Alguns destaques do Boletim Macro FGV IBRE
Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro
A chamada super quarta dessa semana (18/9), não trouxe surpresas. Nos Estados Unidos e na zona do Euro, a taxa de juros foi reduzida. Por aqui, o Copom elevou um pouco os juros. A dúvida antes dessas reuniões era qual seria o tamanho do corte e do aumento dos juros.
Nos EUA o Fed, o banco central, cortou os juros em 0,50 pontos, em uma decisão onde somente um dos membros queria um corte mais ameno, de 0,25 pontos. Há sinalização de que mais dois cortes devem ocorrer até o final deste ano, embora o presidente do Fed, Jerome Powell, tenha sinalizado que as próximas decisões serão tomadas a cada reunião, dependendo de como a economia vai se comportar. Na zona do Euro também houve um corte, menor, de 0,25 pontos. No Brasil, como a maioria dos analistas previam, houve um aumento na Selic, a taxa básica de juros, de 0,25 pontos.
O comunicado emitido depois da reunião do Copom, deixa claro que a economia necessita de uma política monetária mais restritiva, em função da “resiliência na atividade econômica (espera-se um crescimento do PIB este ano da ordem de 3% ou pouco acima disso), pressões no mercado de trabalho, hiato do produto positivo, elevação das projeções de inflação e expectativas desancoradas”. Também para o Comitê “há uma assimetria altista em seu balanço de risco para os cenários prospectivos para a inflação”, e que “uma política fiscal crível e comprometida com a sustentabilidade da dívida contribui para a ancoragem das expectativas de inflação e para a redução dos prêmios de risco dos ativos financeiros, consequentemente impactando a política monetária”. E como temos observado, os gastos continuam aumentando fazendo com que as contas públicas não fechem.
A incerteza fiscal tem levado a um aumento dos juros futuros. Divulgado na sexta-feira (20/9), o relatório bimestral de receitas e despesas reduziu a contenção de gastos que seria de R$ 15 bilhões, conforme divulgado em julho, para R$ 13,3 bilhões. Isso aumentou a desconfiança do compromisso do governo com o equilíbrio fiscal.
O Boletim Macro FGV IBRE deste mês, assinala que “há riscos no horizonte, como a possibilidade de que a atividade e a inflação surpreendam para cima, especialmente nos EUA, onde Donald Trump e Kamala Harris, candidatos à Presidência, aparecem com plataformas calcadas em novos estímulos fiscais e, ainda que com diferenças, também dispostos a seguir aumentando as barreiras às importações. Mas, no todo, o cenário central é de que o ciclo de flexibilização monetária nas economias desenvolvidas, com a exceção do Japão, e com destaque para os EUA, siga gerando um cenário mais favorável para os emergentes, em especial com um dólar mais fraco. Em particular, os países da América Latina devem se beneficiar, com destaque para o México, que tem passado por intensa desaceleração na atividade. A perspectiva é de manutenção de corte de juros, contribuindo para um maior crescimento no ano que vem. Outros países da região também continuam com um movimento de sincronia com a política monetária americana”.
A única exceção entre os países da região é o Brasil que subiu os juros. Como menciona o Boletim, “pelo comunicado do Copom, estão em aberto o ritmo e a magnitude do ciclo de aperto. Entretanto, o comunicado apresentou o cenário de referência com as projeções de inflação, com a trajetória para a taxa de juros extraída da pesquisa Focus. Neste caso, a inflação permanece acima da meta no horizonte relevante de política monetária, que é o primeiro trimestre de 2026 (3,50%). Em suma, o cenário indica que elevar a Selic até 11,50% e voltar com ela para 10,50% até dezembro de 2025 não seria suficiente para trazer a inflação para a meta”.
Armando Castelar e Silvia Matos ressaltam que “já se conhece bem o quadro atual, que repete o vivido no início do século, com a diferença de que o cenário externo não é tão favorável e o setor público não gera superávits primários significativos em suas contas. Quando a política fiscal é expansionista, é necessária uma política monetária mais contracionista para controlarmos a inflação. A política fiscal expansionista cobra o seu preço. E, pelo menos, por enquanto, não há sinais de reversão nessa combinação de políticas”.
Segundo o Boletim Macro, que foi destaque na edição de hoje (24/9) no jornal Valor Econômico, a economia deve desacelerar 0,1% neste terceiro trimestre do ano, em relação ao trimestre anterior. Como diz Silvia Matos, coordenadora do Boletim, na matéria do Valor Econômico, “tivemos superaceleração da atividade, e agora vamos ter alguma acomodação...É um crescimento baixo?. Não, mas o segundo trimestre foi tão forte que dificilmente vamos repetir algo acima de 0,5%, na comparação com o trimestre anterior”.
