“Ainda há chances de termos a inflação dentro do intervalo da meta este ano”

Livio Ribeiro, pesquisador associado do FGV IBRE

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Apesar do cenário mais complicado do que o inicialmente esperado para a inflação em 2022, como aponta o Boletim Macro do FGV IBRE – devido especialmente ao impacto do clima na safra agrícola e à alta do preço do petróleo com a piora das perspectivas quanto ao conflito entre Ucrânia e Rússia – ainda há chances de a inflação fechar o ano dentro do intervalo de tolerância da meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que em 2022 é de 3,5%, com teto de 5%. Para Livio Ribeiro, pesquisador associado do FGV IBRE, sócio-diretor da BRCG. A melhora do regime de chuvas – que levou os reservatórios a registrarem um nível médio não visto a uma década – pode trazer o alívio necessário ao IPCA, levando-o a 4,9% nos 12 meses fechados em dezembro.

“Essa melhora dos reservatórios abre margem para uma antecipação da derrubada da bandeira de escassez hídrica, atualmente prevista para se manter até final de abril. Caso o fim dessa bandeira aconteça em março e haja uma mudança diretamente para a bandeira amarela em abril, isso significaria um impacto de 90 pontos-base (bps)”, afirma. Ribeiro indica que esse pode não ser o final da história para os preços da conta de luz em 2022, já pondera que a temporada de seca no meio do ano deve levar a uma nova mexida na bandeira tarifária, para a vermelha. E que, no agregado, o panorama inflacionário continua assimétrico, com especial atenção à trajetória dos preços livres que, como apontado por ele na coluna Em Foco. “Ainda temos um cenário confuso pela frente, com muita dispersão”, diz. “Inflação e política fiscal podem registrar mudanças bruscas de direção. E ainda temos eleição no meio do caminho”, ressalta. Ribeiro afirma que suas projeções não consideram qualquer impacto de uma alteração na estrutura de impostos dos combustíveis, como as que tramitam em dois projetos de lei no Congresso: o PLP 11/20 e o PL 1472/21. Tampouco a possibilidade de municípios aproveitarem a folga de caixa gerada em 2021 para segurar reajustes no transporte público.

Inflação estimada – base (Selic a 12,5% em maio/22)


Fonte: BRCG.

A valorização do real frente ao dólar observada no início do ano, que poderia colaborar na contenção de preços, não é observada por Ribeiro como sustentável no decorrer de 2022. Ele ressalta que parte da descompressão observada do final de dezembro a meados de fevereiro concentrou-se na dinâmica ditada pelas commodities, e que extrapolar esse cenário de valorização das commodities para o restante do ano é algo pouco seguro. “Os Estados Unidos sinalizam a intenção de subir juros mais do que se esperava. Por outro lado, a retomada da economia chinesa não demonstra sinais da robustez que muitos previam. É difícil imaginar um aumento consistente de demanda, que justifique essa valorização das commodities, diante desse cenário. Isso sem contar a incerteza política que devemos ter pela frente, que também pode se refletir no câmbio”, diz.

BRL: paises selecionados (dez/21 = 100)


Fonte: Bloomberg.

Livio mantém a estimativa de que o movimento de alta na taxa básica de juros pelo Banco Central continue até maio, fechando 2022 em 12,5% ao ano. E considera que cortes na Selic só acontecerão a partir de meados do próximo ano, levando-a a 10,5% no fim de 2023. Esse cenário alongado de restrição monetária, diz, poderá comprometer a reação da atividade por mais um ano, levando-a a andar de lado. Contrariamente à maioria das estimativas de mercado, Ribeiro vê chances de o  PIB de 2023 fechar até mais próximo de zero em 2022 – a atual projeção do Boletim Macro é de PIB crescendo 0,6% este ano. “A confluência de fatores depressivos será maior no segundo semestre de 2022, o que também deve afetar a estrutura da atividade também em 2023”, conclui.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Subir