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04 Abr 2022

Aumento concentrado do investimento em 2021 ressalta nossos desafios de crescimento

Carlos Antonio Rocca, coordenador do Centro de Estudo de Mercado de Capitais (Cemec), da Fipe

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Apesar de as perspectivas de crescimento da atividade brasileira nos próximos anos terem sido sistematicamente revisadas para baixo durante 2021, a taxa de investimento em relação ao PIB cresceu. Depois de limpar os efeitos da internalização de plataformas de petróleo pela Petrobras, e do viés de alta dos preços relativos de bens de capital - exercício realizado pelo pesquisador associado do FGV IBRE Gilberto Borça em artigo recente - o saldo é de 2 pontos percentuais a mais do que em 2019. Análise recente feita pelo economista Carlos Antonio Rocca, coordenador do Centro de Estudo de Mercado de Capitais (Cemec), da Fipe, aponta que esse ganho esteve concentrado no setor privado, e nas atividades agrícola e de construção. “Se olharmos o Índice de Composição Bruta de Capital Fixo do Ipea, veremos que entre os setores de bens de capital, os voltados ao setor agrícola, peças agrícolas e construção representam praticamente ⅔ do avanço do investimento”, diz. Rocca também buscou evidências dessa concentração olhando o desempenho das empresas abertas até o terceiro trimestre de 2021. Apesar de o setor agrícola estar subrepresentado na bolsa - são 1% do total, contra 8,3% nas Contas Nacionais - aí também estas se destacaram. “Separamos 25 empresas abertas que são relacionadas ao agronegócio  e constatamos que o valor investido por elas foi mais que o dobro da média das demais”, afirma.

Alta do investimento é concentrada
índice de produção física da indústria (2012=100)


Fonte: IBGE; elaboração Cemec.

 

Perspectiva de crescimento nos três anos à frente é revisada para baixo e chega ao menor nível desde 2015
(média da expectativa Focus para os 3 anos seguintes)


Fonte: BC; Elaborado por Cemec.

Em entrevista para a revista Conjuntura Econômica de abril, Rocca afirma que, no agregado, as empresas abertas registraram um nível de lucros retidos que enseja disposição para manter o investimento. Mas que o ambiente adiante é desafiador, devido ao alto grau de incerteza que domina a economia mundial, acentuado por ano de eleições presidenciais no país. Na conversa, Rocca também ressaltou que o aumento de investimento de 2021 foi registrado em atividades com perspectivas positivas - o agro, pelo aumento do preço das commodities agrícolas e da própria taxa de câmbio em 2021, ganhando em rentabilidade, e a indústria de construção pelas baixas taxas de juros que vigoraram até parte do ano, estimulando o financiamento imobiliário.  E que, para disseminar esse dinamismo para o restante da economia, é preciso resgatar a capacidade de crescimento do país. “Quando observamos a perda de dinamismo da economia brasileira desde os anos 1980 - de lá para cá, a renda per capita cresceu em média 0,8% ao ano - identificamos que um fator crucial foi a produtividade total dos fatores (PTF)”, lembra. No FGV IBRE, o monitoramento da PTF realizado pelo Observatório da Produtividade Regis Bonelli mostra que a evolução da PTF no Brasil desde a pandemia foi provocada por uma mudança de composição nos setores econômicos (leia o relatório mais recente), não alterando o padrão de baixo crescimento observado antes do choque sanitário. Na conversa com a Conjuntura Econômica, Rocca aponta que perseverar no caminho das reformas faz parte dessa tarefa - no caso, na reforma do Estado, para recuperar a capacidade de poupança e investimento do próprio setor público, e na abertura da economia brasileira, para ampliar a competitividade das empresas. Com isso, defende, será possível ampliar o investimento na economia brasileira. E, mais especificamente, o investimento em inovação, do qual os ganhos de PTF se tornam cada vez mais dependentes. “Já em 1912, Joseph Schumpeter já havia chamado a atenção de que cada nova ideia, para ser adotada, tem de entrar em conflito com as inovações que chegaram antes. À medida que as inovações surgem, há sempre um componente político, de grupos organizados em defesa própria - e aqui não quero dizer que não seja um movimento legítimo - que buscam frear esse processo e manter o status quo”, diz, destacando a importância de conter os movimentos que impedem a indústria brasileira ganhar competitividade e crescer. “No campo da reforma do Estado, isso se reflete na reforma administrativa, na revisão de incentivos fiscais, isenções. Já no caso da abertura da economia brasileira, é necessário pensar em um processo gradual, com etapas claras, de tal forma que dê para todos se prepararem”, afirma. “É preciso convencer a sociedade de que esse é o caminho a se trilhar.”

Evolução PTF (1o tri2012=100)


Fonte: Observatório da Produtividade Régis Bonelli. 

 

Crescimento potencial combinações de taxas de crescimento e PTF


Fonte: IFI – Senado.

A entrevista completa estará na Conjuntura Econômica de abril. Não perca. 

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.