Veja alguns destaques do Boletim Macro FGV IBRE
• Atividade econômica - Os dados divulgados pelo IBGE em 3 de setembro revelaram que o PIB cresceu 1,4% no segundo trimestre de 2024, superando as expectativas mais otimistas, que eram de 1,1%.. Esse avanço foi impulsionado principalmente pelo aumento no consumo das famílias e nos gastos do governo, com os investimentos também subindo bem, ainda que com alta abaixo das previsões. As projeções para o crescimento da indústria e dos serviços no terceiro trimestre foram revisadas para cima, assim como as expectativas para o consumo das famílias e os gastos do governo, o que sugere continuidade no crescimento econômico ao longo do ano, ainda que em um ritmo mais moderado.
• Expectativa dos empresários - Os índices de confiança do FGV IBRE avançaram de forma moderada em agosto, levantando incertezas sobre a continuidade da tendência de alta observada nos meses anteriores. No âmbito empresarial, a confiança da Indústria permanece superior à dos demais setores, com avanços em Serviços e Construção, mas queda no Comércio. Do lado dos consumidores, o resultado foi impulsionado pelas faixas de renda mais altas. Uma prévia de setembro sugere queda em ambos os índices agregados para o mês.
• Mercado de Trabalho - A edição de julho de 2024 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) mostrou que a taxa de desemprego fechou em 6,8%, alinhada com as projeções do FGV IBRE, mantendo-se estável em 6,9% na série dessazonalizada - no menor nível desde junho de 2014. Para agosto, espera-se nova redução, para 6,7%. Enquanto o emprego cresce de forma lenta, os rendimentos aumentam a altas taxas, ainda mais quando consideradas as horas trabalhadas, em que se vê uma redução da jornada média, especialmente no setor informal, em que a renda por hora cresceu cerca de 5 pontos percentuais a mais do que no setor formal. Adicionalmente, metade dos setores apresentou queda na jornada média, mas todos registraram aumento na renda. Serviços domésticos informais e alojamento e alimentação informais tiveram as maiores reduções na jornada, mas aumentos significativos na renda.
• Inflação - O IPCA de agosto registrou leve queda, de 0,02%, influenciado principalmente pelos grupos Alimentação e Habitação. No entanto, esse alívio não sinaliza uma tendência, já que, em setembro, os mesmos grupos pressionam a inflação devido à seca, às queimadas e ao reajuste da tarifa de energia. A desvalorização cambial e o aquecimento do mercado de trabalho também contribuem para o cenário inflacionário, ampliando a demanda por bens duráveis e serviços. Com isso, a inflação poderá fechar o ano entre 4,4% e 4,9%, dependendo da intensidade desses fatores. A trajetória será fortemente definida pelo comportamento climático nos próximos meses.
• Política monetária - A reação do Copom neste mês de setembro é uma resposta ao cenário inflacionário preocupante que temos pela frente. A postura do BC ajudará a conter a expansão da demanda e as expectativas de inflação, bem como na obtenção de projeções de inflação mais próximas da meta. Não é certo, porém, que o Banco Central elevará a Selic até o patamar rigorosamente necessário ao cumprimento do objetivo básico da política monetária. Isto só se tornará mais fácil quando tivermos uma política fiscal compatível com a estabilidade de preços, ou algo que disto se aproxime.
• Política fiscal - A meta fiscal para 2025 é um desafio relevante, mas será muito importante cumprir a meta com melhora mais expressiva do resultado primário estrutural. Há dúvidas sobre a sustentabilidade das receitas que estão sendo geradas, sobre o comportamento futuro da política fiscal caso a economia desacelere e, principalmente, sobre o significado econômico de se atingir as metas quando há muitos itens excluídos do controle fiscal que está sendo praticado. As dúvidas com relação à credibilidade do que está sendo feito na política fiscal precisam ser reduzidas.
• Setor externo - O saldo comercial de “Petróleo e Derivados” (P&D) é positivo desde 2017, o que tem contribuído para o superávit da balança comercial. Olhando o acumulado do ano até agosto, vê-se que o saldo de “Outros Produtos” caiu de US$ 48,5 bilhões em 2023 para US$ 33,8 bilhões em 2024. Nesse mesmo período, o saldo de P&D aumentou de US$ 14,0 bilhões para US$ 20,3 bilhões, contribuindo, portanto, para uma menor queda do superávit da balança comercial
• Internacional - Aparentemente, os participantes de mercado que apostaram em queda de juros de 50 pontos entenderam corretamente a mensagem que o Fed desejava passar. Nas palavras de Powell, o objetivo foi explicitar o compromisso com o pouso suave da economia e com a ideia de não ficar “atrás da curva”. Como o próprio mercado de início percebeu, não cabe supor que os próximos movimentos serão da mesma magnitude. Para isso contribui o fato de que, dentre os 19 integrantes do Fomc, dois não preveem redução adicional dos juros e sete preveem apenas uma queda de 25 pontos até dezembro de 2024.
Leia na íntegra o Boletim Macro FGV IBRE de setembro.
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