverá permanecer mais alta que o esperado há alguns meses”. Ela destaca Pesquisa CBIC/BRAIN que mostrou pequena retração das vendas fora do enquadramento do MCMV – de 1,9% no primeiro trimestre de 2024 em relação a 2023, ainda que se sustentem em nível elevado. “Ainda assim, os indicadores de atividade e as expectativas setoriais sinalizam que, alavancada pelas empresas, a construção deve contribuir de forma positiva para a melhora da taxa de investimento do país em 2024. Porém, em um horizonte temporal maior, há desafios grandes para sustentar o crescimento”, conclui.
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